Enriqueça a sua fé
 
Uma fortuna desperdiçada
 
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Perdi a conta das vezes em que vi apresentada, pelas pessoas, a parábola dos talentos. Isso acontece nos encontros com as crianças, com os jovens, durante as Missas. O povo gosta e capricha no teatro. Em geral, nas dramatizações, os famosos talentos são moedas que aquele que representa o patrão entrega, bem contadas, aos que fingem serem os empregados. Nada mais fácil. Até para esconder o único talento não tem problema.

A questão é que os benditos talentos não eram simplesmente uma, duas, ou cinco moedas. Pode-se conferir na página 2.192 da Bíblia de Jerusalém que um talento, como medida de peso, correspondia a pouco mais de 34 quilos.  E se for considerado como dinheiro, mesmo, um talento valia a beleza de 6.000 dracmas – outra moeda da época - ou seja: 12,6 quilos de prata (cfr. Bíblia Thompson pg.1.387) Dispensa comentário. Os garimpeiros, que lidam com gramas de ouro, sabem disso. Portanto quem recebeu os talentos teve nas mãos uma fortuna. Devia ser assim naquele tempo, e também o seria hoje, apesar de que os trilhões se tornaram assunto de noticiário televisivo.

Sabendo disso a primeira consideração que podemos fazer é justamente esta: aquele patrão agiu com grande generosidade. Não foi mesquinho. Também o terceiro empregado, que recebeu só um talento, deve ter tido dificuldade para enterrá-lo. Mais responsabilidade ainda coube aos dois primeiros que tinham muito a administrar.

Não deviam todos agradecer pela bondade do patrão? A forma mais simples para manifestar a nossa gratidão, quando recebemos um presente, é usar bem deste dom. Os primeiros dois se esforçaram para isso, mas o terceiro não soube aproveitar; ficou com medo de arriscar e inventou razões para desculpar-se da sua indolência.

Falando para nós hoje, e não mais somente de dinheiro, acredito que deveríamos reconhecer o valor dos dons que recebemos de forma totalmente gratuita. Não é por acaso que usamos a palavra “talento” para indicar a capacidade que uma pessoa tem de exercer uma arte, uma ciência ou um empreendimento. Por exemplo, à distância de anos, todo educador fica maravilhado de como os mesmos ensinamentos produziram tantos frutos diferentes nos antigos alunos. Cada um soube, ou não, multiplicar o que recebeu, conforme as suas capacidades. Vamos pensar também na humanidade. Quantas riquezas já foram encontradas, multiplicadas, distribuídas, ou, infelizmente, concentradas nas mãos de poucos. Foram, e são ainda, grandes riquezas. Do tamanho do planeta. Deveríamos nos perguntar se todos nós sabemos agradecer pela generosidade do Criador e se também sabemos usar bem dessa fartura.

Além da generosidade do patrão, deve nos levar a reflexão também a confiança dele. Quem de nós seria capaz de entregar os seus bens a simples empregados? Talvez um pouquinho, mas não com tanta largueza. Mais uma vez as atitudes deste Senhor, tão diferente, surpreendem-nos. Se depois ele cobra é porque confiou demais. Na realidade, ele se parece mais com um sócio do que com um patrão. Arrisca perder tudo, ou não multiplicar nada, na certeza de que ao menos alguns dos seus parceiros irão entender o tamanho da chance que tiveram nas mãos. É por isso que Jesus chama de “amigos” e não mais de “servos” os seus discípulos. Ele nos quer colaboradores da grande obra de transformar este mundo numa grande família de irmãos e não de inimigos; numa grande oficina do bem e não de ódio e inveja. Ele entrega muito, confia muito; deu-nos o exemplo para que nós fizéssemos o mesmo que ele fez.

Quem arregaçar as mangas e arriscar será chamado de bom e fiel. Quem ficar esperando pelos outros, lavando as mãos de sua responsabilidade, será chamado de mau, preguiçoso e, por fim, inútil. É mesmo. Pode ter sido uma pessoa famosa, mas nada fez para o Reino da justiça, da verdade, do amor e da paz. Foi inútil aos olhos de Deus.

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