Liturgia Dominical
 
Sagrada família, Jesus, Maria e José – B
Por: Padre Wagner Augusto Portugal
 
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“Vieram apressados os pastores e encontraram Maria com José e o Menino deitado no presépio.” ( Lc 2,16)

A Festa da Sagrada Família insere-se, teologicamente, na linha da missa da Noite de Natal: a contemplação da condição humana de Jesus. Esta contemplação aproveita para encaminhar algumas atitudes concretas para a vida de todos os cristãos de boa vontade, especialmente no relacionamento para com a família, célula mater da sociedade.

A vida da família de Jesus, especialmente a vida de Jesus, é um modelo para todas as famílias cristãs e para todas as comunidades. Esse paradigma não é somente numa linha moralista, mas na comunhão de vida, comunhão de amor, onde as vidas se fundem em um só coração e em uma só alma. O amor: cerne do mistério da encarnação no projeto de salvação do Pai.

Nessa perspectiva do amor de Deus, que se deve refletir em nossa vida, é importante no dia de hoje meditarmos sobre a Família de Nazaré. Desta forma, imbuídos em seu espírito, voltarmos à nossa própria situação pessoal.

A primeira e a segunda leitura elencam um código moral para vivermos em família. Estas perícopes não ensinam apenas um bom comportamento, mas, acima de tudo, a participação do mistério da humanidade de Deus: o amor entre os pais e os filhos é extensão e seguimento do amor que Deus tem por nós. Somente depois de ter colocado esta fundamentação, Paulo lembra aos seus paroquianos os bons costumes da civilização judaica na qual vivem.

A lição para nós, hoje, é a seguinte: tomando consciência de que a vida familiar é inserir-se no plano salvífico de Deus, valorizemos positivamente as chances que a estrutura familiar nos dá, para realizar algo de amor que Deus nos mostrou, nos ensinou e nos encaminhou. Tudo o que tudo o que fizermos, façamo-lo em nome do Senhor Jesus.

Irmãos e Irmãs,

Hoje não é possível mais viver a família patriarcal. Na maioria das famílias já é reconhecida a paridade, isto é, os direitos iguais, responsabilidades semelhantes para o homem e para a mulher, dentro daquilo que o Código de Direito Canônico ilumina toda a vida matrimonial: “O matrimônio é uma união indissolúvel e unitária, como comunhão de vida e de amor, para toda a vida”. Dentro desta comunhão de amor e de vida, de doação, dando-se e recebendo-se mutuamente, todos nós somos convidados a construir a família na co-responsabilidade do amor, edificando a Igreja Doméstica, como prefiguração da “civilização do amor”, nas palavras do Papa Paulo VI, de santa memória.

Ao celebrar a Sagrada Família, a Liturgia realça o ambiente humano, concreto, em que se criou o Filho de Deus. Uma família externamente igual a todas as famílias de Nazaré. Uma mãe, que tecia as roupas do marido e do filho. Um homem, José, pai legal de Jesus, que tinha um ofício, trabalhava na carpintaria. Uma família normalíssima também na pobreza, que levava uma vida diária no trabalho, na oração, na alegria e no sofrimento.

E a Sagrada Família ilumina a nossa reflexão acerca do papel de seus atores: José, chamado de “homem justo” (Mt 1,19); Maria, “agraciada por Deus” (Lc 1,28) e Jesus, o menino, por ser o primogênito, fora consagrado ao Senhor, como mandava a Lei de Moisés (Ex 13,2.12.15). Jesus teve que aprender a ler e a escrever como todas as crianças da escola, decorar as orações costumeiras das famílias judaicas e assimilar a Lei de Moisés, com as diferenças estabelecidas pelos Doutores do Templo. Sobre esta família pousava o Espírito Santo de Deus. Com esta família “estava a graça de Deus” (Mt 13,44), porque José fazia as vezes de Deus Pai, Maria se tornara a Mãe de Deus e o menino era o “Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os Séculos” (ensinamento do Símbolo da Fé).

A Festa da Sagrada Família é o momento privilegiado que a Liturgia nos oferece para celebrarmos esta realidade tão importante e atual em nossas vidas: somos família.

O Pai Eterno quis ser hóspede em nossa vida: somos Igreja Família. Deus, na sua misericórdia infinita, se fez tão próximo, tão íntimo, que se nos tornou familiar, tornou-se um de nós, membro da nossa família, gente muito próxima, ou seja, de casa. Somos família também porque a fé em Cristo nos faz irmãos e irmãs uns dos outros.

Jesus veio fazer parte da grande família humana, revelando a dignidade de todos e de cada ser humano. Veio também congregar numa só família, que é a Santa Igreja Católica, aqueles e aquelas que, acolhendo ao projeto do Pai, se põem a viver e a construir novas relações entre si, relações de amor, de serviço e de vida.

Meus irmãos,

Diante de tudo isso, cabe uma pergunta: aonde vai a família? Como vai a família?

Aqui, vale a mensagem de dona Carmem Damasceno Assis, falecida em abril de 2008, depois de uma vida virtuosíssima, ao se dirigir a um outro santo, Dom Luciano Mendes de Almeida: “Senhor Arcebispo, reze muito pela família. Parece que ela está desaparecendo. Sem família não há Deus”.

A preocupação da saudosa confessora da fé, dona Carmem, progenitora do venerando arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis, deve ser a preocupação de todos os homens e mulheres de boa vontade: olhar para a realidade de sua família e procurar ajudá-la a se configurar cada vez mais nos exemplos da Família de Nazaré. Não há tesouro maior do que o amor de pai, o amor de mãe, o amor de filho para com os pais e vice-versa.

Como a encarnação do Cristo eleva a natureza humana a ser capaz de conter Deus – assim também sua habitação num lar humano faz deste lar uma casa de Deus, aliás, a vocação de todos os lares: serem lugares de tanta bondade, que até Deus aí se sinta em casa. Esta é a missão nossa, fazer, de nossas famílias, casa e morada de Deus. Desta forma, construiremos aqui e agora a grande família de paz e solidariedade em Cristo Senhor.

A Família de Nazaré é para nós um vivo exemplo de modelo de fé.

Maria foi uma mãe que acreditou no Senhor em todas as circunstâncias, inclusive nos momentos da paixão e morte de Jesus, até a desolação de quando o sepultaram, aquele a quem estava prometido “o trono de Davi e um reinado sem fim” (Lc 1,32-33). Pode-se dizer que aquilo que São José fez o uniu, de maneira magnífica e especial, à fé de Maria: ele soube aceitar como verdade proveniente de Deus o que Maria tinha aceitado na anunciação do arcanjo Gabriel. Maria e José fizeram o seu itinerário de caminhada de fé. Foram verdadeiros “peregrinos da fé”. Fé nas promessas escutadas. Fé vivida no cotidiano na guarda, na educação e no acompanhamento do crescimento do Menino. Foram os primeiros depositários do mistério divino.

A Liturgia de hoje, também, apresenta uma outra família, a de Abraão, Sara e Isaac. Abraão é chamado de nosso “pai na fé”. Ele funda toda a vida unicamente sobre Deus e não vacila, nem mesmo no momento em que Deus lhe pede o sacrifício de seu único filho (Gn 22,1-19). É bom notar a esperança de Abraão a quem Deus prometera multiplicar a descendência como as estrelas do céu (Gn 15,5). Podemos proclamar que Abraão acreditou no Senhor. São Paulo nos ensina que Abraão encarna a fé que é o fundamento do que se espera e a convicção das realidades que não vêem (Hb 11,1).

Por isso, a Igreja coloca a Sagrada Família e a família de Abraão, Sara e Isaac como modelos a serem seguidos. Modelos de quem aderiu, com fé autêntica e verdadeira, à vontade de Deus. A fé verdadeira que se abre para Deus, ouve a sua Palavra e a coloca em prática (Lc 8,21), mesmo que seja necessário esperar contra toda a esperança humana (Rm 4,18)

A fé que devemos professar ao mundo é integrante da nossa família, da nossa condição humana e é isso que hoje celebramos. Celebrar a vida na família, como experiência de uma caminhada de fé autêntica e atuante, evangelizadora. Que Jesus, Maria e José nos ajude neste bom propósito.



 
 

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