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Um pai que sacrifica o filho
Por: Padre Wagner Augusto Portugal
 
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Um momento na história de Abraão nos coloca diante de sua maior prova de fé. Ele é o modelo daqueles que creem. Isaac é resgatado por meio de um sacrifício e isso se tornou mais tarde lei em Israel. Disso aprendemos que a vida é dom de Deus, mas isso não significa que Ele exija para si a vida de suas criaturas, nem no passado, nem no presente.

O trecho em questão não quer simplesmente justificar leis ou costumes adotados pelo povo de Deus ao longo da história. Ele é, na verdade, o melhor retrato da pessoa que crê em meio à escuridão da vida. O versículo um afirma que “Deus pôs Abraão à prova”, sem, contudo avisá-lo de que se tratava de prova. E o teste de Abraão é o mais duro possível: Isaac. Segundo o versículo dois, é seu filho único e Abraão o ama muito.

Abraão havia sido convocado a deixar o passado, confiando na promessa daquele que o chamou, prometendo-lhe terra e descendência. Isaac é filho da promessa e, ao mesmo tempo, é a esperança de futuro. Abraão é chamado a renunciar também ao futuro, devolvendo a Deus o dom da promessa. Assim acabam todas as seguranças para o velho patriarca. Deus age desse modo porque somente Ele é segurança, Ele, que se mantém fiel até o fim. Passando pela prova, Abraão amadurece na fé, tornando-se construtor de nova história e pai de um povo que irá perpetuar sua memória e ações, em outros tempos e lugares.

O povo de Deus não só se identificou com o Abraão eloqüente que conversa e pechincha com Deus, mas se identificou também com o Abraão que cala diante do mistério.

No episódio do sacrifício de Isaac, o patriarca quase não fala e Deus se manifesta somente no início e no fim do relato. Abraão tem de fazer tudo sozinho, em silêncio e envolvido pelo mistério incomparável de Deus, superando com fé e confiança os absurdos que a vida apresenta. Mas o povo se identifica também com Isaac, pois somos todos frutos de uma promessa e esperança de futuro. Nós, como Isaac, perguntamos quando percebemos que em nossa caminhada falta o essencial. E a única força que nos anima é esta: “Deus vai providenciar”.

Isaac é fruto da promessa. Mas Deus tirou de Abraão todas as seguranças para que ele não se acomodasse. Só assim é que a promessa se torna realização: “Uma vez que não me recusaste teu único filho, eu te abençoarei largamente e tornarei tua descendência tão numerosa como as estrelas do céu e como a areia da praia... Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque tu me obedeceste.”



 
 
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