Vocação
 
Uma Igreja Ministerial - Vocação e Ministérios
 
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1º) Toda Igreja em estado missão

Para ser autenticamente evangélica e continuar a missão de Cristo, a Igreja deve estar inteiramente voltada para a missão, para o serviço. Para tanto ela há de ser toda ministerial, o que implica:

- Fidelidade total a Cristo e, em Cristo, ao homem e à sua história.

- Atitude de serviço humilde, como a de Cristo, que deve permear toda a atuação da Igreja e dos cristãos.

- Que todos na Igreja são chamados a assumir um serviço, um ministério.

A Igreja é na sua essência missionária e a obra da evangelização é um dever fundamental do povo de Deus, portanto, de todas as comunidades cristãs (AG 35-37). Esta permanente missionariedade da Igreja, do povo de Deus, não deve ser compreendida só como "implantação da Igreja" (missões além fronteiras), mas como "serviço ao mundo".

A distribuição dos serviços ou ministérios na Igreja constitui um teste fundamental e condição essencial de sua fidelidade ao Evangelho e à sua missão evangelizadora.

2º) Todo batizado é responsável pela missão Igreja

Um cristão dos primeiros tempos da Igreja, seja da época dos apóstolos e dos primeiros mártires, seja de alguns séculos depois, ter-se-ia admirado de que alguém pudesse duvidar do fato, para ele evidente, de que todos os cristãos são chamados a participar ativamente da missão da Igreja.

Séculos depois, na Idade Média, o leigo vira mero e silencioso ouvinte; torna-se o que não sabe o latim (idioma oficial da Igreja), o inculto, o analfabeto, que não tem aceso à Bíblia. A missão ficou nas mãos da hierarquia e, parcialmente, dos religiosos e religiosas consagradas. Assim nasceu e progrediu a distância entre hierarquia e laicato, entre clero e povo.
Os leigos foram relegados a ser destinatários e não agentes da ação evangelizadora da Igreja.

Junto com esta relegação, referida à missão, aconteceu também a relegação na ordem da identidade do leigo. O Concílio Vaticano II traz uma nova compreensão da Igreja recuperando a originalidade perdida. Assim, na Constituição Dogmática, sobre a Igreja "Luz dos povos" (Lumen Gentium), antes de falar da hierarquia (cap. Ill) e dos leigos (cap. IV), fala do povo de Deus (cap. II). É a Igreja na sua totalidade, naquilo que é comum a todos os membros. Ai o concílio superou a distância entre hierarquia e laicato e a desigualdade tão perniciosa.

A noção de povo de Deus exprime a profunda unidade, a comum dignidade e fundamental habilitação de todos os membros à participação na vida da Igreja e à co-responsabilidade na missão. Assim, quando o concílio fala da "atividade missionária da Igreja", diz:

"Como membros de Cristo vivo, a E/e incorporados e configurados pelo Batismo e também pe/a Confirmação e a Eucaristia, obrigados se acham todos os fiéis ao dever de cooperar na expansão e dilatação de seu corpo, para o levarem quanto antes à plenitude (...) Convençam-se por isso vivamente todos os filhos da Igreja de sua responsabilidade para com o mundo... Empenhem-se com afinco na obra da evangelização "(AG 36).

O Batismo e a Crisma conferem direitos e deveres na vida e missão da Igreja. O Batismo inserindo-nos no mistério da comunhão trínitáría e a Crisma impulsionando-nos pelo dinamismo do Espírito Santo à missão.

3º) Doutrina do Concílio Vaticano II sobre a responsabilidade na missão

A doutrina do Concílio Vaticano II sobre a responsabilidade na missão dos membros da Igreja pode ser resumida assim:

1. Entre todos os batizados reina a verdadeira igualdade quanto à dignidade e à ação comum dos fiéis na edificação do Corpo de Cristo (LG 32c).

2.    Todos os leigos são agora "irmãos" dos pastores (LG 32/ 37a).

3. Absolutamente todos são chamados pelo Senhor para o incremento e a perene santificação da Igreja (LG 33a; AA 2a).

4. Todos participam na missão de todo povo cristão na Igreja e no mundo (LG 31-76).

5.   Todos têm parte ativa na vida e na ação da Igreja (AA 10a).

6.   Pelo próprio Senhor todos são destinados ao apostolado (LG 33b).

7. A todos os leigos incumbe a missão de trabalhar para que o plano de salvação atinja sempre mais todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares (LG 33d).

8. Todos os batizados participam do ministério sacerdotal, profético e régio de Cristo (LG 31a; AÃ 2b; 10a).

9. O eterno Sacerdote quer continuar seu testemunho e seu serviço também através dos leigos, concedendo-lhes parte de seu ministério sacerdotal (LG 34a-b).

10. Jesus exerce seu profetismo mediante os leigos, e não só através da hierarquia, tendo-os constituído testemunhas e ornado com a graça da palavra (LG 35a).

Os leigos têm parte ativa na ação eucarística, devendo eles oferecer-se a si mesmos e "não só pelas mãos dos sacerdotes" (SC 48).

4º) Diversidade de carismas e ministérios... Em vista do bem comum e da missão da Igreja

Em função de suas necessidades internas e dos desafios da missão no mundo, a Igreja, dócil às indicações de Espírito Santo, vai se estruturando e organizando. A expressão povo de Deus evoca a variedade de carismas, serviços e ministérios que o Senhor reparte entre os fiéis em vista da vida e missão da Igreja.

O Espírito Santo santifica e conduz o povo de Deus, repartindo seus dons. O Concílio Vaticano II explicita que as graças do Espírito Santo, mesmo as graças especiais, são distribuídas entre os fiéis de qualquer condição (leigos, religiosos ou ministros ordenados), e acrescentando:

Por elas torna-os aptos e prontos a tomarem sobre si os vários trabalhos e funções, que contribuem para a renovação e maior incremento da Igreja, segundo estas palavras: "a cada um é dada a manifestação do Espírito para utilidade comum"(LG 12b).

Os carismas são toda graça ou dom do Espírito Santo, dados para utilidade do bem comum, que tendem a se tornar ministérios, isto é, serviços ou funções. Todos os carismas, serviços e ministérios de que a Igreja é dotada pelo Espírito para cumprir a sua missão se complementam, cooperam uns com os outros e se integram, como os membros de um corpo. Em palavras de São Paulo:

"Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; diversos modos de ação, mas o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Cada um recebe o dom de manifestar o espírito para utilidade de /cotos "(1 Cor 12,4-7).

Ministério éum carisma, ou seja, um dom do alto, do Pai, pelo Filho, no Espirito, que torna seu portador apto a desempenhar determinadas atividades, serviços em ordem à salvação (cf n° 84)

Só pode ser considerado ministério o carisma que na comunidade e em vista da missão da Igreja e no mundo, assume a força de serviço bem determinado, envolvendo um conjunto mais ou menos amplo de funções, que responda a exigências permanentes da comunidade e da missão, seja assumindo com estabilidade, comporte verdadeira responsabilidade e seja acolhido e reconhecido pela comunidade eclesial.

Tipos de ministérios:

Ministérios reconhecidos: ligados a um serviço significativo para a comunidade, mas considerando não tão permanente, podendo vir a desaparecer;

Ministérios confiados: conferidos por algum gesto litúrgico simples ou alguma forma canónica;

Ministérios instituídos: conferidos pela Igreja por rito chamado "instituição".

Ministérios ordenados
(apostólicos ou pastorais): através do Sacramento da Ordem, visam constituir os ministros da unidade da Igreja na fé e na caridade, de modo que a Igreja se mantenha na tradição dos apóstolos e, através deles, fiéis a Jesus Cristo.

O ministério ordenado, não é, pode-se dizer, a síntese dos ministérios, mas o ministério da sintese. Seu carisma específico é o da presidência da comunidade, da animação, coordenação e do discernimento final dos carismas.

Existem ainda os chamados ministérios de suplência. porque embora sem exercício não dependem da ordenação, as funções neles implicadas são historicamente consideradas próprias e típicas do ministério ordenado.

A questão aqui é complexa, pois se o ministro leigo pode assumir em algumas circunstâncias, por que não pensar numa reorganização criando verdadeiros e próprios ofícios a serem conferidos a leigos com responsabilidade própria e não como suplência? Há também a questão do "ministério ad intra e ad extra, ou seja. "Igreja" e "mundo" e, conseqüentemente, "vida da Igreja" e 'missão da Igreja".

Importante, também, ressaltar que os ministérios não se limitam a determinadas áreas. Os ministros da sagrada comunhão não são mais ministros que os catequistas ou que os agentes de Pastoral da Criança ou da Pastoral Social. Aqui podemos distinguir serviço cristão e ministério. O ministério é um agir "eclesial", que representa e empenha publicamente e oficialmente a Igreja. Os "serviços" cristãos não devem chamar-se ministérios, porque é uma ação comum na sociedade (cf. n° 91).

Depois de deixar claro que os leigos são cristãos e que participam a pleno título da missão da Igreja, o Doe. 62 esclarece que a peculiaridade dos leigos é a "índole secular", ou seja, que eles são chamados a evidenciar a "missão no mundo", exercendo seu próprio ofício guiados pelo espírito, a modo de fermento, contribuam para a santificação do mundo.

Com todo avanço do Concílio Vaticano II na compreensão da estrutura social da Igreja como comunhão, ainda persiste o binómio clássico "hierarquia e laicato". Daí a preocupação de vários teólogos proporem pensar a estrutura social da Igreja em termos de "comunidade - carismas e ministérios". O termo comunidade inclui tudo o que há de comum a todos os membros da Igreja; e a dupla "carismas e ministérios" inclui tudo o que positivamente os distingue, (cf n° 105).

A partir de uma eclesiologia de totalidade, a Igreja toda está no mundo e é sacramento de salvação no mundo. Cada um, porém, realiza a missão do povo cristão na Igreja e no mundo a partir dos carismas recebidos e, eventualmente, dos serviços e ministérios que exerce.

Textos para refletir:

- Lumen Gentium - Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II
- Doe 62 CNBB - Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas
- Doe 71 CNBB - Diretrizes da ação evangelizadora da Igreja no Brasil

Textos bíblicos:
-At 2,1-6
- 1 Cor 12, 8-11; 12, 29-30;
1 Cor 14, 6-11;
1 Cor 14, 13-17;
1 Cor 14,26
-Rom 12, 6-8;
-Ef 4, 7-13



 
 
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