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O mediador entre Deus e os homens
Por: DOM ANTÔNIO AFFONSO DE MIRANDA - SDN
BISPO DE TAUBATÉ - SP
 
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A verdade dogmática que resulta mais objetiva do fato de o Verbo ter-se encarnado e ter-se feito verdadeiro homem, sem deixar de ser verdadeiramente Deus, é a da mediação única de Jesus Cristo entre Deus e os homens.

São Paulo a afirma numa fórmula explicitamente dogmática: “Há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo homem, que se deu em resgate por todos.”  (1 Tim 2, 5 e 6).

À luz desta afirmação, poderíamos concluir: Jesus é o caminho de Deus e para Deus.

Talvez convenha nos formulemos uma pergunta muito simples, que por tão simples, nunca nos formulamos: Que é mesmo um “mediador”?

Santo Tomás de Aquino, em a Summa Theologiae, faz uma análise muito arguta da mediação de Jesus Cristo e a fundamenta exatamente neste pressuposto do que vem a ser um “mediador”.

Ele explica: “mediatoris officium proprie est conjungere eos  inter quos est mediator: nam extrema uniuntur in medio.”  Traduzindo: “função do mediador propriamente é unir aqueles entre os quais ele é mediador, pois os extremos se unem no meio.” (Summa Theologiae, P.III, Q.XXVI, Art. 1)  É esta  a função de Cristo, que está entre Deus e a humanidade.  

Este, portanto, que une o Criador infinito com a humanidade finita,  que estabelece relações, que implora e consegue favores de Deus, leva os nossos rogos e precisões de pecadores Àquele que é a santidade em si mesmo, – este é o sumo e único Mediador.

E diz mais o grande Santo Tomás: “Só Cristo é o perfeito mediador entre Deus e os homens, porquanto através de sua morte reconciliou o gênero humano com Deus. Daí procede que quando o Apóstolo disse:  mediador entre Deus e os homens é o homem Cristo Jesus, logo acrescentou (v.6): Que se deu a si mesmo em redenção para todos.” (Summa Theologiae, na conclusão do art.1, citado acima).

Importante ponderar ainda que, sendo Deus infinitamente superior a todos, e nós a ele infinitamente inferiores, necessário se tornava que o mediador tivesse algo de comum com Deus e com os homens. Isto se realizou perfeitamente em Cristo, que, sendo Deus, encarnou-se, tornando-se perfeitamente homem.

Lembremos o texto da carta de Paulo aos Filipenses: “Sendo ele o Verbo de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhado-se aos homens”. (Fil 2, 5-8).

Esta expressão “assemelhando-se aos homens” deve ser explicada. Na verdade, o Verbo de Deus não somente se assemelhou aos homens. Sim, assemelhou-se também. Mas, em verdade, fez-se homem, tornou-se homem.

Cristo mediador tem, em seu ser, a perfectibilidade da mediação, pois ele partilha de ambas as naturezas: a de Deus, pois é seu Verbo e seu Filho, e a dos homens, pois é homem perfeito e nosso irmão maior – “o primogênito entre muitos irmãos”, como diz Paulo na Carta aos Romanos (Ro 8, 29).

Estamos aqui diante do ser mediador de Cristo, aquilo que os teólogos chamam mediação quoad esse. Pois a mediação se entende quanto ao esse (ser) e quanto ao operari (agir, fazer). Jesus Cristo é mediador pelo seu próprio “ser”: Deus-Homem. Mas o foi também pelo que operou: “a reconciliação de tudo em si mesmo pelo sangue da cruz” (Cl 1, 20)

Afirmar que Jesus é Mediador é de uma riqueza incomparável na ordem teológica e humana. Significa que o céu e a terra se encontraram em Jesus Cristo, que Deus e o homem se unem no perfeito sentido religioso, da palavra latina religare.

De religare é que procede religio,  em português religião. Religião exprime todo o conjunto de práticas pelas quais os homens buscam ligar-se a Deus.

Religare: ligar de novo os que estavam separados. A obra mais excelente criada por Deus, o homem, “imagem e semelhança de Deus”, não podia  mais voltar a Deus, não podia por si unir-se a ele. O pecado original levantara um muro de separação entre a humanidade criada e Deus Criador. A Encarnação rompeu este muro, refazendo a união entre ambos. Aqui está o esse, o ser da mediação de Jesus, Verbo Encarnado.

Em Jesus Cristo, Homem e Deus, a humanidade liga-se de novo a Deus. Poderíamos dizer: Jesus é o caminho de Deus e para Deus. “Eu sou o caminho a verdade e a vida, ninguém chega ao Pai senão por mim”. (Jo 14, 6).

E mais ainda, todos os homens se unem entre si por causa de Cristo e em Cristo. A mediação de Jesus não é só entre Deus e a humanidade; é também entre povos e nações e facções humanas, entre gentios pagãos e o povo eleito de Deus que já existia. A mediação de Cristo é a paz no sentido mais radical.
Significativo, a propósito, o texto de São Paulo aos Efésios que está em Ef 2, 11-19:

“Já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre os apóstolos e os profetas como fundamentos, sendo o próprio Cristo a pedra angular. É nele que todo o edifício, harmonicamente disposto, se levanta para ser um templo santo no Senhor. É nele que também vós outros entrais em conjunto, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna  habitação de Deus.”

Lendo-se este texto e meditando-o, compreendemos que Paulo acena para a Igreja de Cristo, “edificada sobre os apóstolos”, “templo santo do Senhor”, “que se torna habitação de Deus”. É aí que se religam Deus e a humanidade. É este o templo da verdadeira Religião (de religare) à que nos referimos acima.

Temos, assim, em Jesus duplo sentido da religião que precede de religare – restabelecer a união: 1) ligados de novo, os homens a Deus; 2) ligados de novo os homens entre si, sem inimizades, por causa de Cristo.

Religião é união com Deus. Religião é amizade, afeto fraterno entre os que estão em Cristo. Os que crêem em Cristo são chamados a professar e criar a religião entre todos. É a paz como fruto da fé.

A paz está no centro dos anseios humanos, e sobretudo dos anseios de Deus. Ela começou quando Cristo nasceu, e, por isso, os anjos cantaram: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens amados por Deus”. (Lc 2, 14). Ele mesmo é a nossa Paz. (Ef 2, 14). Os textos proféticos de Isaias falam de uma paz messiânica inimaginável. Uma paz que certamente não se realizará. (Cf Is. 19, 6-10). Este texto é um símbolo, uma alegoria do que os homens devem criar.

A paz entre os homens nascerá do perdão. Ou nunca se dará. Eis a advertência de Jesus: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará.” (Mt 6,14)

É admirável que Jesus não só curou tantos enfermos, mas que também lhes perdoou os pecados. E assim lhes restituiu a paz. Fazia parte de sua atividade messiânica e mediadora. Significativo, a propósito, o que está no episódio da cura do paralítico.(Mt 9, 2-9)

Perdoar pecados é mais do que curar fisicamente as pessoas, porque é curá-las no seu interior, e não só por fora. É o ponto mais alto e mais sublime da mediação de Jesus quanto a seu operar.

Por isso, também, ele deixou este poder de “perdoar pecados” aos ministros de sua Igreja. “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio...Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles  a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.”(Jo 20, 21-24)

Bendigamos para sempre ao nosso divino Mediador, que estendeu até nós a alegria do perdão de nossos pecados. O perdão é a fonte da paz.



 
 
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