Liturgia Dominical
 
Solenidade de Todos os Santos - A
Por: Padre Wagner Augusto Portugal
 
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"Alegremo-nos todos no Senhor, celebrando a festa de todos os santos. Conosco alegram-se os anjos e glorificam o Filho de Deus".

Irmãos e irmãs,

Ao se aproximar o final do Ano Litúrgico, a Santa Igreja oferece-nos momentos especiais para a meditação do que há-de vir. Neste mês de novembro, especialmente, três solenidades marcam este momento: a celebração de Todos os Santos, a solenidade de Fiéis Defuntos e, ao final do mês, Cristo Rei. São três instantes marcantes: a celebração da Igreja Triunfante, a da Igreja Padecente e o triunfo de Nosso Senhor ao final dos séculos.

No Brasil, por especial concessão da Santa Sé, as festas de guarda são permitidas transferirem sua celebração para o domingo seguinte, quando caem durante a semana.

Envolvido pela grandeza desta solenidade, vem-me à lembrança as palavras de um pregador que fascinaram-me na infância, povoando minha imaginação com aquela homilia fenomenal: “Hoje o céu assume a terra. A terra assume o céu. A Igreja militante neste mundo se une à Igreja Padecente do Purgatório para glorificar e louvar a Igreja Triunfante do Céu, na presença da Trindade Santíssima”.

Com estas lembranças que enchem a minha alma de doce saudade e esperança cristã, celebramos a festa do José, da Maria, do Antônio, do Pedro, da Conceição, santos da terra unida à multidão de santos consagrados e anônimos, como Ambrósio, Inácio de Loyola, Pedro e Paulo, Bento, Atanásio, Clara, Rita de Cássia, Teresa de Jesus, Teresa do Menino Jesus, Paulina, José, Anchieta, Camilo de Léllis, Affonso de Ligório, Escrivá, Hurtado, Antônio de Pádua, Geraldo Majela, Antônio Galvão e tantos outros santos de nossa devoção que nos ensinam o cotidiano da vida cristã, rumo à Jerusalém Celeste.

Celebramos hoje as três dimensões de nossa vida cristã: a vocação à santidade futura no céu; a santidade do passado – daqueles que nos precederam na visão beatífica - e celebramos a santidade gratuita de Deus na nossa caminhada neste vale de lágrimas rumo ao Absoluto.

A Mãe Igreja nos convida hoje para celebrar os seus filhos, os canonizados e os não canonizados, os conhecidos e os desconhecidos, os que morreram em defesa da fé, como mártires, e os que também tombaram confessando com fidelidade a nossa fé. Celebramos todos os santos que uniram fé e práxis de vida comunitária, testemunhando Jesus Ressuscitado na sua realidade e em seu estado de vida.

Mas por que celebrar os santos do céu e da terra? Porque todos nós somos convidados à vida de santidade atendendo ao mandato bíblico: ”Vivei a santidade, santificando uns aos outros, porque Deus, o Poderoso, é o Santo dos Santos”.

A santidade é um caminho espinhoso. Combatendo o bom combate, todos são convidados a trilhar este árduo caminho, especialmente a partir da dimensão comunitária, a dimensão paroquial, de engajamento no projeto de evangelização, para aproximar-se mais e mais da plenitude da eternidade, no amor de Deus.

O Evangelho desta festa é a doce alegria cristã das Bem-aventuranças(Mt 5,1-12a). Bem-Aventuranças que é o programa, o ideário, o caminho ideal para se alcançar a santidade de estado e de vida. A santidade ela é uma conquista, é a vitória no “combate espiritual” que pugnamos no dia-a-dia, sempre tendo presente que a santidade provém de Deus. A santidade, ou seja, o estar bem com Deus é dom e missão. Deus nos dá a graça da santidade, mas nós a devemos realizar em nossa vida e irradiar em nosso redor. Como dom, só pode ser recebido pelos que não estão cheios de si mesmos: os pobres, humildes, sofridos, pacientes.
E como a santidade chega aos homens? Com a encarnação do Redentor, pela sua morte na Cruz, pela remissão dos pecados de todo o gênero humano, homens e mulheres devem se espelhar neste maravilhoso evento onde se haure a santidade divina.

As bem-aventuranças, apresentadas na Liturgia da Palavra, devem ser consideradas como o caminho da felicidade. A CNBB nos convida, com as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, a reler este Evangelho como caminho de santidade, lançando as redes em águas mais profundas, atentos à exortação do saudoso Pontífice João Paulo II: “Duc in altum!”.

Mas, queridos irmãos, o que é ser santo? O Concílio Vaticano II nos ensina que, considerando a vida daqueles que seguiram fielmente a Cristo, “somos incitados a buscar, por novas motivações, a cidade futura e, simultaneamente, instruídos sobre o caminho seguríssimo pelo qual, entre as vicissitudes do mundo, segundo o estado e a condição de cada qual, podemos chegar à perfeita união com Cristo, ou seja, à santidade”.

Ser santo, portanto, é seguir e imitar os exemplos, palavras e obras de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ser santo é ser pobre, no sentido de desprendido dos bens do mundo, e ávido pelos bens do céu, aberto aos excluídos sob todos os aspectos, aos famintos da graça divina, ao mendigos da misericórdia de Deus. Ser santo é acolher e perdoar. Ser santo é ser pacífico, é ser generoso, é ser caridoso, é ser acolhedor, é chorar com os que choram, é dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede. Ser santo é tirar o seu agasalho e agasalhar a quem tem frio e está no relento.

Num mundo tão cruel, com tanta fome, tanta miséria, tanta guerra, tanta violência, tanto desentendimento, a exemplo dos santos e santas que a Igreja no-los apresenta, devemos anunciar o Evangelho da acolhida, do amor, do perdão e da multiplicação de dons e bens.

Irmãos caríssimos,

O convite para lançar as redes nas águas mais profundas é o comovente convite para a busca incessante da santidade. Todos, pecadores e santos, somos convidados, porque Deus conhece os nossos corações e nos chama à conversão. Somos convidados a ser santos, santos, santos e cada vez mais santos e imaculados. A vocação universal dos cristãos é a santidade: “Sede santos, como o Pai celeste é santo” (Mt 5,48).

A santidade é o doce chamado desta liturgia sagrada. Uma santidade que começa na família, na comunidade, na Paróquia, entre os amigos, no trabalho, enfim, que permeia a vida como um todo. A santidade não é inatingível, porque ela deve ser vivenciada nas coisas simples, nas coisas comuns, no cotidiano da vida cristã, procurando viver os mandamentos cristãos com grande e eloqüente simplicidade, em íntima sintonia com a Santíssima Trindade.
  
Ao mirarmos a imagem dos santos – ao contrário do que os injuriosos e incompreendidos dizem que adoramo-las – recordamos os exemplos edificantes de vida desses paradigmas de vida cristã, de constante sintonia com o Deus Trindade, e inspirados neles traçamos nossa caminhada rumo ao definitivo, à visão beatífica de Deus.

Ter a um santo ou a uma santa como intercessor junto de Deus é como olhar o porta-retrato do pai ou da mãe no criado-mudo da cama e passar a mão naquela fotografia que nos relembra a pessoa querida e nos interpela a ser santo ou a evangelizar como aquela pessoa, cuja ausência se torna uma presença pelo amor que lhe devotamos.

Adoramos o Deus Trindade. Veneramos nossos santos e a Virgem Maria, presença forte, determinante, inspiradora para todos os cristãos. Afinal, quem não se ufana da Mãe que tem? Sem o amor sacrossanto do papai com a mamãe, não estaríamos hoje aqui. Por isso, veneramos nossos santos, como nossos pais, como nossos motivadores para a santidade de vida.

A segunda leitura(1Jo. 3,1-3) desta solenidade proclama nossa atual santidade, por sermos filhos de Deus e templos do Espírito Santo, embora ainda não seja manifesto o que “seremos” após o Juízo, de acordo com a nossa caminhada de fé. Por isso, celebramos hoje, também, a Igreja Militante, que caminha neste mundo, com suas alegrias e misérias, sob a inspiração da Igreja Triunfante, com muita vontade de lançar as redes em águas mais profundas, em busca da santidade que nos envolve e nos eleva: “Duc in altum”.

A tudo isso se une a primeira leitura(Ap 7,2-4.9-14), com a visão antecipada do Apocalipse sobre a plenitude de todos aqueles que aderiram a Deus. Quem aderiu a Deus participará das núpcias do Cordeiro, como eleitos.

Eis, pois, como todos somos convidados a santidade. Nós, Igreja Militante, com homens e mulheres do povo sofrido, somos convidados a caminhar rumo à Igreja Triunfante, na firme certeza de que a santidade é a meta básica da vida cristã. É preciso ser santo: isso é o principal! O resto é conseqüência do amor gratuito de Deus pelos homens.

A santidade é a perfeição de vida que se conquista no dia-a-dia, com altos e baixos, momentos de alegria e momentos de tristeza. Nossa grande esperança, a armadura que com que nos revestimos confiante nessa batalha, é a cruz que venceu o medo, o pecado e a morte, o capacete da vitória cristã.

Em tudo isso está a frase que marcou o meu cristianismo: “Enquanto o mundo, gira a cruz permanece de pé! Cruz da vitória da morte sobre o pecado. Cruz da vitória de Deus contra a soberba. Cruz, sofrimento diário que abre as portas do Céu”.



 
 

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