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O Ungido do Espírito Santo
Por: DOM ANTÔNIO AFFONSO DE MIRANDA - SDN
BISPO DE TAUBATÉ - SP
 
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Neste artigo, gostaria de levá-los à consideração daquilo que resplandece em Jesus, logo que ele iniciou a sua vida pública, de contato com o povo: a unção do Espírito Santo que nele se revelou.

É ainda o ser de Jesus Cristo que vamos examinar agora sob um aspecto muito particular. Ele não só é o Verbo invisível de Deus. O Pai o revelou, mesmo enquanto é homem, ungindo-o com o Espírito Santo.

Apesar de Jesus ser o Verbo de Deus Encarnado, como nos ensina a fé, e como o consideramos  anteriormente, antes de iniciar sua vida pública no meio das multidões, nada aparece da vida e da luz que ele era.

Foi a partir do seu batismo nas margens do Jordão, que Jesus se mostrou a todos como o “Ungido de Deus”, como aquele em quem o Espírito Santo estava presente e atuava.

O próprio São Pedro relata: “Vós o sabeis. O acontecimento propalou-se em toda a Judéia; ele começou pela Galiléia, após o batismo proclamado por João; esse Jesus, oriundo de Nazaré, sabeis como Deus lhe conferiu a unção do Espírito Santo e do poder; ele passou por toda a parte fazendo o bem, curava todos os que o diabo mantinha escravizados, pois Deus estava com ele”. (At 10, 37 e 38).

Pedro confirma, neste texto, o que o próprio povo julgava e falava diante dos acontecimentos. Segundo a observação popular, Deus estava com Jesus, porque Deus lhe conferira a unção do Espírito Santo no batismo de João.

Mas Pedro, que proclamara um dia: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, aqui reconhece, neste texto, que o ser de Jesus – Deus–Homem revelado aos homens – é consequência de uma unção especial do Espírito Santo. E esta unção foi conferida à sua humanidade no dia de seu batismo no rio Jordão.

É de grande significado teológico o batismo de Jesus, cuja festa nos últimos tempos se passou a celebrar na liturgia do Ocidente, e desde os primeiros séculos já era celebrada na liturgia oriental. O batismo do Senhor não foi somente “ato penitencial” que ele quis praticar como exemplo ao povo. Os teólogos e Padres mais antigos reconheciam que, com o aparecimento do Espírito Santo em forma de pomba e a proclamação do Pai: “Este é o meu Filho muito amado”, uma efusão especial do Espírito desceu sobre a humanidade de Jesus, para impulsioná-lo à sua missão de Messias, próxima de iniciar-se.

E, mais, conforme reza a liturgia, naquele mesmo instante, Jesus mergulhando na água a sua humanidade, santificou as águas do universo para o futuro batismo que o próprio Jesus instituiu e a respeito do qual João profetizara: “Ele vos batizará no Espírito e no fogo”. (Mt 3, 11).

Assim pregou, entre outros Santos Padres, São Máximo de Turim, Bispo do século Vº: “Quando o Salvador é lavado, todas as águas ficam puras para o nosso batismo; a fonte é purificada para que a graça batismal seja concedida aos povos que virão depois.” (Liturgia das Horas, vol. I, p. 554)

“Segundo alguns autores, assim como na encarnação o Verbo se transforma em “Jesus”, assim também com a unção recebida no batismo ele se transforma no Cristo, isto é, o Ungido de Deus, o Messias: “Chama-se Cristo porque foi ungido pelo Pai com o Espírito Santo (Tertuliano, De Baptismo, 7, 1).” (RANIERO CATALAMESSA – Ungido pelo Espírito, Ed. Loyola, p. 15).

Ver Jesus em sua Humanidade como o Ungido do Espírito Santo representa, assim, para nós cristãos, ponto alto para nossa espiritualidade. Tanto quanto vê-lo como Verbo de Deus Encarnado.

São dois mistérios que se apresentam no Jesus que o Evangelho nos descreve. Um, referente à sua divindade oculta: Ele é o Verbo de Deus feito homem. O outro, referente à sua humanidade manifesta: ela é ungida, isto é, consagrada pelo Espírito do modo inefável para que Jesus seja o Cristo.

Pondo-nos diante de Jesus Cristo, fitando-o por dentro, devemos confessar que ele é o Verbo de Deus, a luz de Deus, a verdade de Deus, que “ilumina todo homem que vem a este mundo”. (Jo 1, 9); e fitando-o por fora, na aparência de sua humanidade, devemos professar que ele é o reflexo esplendoroso do Espírito Santo, que manifesta e anuncia e realiza no mundo o Reino de Deus.

A vida de Jesus aqui na terra se apresentou sob dois aspectos bem distintos: primeiro, Jesus viveu em Nazaré inteiramente oculto, não só quanto à sua divindade, mas até quanto à sua missão terrena; depois do batismo no Jordão, ao contrário, ele apareceu como sendo outro: – o enviado de Deus, o Messias.

Antes, simplesmente um carpinteiro, filho de um carpinteiro chamado José. Lucas observa, ao descrever-lhe a procedência genealógica: “Jesus, ao iniciar seu ministério, tinha cerca de trinta anos. Ele era filho, como se acreditava, de José, filho de Heli”. (Lc 3, 23).

Mas, depois do batismo no Jordão, começam todos a admirar sua sabedoria e a doutrina que jorrava de seus lábios. O mesmo Lucas escreve: “Então Jesus, pelo poder do Espírito, voltou para a Galiléia e a sua fama se espalhou a toda a região. Ensinava nas suas sinagogas, sendo glorificado por todos”. (Lc 4, 14 e 15). E Marcos conta com ênfase: “Eles ficavam impressionados com o seu ensinamento; pois ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas”. (Mc 1, 22).

E não só os homens viam Jesus diferentemente. O demônio, tão astuto que é, reparou quando ele mergulhou deserto adentro e “jejuou quarenta dias e quarenta noites”. “Quem é este?”- terá ele perguntado. E, arriscando-se a tentá-lo, começa suas insinuações dizendo assim: “Se és o Filho de Deus...” (Cf. Mt 4, 3 e 6; Lc 4, 3 e 9). Era uma dúvida ainda. Depois, para o próprio demônio a dúvida tornou-se certeza. Na Sinagoga de Cafarnaum, ele fala pelo possesso: “Que há entre nós e ti, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder. Eu sei quem tu és: o Santo de Deus”. (Mc 1, 24; Lc 4, 34). E o mesmo Lucas relata mais além: “Demônios também saiam de um grande número, gritando: Tu és o Filho de Deus!” (Lc 4, 41).

Que houve com Jesus? Que fulgor resplandecia nele?

Em sua divindade oculta, ele era o mesmo: o Verbo oculto, encarnado no homem que todos viam. Mas em sua humanidade visível, após o batismo e a descida do Espírito Santo sobre ele, prodígios começavam a acontecer, e ele mesmo era impelido interiormente pelo Espírito Santo. “Imediatamente o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto” – conta Marcos (Mc 1, 12). Mateus diz o mesmo (Cf Mt 4, 1). E Lucas faz questão de repetir: “Jesus, repleto do Espírito Santo, voltou do Jordão e estava no deserto, conduzido pelo Espírito, durante quarenta dias, e era tentado pelo diabo”. (Lc 4, 1). É interessante este confronto: Jesus “conduzido pelo Espírito”, Jesus “tentado pelo diabo”, que também é espírito.

O texto sagrado quer salientar o grande contraste que se dá face à humanidade de Jesus: antes, sem nenhuma influência explícita do Espírito Santo, agora impelida fortemente por ele.

O Espírito, sem dúvida, estava sempre em Jesus. Mas não se revelou senão a partir do instante em que, a mandado do Pai, ele principiou sua missão messiânica.

Foi então que tudo aconteceu. Não se sabe como tudo podia suceder tão rápido e repercutir tão longe. “Sua fama espalhou-se por toda a Síria, e trouxeram-lhe todos os que padeciam de toda espécie de doenças e tormentos: endemoninhados, lunáticos, paralíticos, e ele os curou. E grandes multidões o seguiam, vindas da Galiléia e da Decápole, de Jerusalém e da Judéia e do além Jordão” – descreve Mateus. (Mt 4, 24 e 25).

Certamente, Jesus não tinha o rosto irradiante como Moisés ao descer do monte Sinai (Ex 34, 29). Mas sua humanidade era agora sobrenaturalmente manifestada aos retos, aos pobres, aos humildes. João dissera do Verbo antes de se encarnar: “O Verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem”. (Jo 1, 9). Esta luz ficou oculta na humanidade de Jesus trinta anos. Quando esta humanidade foi ungida pelo Espírito Santo no batismo do Jordão, a luz se revelou, cumprindo-se o que o profeta Isaias tinha dito: “O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz; para os que jaziam na região sombria da morte levantou-se uma luz”. (Is 9,1)

“A partir de então, Jesus começou a proclamar: “Convertei-vos,o Reino dos Céus está próximo”. (Mt 16 e 17).

Antes, ele era somente Jesus. Agora, ele é o Cristo, isto é, o Ungido de Deus.

Conhecer Jesus Cristo em sua plenitude é a grande meta da espiritualidade verdadeira.

Quem não conhece Jesus Cristo caminha nas sombras, ou melhor, nas trevas. Quem o encontra no esplendor de sua luz, caminha na sublime ascensão de sua intimidade. Vejam os exemplos de Francisco de Assis, Inácio de Loyola, Teresa de Ávila, Teresinha de Jesus e tantos outros.

Senhor, que vos conheçamos em plenitude, para vos revelarmos plenamente a nossos irmãos!



 
 
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