Encontro 21
Igreja: comunidade viva e histórica

Introdução

Neste encontro os jovens vão refletir sobre a realidade histórica da Igreja, da qual pelo sacramento da confirmação querem fazer parte mais intensamente.

São vinte séculos de caminhada. A história da Igreja se confunde com a própria história do mundo ocidental. Falar sobre isso, em um único encontro, é um desafio enorme. Sugerimos à equipe de catequistas que trabalhe com o grupo os grandes modelos de Igreja ao longo do tempo, sem se deter muito em fatos, pois estes são variados e, por vezes, não explicam em profundidade o contexto do qual emergiram.

O texto de apoio é uma preciosa ferramenta de consulta. As dinâmicas também ajudam a sintetizar o assunto. O importante é mostrar que a Igreja é constituída por pessoas, sendo, portanto, passível de falhas, mas, com certeza, repleta de acertos, principalmente porque nossa base é o Projeto do Pai, a vivência libertadora do Filho e a força do Espírito Santo. É por isso que a Igreja não se extinguiu até hoje!

Objetivo

Mostrar a prática de Jesus continuada pela prática dos seus seguidores, com seus acertos e falhas.

Estratégias

Memória do encontro anterior. Como motivação para a prece, perguntar como o grupo está se sentindo Igreja de Jesus Cristo, nesta caminhada de preparação para a crisma.

1- Dinâmica

Objetivo

Apresentar uma visão geral dos modelos de Igreja ao longo da História.

Material necessário
Desenhos de dois círculos, dois triângulos e de um círculo dentro de um triângulo (ver esquema na Leitura de apoio) e pincel atômico.

Descrição da dinâmica
1°passo - Colocar no centro do grupo os papéis em formato de círculo e triângulo.

2°passo - Perguntar ao grupo o que simbolizam essas figuras geométricas no tocante aos modelos de relacionamentos humanos. Ajudar o grupo a perceber o círculo como representação de uma sociedade igualitária e o triângulo como uma organização de opressão de uns grupos sobre outros.

3°passo - Em duplas ou trios, refletir quando a Igreja é círculo e triângulo - anotar as descobertas dentro das figuras.

4°passo - Leitura das frases, comentários.

5°passo - Apresentação do esquema com os modelos de Igreja que se encontra no item Leitura de apoio. Conclusão.

2- Dinâmica
Objetivo

Desenvolver nos crismandos o senso crítico sobre como devemos ser Igreja nos dias atuais.

Material necessário
Livro do crismando ou texto impresso, canetas ou lápis.

Descrição da dinâmica
1° passo - Em pequenos grupos, ler o texto abaixo:

Assumir, como os Apóstolos, a tarefa de ser anunciadores do Evangelho Cristo envia seus discípulos para dar continuidade à missão que recebeu. "Como o Pai me enviou, eu também vos envio". Este mandato do Senhor, fortalecido em Pentecostes, fez com que os discípulos assumissem a tarefa de evangelizar todos os povos. A fé nasce do anúncio.

A comunidade eclesial cresce, se consolida à medida que responde fielmente ao Deus que se comunica, tornando-se experiência de vida. O anúncio deve revestir-se de uma linguagem concreta e adaptada às circunstâncias, dentro do contexto vivencial das pessoas c dos povos, no respeito às condições da época e das culturas.

A comunhão sustenta e impulsiona a missão, também na hora da perseguição e da denúncia profética. Quando necessário, a Igreja deve assumir posição corajosa e profética em face do poder político ou econômico e dirigir-se aos "novos areópagos" para proclamar, como Paulo, a força transformadora do Evangelho. (CNBB, Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil. São Paulo, Ed. Paulinas, nn. 44-46)

2°passo - Responder às seguintes questões:

1. Quais são os grandes valores que notamos em nossa Igreja hoje?

2. Quais são as contradições e os conflitos internos que atrapalham a missão da Igreja?

3. Apresentar pistas de ação para que a Igreja mantenha seus valores e supere seus contravalores. O que nosso grupo de preparação para crisma pode fazer para ajudar?

3°passo - Apresentação dos grupos. 4°passo - A partir do esquema dos modelos de Igreja ao longo da História, falar um pouco sobre o assunto para ajudar o grupo a entender o contexto da Igreja hoje.

Leitura de apoio

Igreja: realidade histórica

A história da Igreja, assim como a história de qualquer outra instituição humana, é feita de lutas, vitórias e derrotas. Mas há algo que a diferencia de outros grupos humanos: a busca de fidelidade a Jesus e ao Plano que ele vem revelar. Esse é seu fio condutor histórico.

Os seguidores de Jesus, após sua morte e ressurreição e ascensão ao céu, constituem-se em comunidade visível. A eles vão se acrescentando outros discípulos. Lendo o livro dos Atos dos Apóstolos, encontramos a descrição das Igrejas de Jerusalém e de Antio-quia, as viagens de Paulo e as primeiras conversões (Atos 2,41). As dificuldades concretas, as perguntas que os cristãos fazem e as soluções que os apóstolos propõem estão contidas nesses textos que fazem memória das primeiras comunidades, iluminando, ainda hoje, a travessia histórica dos cristãos.


Frescor da juventude

Nos primeiros séculos, a Igreja vai se expandindo. Tenta responder aos desafios das culturas e aos povos nos quais se insere. Já a partir dos anos 60 d.C., o Império Romano toma consciência que no cristianismo havia realmente um projeto novo para a sociedade. Um grupo de homens e mulheres, seguidores de Jesus de Nazaré, o Deus-Ressuscitado e vivo por seu Espírito, tomam atitudes que perturbam, abertos às esperanças dos pobres e vivendo um grande testemunho de fraternidade e organização.

Temos nessa época uma vida plena que se manifesta no martírio e nos escritos que confessam Jesus como Senhor, que recebe a vida e salva com a sua graça e, como Deus, acolhe a vida de quem o confessa. O martírio é a tônica dessa Igreja. A perseguição é a marca registrada de uma Igreja que serve à verdade.

Esses primeiros cristãos enfrentam momentos de tensão interna. E, em meio a conflitos, organizam sua doutrina. Proclamam, com firmeza, que Jesus é Deus e Homem. Que Maria é a Mãe de Deus. Que todos os homens são livres diante de Deus e diante de sua consciência. Sentem-se responsáveis pela mensagem que receberam, não como própria, mas como dom a ser distribuído largamente.

Aos Apóstolos sucedeu um período cuja duração varia de quatro a cinco séculos, chamado período dos Padres da Igreja, que se caracteriza por uma vivência cristã muito próxima das origens. Também essa época, chamada de formação da grande Tradição da Igreja, se caracteriza por escritos muito profundos.

Destacamos aqui duas exigências fundamentais: a primeira é a coerência de fé, isto é, estar preparado para dar testemunho qualificado a qualquer momento do que se acredita, a segunda, o conhecimento da fé, que se adquire com o estudo da Palavra de Deus, com a freqüência aos sacramentos, com a participação nas pastorais.

Nesse período dos primeiros séculos dá-se a divisão entre as visões da Igreja do Oriente (hoje Ortodoxa), ligada ao mundo grego, e do Ocidente (Católica Romana), referente ao mundo latino. Este último é o resultado da mistura da cultura romana com a dos povos que vieram do Norte da Europa, povos que esfacelaram o Império Romano a partir do 4° século - os chamados "bárbaros", modo ideologizado de chamar aqueles que emigraram para o Império Romano e que estão na base do nascimento dos vários países europeus. A partir do 5° século, a Igreja será a grande evangelizadora e educadora desses povos.


Entre pedras e flores, a caminhada continua

No período que vai do século 7° ao século 16, a Igreja vive o que se convencionou chamar a Idade Média. É um período longo e complexo, em que há a união entre Igreja e Estado. São deste período o feudalismo, o surgimento da cultura eclesiástica e o nascimento das Universidades. Surge ainda a Escolástica, uma filosofia e teologia que vão durar até o século 20. Formou gerações de pensadores. Neste período viveram santos como Francisco de Assis, António de Pádua, Tomás de Aquino... período também das Cruzadas. Neste momento deu-se também o fenômeno da Inquisição, no qual a Igreja oficial chegou a querer dirigir até mesmo o modo de expressão e manifestação das pessoas...

A Idade Moderna vai do século 16 até meados do século 19. Acontecimentos muito importantes se dão nesse período. Entre eles citamos as grandes descobertas marítimas e científicas, como a da pólvora e da imprensa. A Igreja se divide em confissões, com o advento da Reforma Protestante. Dá-se, então, uma quebra no interior do cristianismo. Ainda nesse período dão-se as guerras de religião, o surgimento das grandes filosofias. O cristianismo católico apresenta o Concílio de Trento e um grande número de santos, como Inácio de Loyola, Teresa de Ávila, João da Cruz e Carlos Borromeu.

A colonização em terras americanas tornou-se um desafio para a Igreja. Jesus havia dito que a verdade vos libertará. Em todos os tempos a Igreja, com maior ou menor vigor, buscou ser fiel a essa verdade, principalmente na defesa dos fracos e daqueles que não tinham ninguém por eles. Durante todo o século 16, os espanhóis e portugueses escravizaram os índios. Não faltaram vozes que os defendessem, mesmo à custa de perseguição e morte. Eis, por exemplo, o sermão de frei António de Montesinos, em 1511, quarto domingo do Advento, no dia 21 de dezembro. O tema do sermão era: "Sou a voz que clama no deserto". Eis o teor do sermão que marcou presença em todo o período de evangelização da América Latina:

Todos vós estais em pecado mortal. Nele viveis e nele morrereis. Devido à crueldade e tirania que usais com esta gente inocente. Dizei-me, com que direito e baseado em que justiça mantendes em tão cruel e horrível servidão aos índios? Com que autoridade fizestes estas detestáveis guerras a estes povos que estavam em suas terras mansas e pacíficas e tão numerosas e os consumistes com mortes e destruições inauditas? Como os tendes tão oprimidos e fatigados, sem dar-lhes de comer e sem curá-los em suas enfermidades. Os excessivos trabalhos que lhes impondes os faz morrer, ou melhor dizendo, vós os matais, para poder arrancar e adquirir ouro cada d ia. E que cuidado tendes para que alguém ensine a eles a doutrina para que conheçam a seu Deus e Criador, sejam batizados, ouçam missa e guardem as festas e domingos? Não são eles, acaso, homens? Não têm almas racionais? Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Será que não entendeis isto? Não o podeis sentir? Como podeis estar adormecidos, letárgicos, em sono de tal profundidade? Tende como certo que no estado em que vos encontrais, não tendes mais chance de vos salvardes.

Também a escravidão dos africanos vai marcar as Américas, realidade esta que, junto com a indígena, trazem conseqüências e desafios até hoje.

O Brasil, cuja colonização começa nesse período, vive o processo da primeira evangelização e o trabalho heróico dos jesuítas. Mas há, de outro lado, um processo de enrijecimento das estruturas católicas. Com o nascimento das filosofias iluministas e racionalistas, o cristianismo sofre uma pressão que determinará o fechamento de conventos, de casas religiosas. O período de maior desgaste da Igreja oficial dar-se-á a partir da Revolução Francesa e se desdobrará durante todo o século 19. Durante esse século aparece o comunismo, com o início de uma filosofia especificamente ateia de Marx e Engels.

O século 19 vê surgir, então, a grande revolução industrial, cujos efeitos farão sentir-se em toda a primeira metade do século 20, e que ocasiona reviravoltas radicais no mundo. Todas essas mudanças fazem aparecer a questão social. Quem irá enfrentá-la será o papa Leão XIII. Ele escreve a primeira grande encíclica social, a Rerum Novarum, em 1881. O Concílio Vaticano I marcou o final desse período. A pessoa do papa sai engrandecida e a Igreja vive seu momento de profunda coesão interna, embora de grande distanciamento do mundo à sua volta.


Abertura aos sinais dos tempos

O século 20 começa com uma grande guerra mundial. Esse século se diferencia dos demais que o antecederam pelas descobertas da eletricidade, do telefone, do rádio e do avião. Esses avanços científicos estarão na raiz de tudo o que se vai viver nesse século. A Igreja deverá enfrentar a divisão do mundo com a chegada, para valer, da filosofia ateia. Surgem os países confessionalmente ateus. As perseguições serão fortíssimas e países inteiros são satelizados pelo poder persuasivo e compulsivo do comunismo. De outro lado, há um avanço similar do capitalismo. Em que pese a filosofia liberal que o domina, seus resultados, no que diz respeito à qualidade de vida dos cidadãos nos seus respectivos países, não será melhor. É desse século a divisão de Primeiro, Segundo, Terceiro e Quarto Mundo, sendo os últimos caracterizados pelo subdesenvolvimento.

A Igreja marcará presença forte em meio aos países pobres. É uma época em que a sua teologia enfrenta uma crise de identidade. Surgem grandes personalidades que conseguem atualizar a mensagem da fé cristã e sugerir respostas vitais para a mesma. Depois da Segunda Guerra Mundial, de uma ferocidade nunca antes experimentada, a Igreja deveu enfrentar um mundo dividido em grandes blocos, dominados por filosofias ateias e liberais: capitalismo e comunismo, cujos estragos ainda hoje vitimam grande parcela da humanidade.

Nos dias atuais enfrenta-se o pluralismo religioso, a política econômica dominada apenas pelo capitalismo desde a queda do muro de Berlim, a aproximação das igrejas cristãs e a sociedade caracterizada pelo pós-modernismo e o neoliberalismo. Os avanços tecnológicos levam a mudanças rápidas, aumento da exclusão através do desemprego, uma situação globalizada em muitos países.

A década de 60 foi particularmente fecunda para a vida eclesial no século 20. A busca de aproximação do mundo levou a Igreja ao Concílio Vaticano II. Sopro violento do Espírito, este Concílio acordou a Igreja e a fez redescobrir-se comunidade aberta a todos. Vive-se, de novo, um forte vigor missionário.

Homens e mulheres sentem-se questionados pela força do Evangelho. Comunidades surgem de todas as bases, demonstrando uma vitalidade jamais pensada anteriormente. As comunidades redescobrem o valor de se tornarem proféticas, buscando responder aos anseios dos povos em meio aos quais se encarna. O Concílio se torna um programa de esperança para o futuro, onde a Igreja se define como mistério de salvação para todos. Temos aí o fenômeno das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), sob as orientações das Conferências dos Bispos latino-americanos: Medellín, Puebla, Santo Domingo.

Abaixo apresentamos um esquema com os grandes modelos de Igreja ao longo da História:

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Um corpo com muitos membros

Cristo previra com os Doze, tendo à frente Pedro, a organização que deveria ter a comunidade dos seus seguidores. O Novo Testamento, cada vez que fala do grupo dos Doze, sempre coloca Pedro à frente. Ele recebeu, em nome dos Doze e para todos, o poder de "atar e desatar" (Mateus 16,16-19).

Pedro recebeu de Jesus a missão de coordenar a Igreja e conduzi-la pêlos caminhos da história, buscando sempre responder ao Projeto de Deus. O sucessor de Pedro, hoje, é o papa, o bispo de Roma. Os demais bispos são sucessores dos apóstolos e formam o Colégio dos Bispos. Juntamente com o papa, eles têm a missão de apascentar o rebanho dos fiéis, conduzindo os dentro dos limites da fé. Como fiéis "leigos", somos chamados a ser membros do corpo que é a Igreja, colocando nossos dons a serviço dos irmãos e tendo como cabeça desse corpo o próprio Jesus.

Esta é a Igreja de Deus na qual fomos chamados pela vocação cristã e da qual fazemos parte. Uma Igreja que caminha os mesmos caminhos de todos os homens. Mas que se diferencia, fundamentalmente, por uma fé que tem que deixar marcas. Os vinte séculos de história da Igreja são as marcas da vida cristã. Uma história feita de testemunho de heroicidade e vitalidade, ao lado de uma trilha, também sensível e visível e, quem sabe, até mais marcante, de insensibilidade e de fragilidade!

Celebração

Todos ficam em círculo, representando o modelo de Igreja que o grupo quer viver. Pedir que nós, enquanto Igreja, sejamos mais igualitários na família, na escola, no trabalho, na comunidade...

Próximo encontro

Pedir para os grupos que estão fazendo a pesquisa sobre os trabalhos da comunidade que apresentem os resultados na próxima semana.

Citações Bíblicas

• Jesus reuniu os Doze como alicerces de uma nova comunidade: Mateus 19;
• a Igreja não existe para si mesma, mas em função do Reino: Mateus 6,10; Apocalipse 21,27; 22,15;
• nela se entra pela palavra dos discípulos que gera a fé e a recepção do batis-mo: Mateus 28,19-20; Atos 2,41; 20,28;
• as primeiras comunidades viviam igualitariamente: Atos 2,42-47; 4,32-35; l Coríntios 11,20-34; Hebreus 13,16;
• no início, a Igreja era constituída de gente simples e pobre: l Coríntios 1,26-28;
• ela se espalha pelo mundo: Atos 8,1-4; 11,19-25; 16,5; Romanos 10,18;
• as reuniões eram feitas nas casas: l Coríntios 16,19; Romanos 16,3-5;
• sofre perseguição: l Tessalonicenses 2,14-16; Apocalipse 2,3;
• é preciso ter sempre clara a razão de nossa fé para poder testemunhá-la e ser verdadeiramente Igreja de Jesus Cristo: l Pedro 3,13-15 (livro do crismando);