24. Competências
Tudo o que você precisa conhecer sobre
o assunto mais falado no mundo da educação. Esse
novo jeito de ensinar, usado por educadores, em muito pode ajudar
na Catequese com seu grupo de catequizandos.
Lembre-se dos últimos encontros catequéticos
que você deu: reuniu o grupo, falou, explicou, deu exemplos,
celebrou e se desdobrou para que a turma entendesse o tema.
Alguns até levantaram a mão para fazer uma ou
outra pergunta, mas, no geral, todos ficaram quietos, "prestando
atenção".
Será que eles estavam realmente interessados? Depende.
É consenso entre os pensadores da educação
que a criança só interioriza o que você
ensina se estiver de alguma forma, ligada ao conteúdo
por um desafio, uma motivação. Ou se perceber
a importância e a aplicação de tudo aquilo
que você quer transmitir.
Essa contextualização é uma das bases
do ensino por competências, palavra de ordem da educação
no Brasil e em vários outros países. O objetivo
dessa abordagem é ensinar aos catequistas o que eles
precisam aprender para ensinar seus catequizandos a serem cidadãos
que saibam analisar, decidir, planejar, expor suas idéias
e ouvir as dos outros.
Enfim, para que possam ter uma participação ativa
sobre a sociedade em que vivem. Uma concepção
nobre, mas que na grande maioria das catequeses ainda está
por ser decifrada. Quando se trata de aplicá-la na turma,
sobram dúvidas e falta quem possa solucioná-las.
Não há uma receita simples para aprender a ensinar
dentro dessa nova concepção. Pode-se começar
entendendo como ela surgiu. Até a conferência de
1990 em Jomtien, na Tailândia — onde foi elaborada
a Declaração Mundial sobre Educação
para Todos —, os processos educativos estavam calcados
no que o físico e educador paulistano Luiz Carlos Menezes
chama de ensino cartorial. Ou seja, um agrupamento de assuntos
para memorizar ou exercícios para praticar à exaustão.
Naquele encontro, concluiu-se que havia necessidade de mudanças
estruturais. Ficou claro que reformar a educação
era uma prioridade mundial e as competências seriam o
único caminho para oferecer, de fato, uma educação
para todos. Tudo havia mudado: a sociedade, o mercado de trabalho,
as relações humanas... só a educação
continuava a mesma. Então, estava tudo errado? Não.
O contexto social de épocas passadas aceitava aquela
formação. O problema é que esse contexto
não existe mais.
A sociedade tem hoje outras prioridades e exigências,
em que a ação é o elemento chave. Simplesmente
dar o conteúdo e esperar que ele seja reproduzido não
forma o indivíduo. Quem não estiver preparado
para o trabalho conceitual e criativo pode estar fadado à
exclusão.
A catequese agora tem também o papel de ser espaço
onde as relações humanas são moldadas.
Deve ser usada para aprimorar valores e atitudes, além
de capacitar o indivíduo na busca de Deus. Mas, afinal,
o que são essas competências? E como desenvolvê-las?
O dicionário Aurélio define essa palavra como
"qualidades de quem é capaz de apreciar e resolver
certos assuntos".
Ela significa ainda habilidade, aptidão, idoneidade.
Muitos conceitos estão presentes nessa definição:
competente é aquele que julga, avalia e pondera; acha
a solução e decide, depois de examinar e discutir
determinada situação, de forma conveniente e adequada.
É ainda quem tem capacidade resultante de conhecimentos
adquiridos.
Sim, agora são todos esses os objetivos que se deve
perseguir ao elaborar um projeto pedagógico. Para Philippe
Perrenoud, sociólogo suíço especialista
em práticas pedagógicas, competência em
educação é a faculdade de mobilizar um
conjunto de recursos cognitivos — como saberes, habilidades
e informações — para solucionar com pertinência
e eficácia uma série de situações.
Ele cita dois exemplos:
1) Decidir seu caminho em uma cidade desconhecida requer as
capacidades de ler um mapa, localizar-se e pedir informações.
E também diversos saberes, como ter noção
de escala, elementos da topografia ou referências geográficas.
2) Saber votar conforme seus interesses mobilizam as capacidades
de se informar e preencher a cédula, bem como os seguintes
saberes: conhecimento de instituições políticas,
do processo de eleição, de candidatos, de partidos,
dos programas de governo, das idéias democráticas
etc.
Esses são exemplos simples. Outras necessidades estão
ligadas a contextos culturais, profissionais e condições
sociais. "Os seres humanos não vivem todos, as mesmas
situações e as competências devem estar
adaptadas a seu mundo", teoriza Perrenoud. "Viver
na selva das cidades exige dominar algumas delas; na floresta
virgem, outras.
Da mesma forma, os pobres têm problemas diferentes dos
ricos para resolver." Como se pode ver, as definições
são complexas, muitas vezes imprecisas.
Diante desse quadro, a primeira dúvida que surge diz
respeito aos conteúdos. Eles deixam de existir? Não.
Ninguém aprende nada desvinculado do conhecimento teórico.
Trata-se de trabalhar essas informações de forma
diferente, dando-lhes significado. É o que se chama de
ensino contextualizado. Uma coisa é você explicar
no grupo um tema.
Outra é comparar e testemunhar a vida com este tema.
Ocorre que o tempo é um parceiro cruel, todos vão
argumentar. Com certeza. Um tema não se esgota em um
encontro. É nessa escolha que entra o conceito de situações-problema,
nas quais o conteúdo é apenas um dos elementos
a ser levados em conta na hora de abordar qualquer conteúdo.
A motivação é criada a partir da geração
de conflitos. Resolver um desafio estimula a turma. É
mais importante que o catequizando saiba lidar com a informação
do que simplesmente retê-la. Depois de lançada
uma tarefa em que todos se envolvam, até uma catequese
expositiva pode ter lugar. Nesse caso, ela estará inserida
na resolução de um problema concreto e a teoria
ganhará uma finalidade aplicável. Trabalhar assim
significa o fim do conteúdo pelo conteúdo.
Se o objetivo é estudar uma situação real,
do cotidiano, então o conhecimento também não
pode estar separado. Se todos os saberes devem se unir para
atender às necessidades do catequizando, então
os catequistas das diversas idades também precisam sentar
juntos para definir os temas? Sim.
Sem planejamento ninguém vai a lugar nenhum, o primeiro
passo é repensar o projeto pedagógico, com o plano
e a ação da catequese voltados verdadeiramente
para a formação de indivíduos independentes
e críticos. Sem perder de vista as necessidades do meio
em que o catequizando vive.
E isso ainda não é tudo. De nada adianta trabalhar
dessa maneira se a avaliação não muda.
Mas, como avaliar competências? A observação
é a melhor forma de saber se houve ou não o aprendizado.
Ela precisa ser feita a todo momento, com o catequista prestando
atenção ao que cada catequizando está fazendo,
como reage aos estímulos, o que atrai seu interesse.
Do contrário, o catequista não vai ajudá-lo
a superar suas dificuldades. Mais uma vez, Perrenoud mostra
um caminho para uma avaliação eficiente:
1) As atividades e suas exigências precisam ser conhecidas
antes de iniciá-la.
2) Deve-se incluir apenas atividades contextualizadas.
3) Não pode haver nenhum constrangimento de tempo fixo.
4) É necessário exigir uma certa forma de colaboração
entre os pares.
5) O educador tem de levar em consideração as
estratégias cognitivas e metacognitivas utilizadas pelos
educandos.
6) Ela deve contribuir para que os educandos desenvolvam ainda
mais suas capacidades.
7) A correção precisa levar em conta apenas os
erros de fundo na ótica da construção de
competências.
Ou seja, o trabalho torna-se mais sensível do que técnico.
Trazendo para a catequese, temos que o final de cada etapa,
passa a ser resultado de muitos fatores, não apenas de
uma "provinha". É o progresso e a evolução
do catequizando ao longo da caminhada na fé e vida da
comunidade. Ficou assustado com o tamanho do desafio?
Todos sabem que, na prática, as mudanças ainda
vão consumir muito tempo até serem bem assimiladas.
Até lá, continuarão existindo as boas e
as más maneiras de catequizar. Mas que ninguém
duvide: esse novo jeito de educar, que dá oportunidade
a todos de aprender, será "a" referência
em educação e, mais cedo ou mais tarde, servirá
para diferenciar os melhores catequistas e as comunidades que
merecem destaque. Por um motivo simples, quem não se
atualizar vai formar pessoas fora do seu tempo.
Fonte: Catequese Express