29. A comunicação de Jesus por
meio de parábolas - Capítulo 03
A parábola como “escola de catequese”
A parábola é uma das formas
da pregação de Jesus: “Muitas coisas lhes
falou em parábolas” (Mt 13, 3). Jesus fala aos
discípulos e às multidões em parábolas,
pode silenciar a sua palavra, embora esta revele um mistério
de salvação que sempre supera o homem. Aos discípulos
é concedido conhecer os mistérios do Reino (Mt
13, 11) e “compreender” (Mt 15, 51), enquanto que
as multidões pareçam incapazes desta compreensão
profunda (Mt 13, 11.34-36).
A parábola permite então uma avaliação
da profundidade das relações que cada pessoa tem
com Jesus: o critério de nossa intimidade com Cristo
está no fato de sermos seus discípulos (Mt 12,
48-49; 13, 55-57).
Para Jesus, a parábola não é primeiramente
uma questão de literatura, de didática ou de gêneros
literários, mas é o surgir do Reino mediante o
“aprofundamento” das coisas e das situações.
A parábola leva a ir além da percepção
sensorial ou da interpretação técnico-racionalista
do presente. A parábola é “sacramento”,
isto é, a parábola é um gesto de Deus para
o homem, um chamado e uma “provocação”
de Deus ao interlocutor humano.
Os “superficiais” são aqueles que olhando
não enxergam e ouvindo não escutam nem compreendem”
(Mt 13, 13): a estes é preciso fazer compreender que
a superfície das coisas é parábola, enquanto
contém e revela um mistério que está além
da superfície.
O dom da fé permite não só perceber que
tudo é parábola, mas que tudo é parábola
do Reino de Deus. Os discípulos conseguem ver naquilo
que é visível, o invisível divino, que
revoluciona toda a vida deles: os ideais, as relações
e as quedas.
Que significa tudo isto para o catequista? O catequista é
chamado pela Igreja para ser o anunciador dos “mistérios
do Reino dos Céus” (Mt 13, 11) e o instrumento,
mais transparente possível, da revelação
da verdade que é Cristo. Sua primeira tarefa consiste
portanto em ajudar os ouvintes a não serem superficiais,
mas a saber ir além do visível e o sensível
para perceber os apelos de Deus e dos sinais do seu Reino.
O que, particularmente hoje, caracteriza a missão do
catequista é o esforço para afastar as convicções
e os preconceitos de uma mentalidade refratária ao mistério.
É a fase da pré-evangelização, que
dispõe para a acolhida da boa notícia de Jesus.
Para Jesus, a parábola é um questionamento que
pretende despertar a atenção dos presentes, convidando-os
a tomar posição. Através de seu conteúdo
e de seu ponto provocatório, a parábola leva a
descobrir alguma coisa completamente nova e a interrogar-se
sobre seu significado.
A inclinação permanente de cada cristão
é a de considerar-se satisfeito com o seu presente, cair
no hábito ou de deixar sempre para depois o comprometimento
com Cristo.
Toca ao catequista “provocar” as perguntas nos ouvintes,
despertar neles a expectativas mais amplas e dar-lhes respostas
novas à luz da experiência de fé. A palavra
do Senhor corre o risco de ficar ineficaz se cair num contexto
humano vazio e o banal (Mt 7, 6). Muitas vezes o catequista
se encontra trabalhando em grupos refratários ou apáticos:
a parábola lhe ensina o tipo de abordagem ou método
que convém usar.
Na parábola, Jesus retoma casos e imagens da própria
vida: o campo, a semeadura, a casa, o mercador, a ovelha, o
patrão, o empregado... É da realidade terrena
e da vida vivida de cada dia que Jesus chega às realidades
sobrenaturais. É a lógica da encarnação.
Também do catequista se requer esta capacidade de “concretização”
e esta aderência ao cotidiano, evitando um anúncio
genérico ou abstrato. Partindo da atualidade de seus
ouvintes, o catequista deve fazer brotar os significados e os
valores ocultos no seu dia-a-dia. A obra do catequista é
uma reação contra o processo de massificação
de hoje e uma ajuda para a acolhida personalizada da mensagem
cristã.
Narrando a parábola, Jesus focaliza a atenção
do ouvinte exatamente sobre ele, que revela a imagem de Deus
e inaugura o Reino. A parábola não pretende antes
de tudo, transmitir um ensinamento, mas propor um “acontecimento”,
isto é, um fato salvífico que já se realizou
em Cristo. É a perspectiva cristológica, que vem
sempre antes da eclesiológica e da antropológica.
Toda parábola, com efeito, deve ser lida na perspectiva
de Deus em Cristo, na Igreja, em favor do homem.
De sua parte, o catequista é aquele que se faz discípulo
da Palavra para fazê-la ressoar junto aos outros. Seu
papel é só de mediador e de mistagogo, porque
o ponto terminal da sua obra de anúncio e de iniciação
é sempre constituído por Deus, Cristo, a Igreja
e a nova humanidade.
Na catequese, a leitura de uma parábola é sempre
uma ocasião que solicita um adesão sincera e total
ao Senhor.
E a aqui está o caráter positivo de toda parábola.
Cristo não veio antes de tudo, para lembrar a vigilância
(Mt 25, 1-13), o compromisso (Mt 25, 14-30), a sabedoria (Lc
16, 1-8), o julgamento divino (Lc 13, 6-9)... Sua mensagem é
a “Boa Nova” porque revela e põe em ação
a misericórdia divina (Lc 15), a festa do Reino (Lc 14,
16-24), a recompensa para os chamados (Mt 20, 1-16), a paciência
divina (Mt 13, 24-30), o poder da fé (Mt 13, 31-33) e
a abundância da colheita (Mt 13, 3-22). Todo dom se torna
tarefa e todo chamado exige resposta. A dimensão moral
é portanto inerente ao próprio anúncio
da parábola.
A proclamação da parábola deve estimular
o catequista a fazer os ouvintes perceber a beleza da vocação
a que são chamados (Ef 4, 1), antes de sublimar os erros
ou infidelidades. A verdadeira escrita da parábola tende
a gerar uma nova existência.
Aplicando-se a Cristo, toda parábola revela sempre Deus
e o homem: não um ou outro, mas um e outro. As parábolas
se tornam um verdadeiro texto de catequese, que faz conhecer
o Projeto de Deus para a humanidade e enumera as atitudes fundamentais
e perenes da existência cristã: a oração
(Lc 18, 1-8), o perdão (Mt 18, 21-35), a humildade (Lc
18, 9-14), o primado de Deus (Mt 22, 2-14), o amor ao irmão
(Lc 10, 25-37), a pertença à comunidade (Mt 20,
1-15).
Nas parábolas Jesus se dirige, de preferência,
aos adversários (Lc 10, 19) e põe em primeiro
plano a alternativa entre a mentalidade corrente e a novidade
cristã.
O catequista deve comportar-se com as primeiras comunidades
cristãs, que não se limitaram a recordar as parábolas
de Jesus, mas as interpretaram confrontando com as etapas e
os problemas da própria caminhada de fé.
Toda parábola se concentra num específico ponto
de comparação, vai ao essencial, imediatamente.
Por isso, a descrição dos acontecimentos e dos
personagens se reduz ao estritamente necessário.
No atual contexto de descristianização, convém
que o catequista não divague sobre aspectos secundários,
mas procure aprofundar o anúncio original. Hoje nenhum
aspecto da proposta cristã pode ser considerado conhecido
ou tratado superficialmente. Do catequista se exige discernimento
espiritual, que lhe permite focalizar sempre o centro da fé
e destacar aquilo que o Senhor mais deseja ensinar naquele momento
àqueles particulares destinatários.
Enfim: enquanto Palavra reveladora de Deus, a parábola
tende à celebração litúrgica, a
qual realiza para os presentes o que a parábola proclama.
A parábola não é, antes de tudo, uma verdade
a ser apreendida, uma idéia a se discutir ou uma moral
a ser observada: é a oferta do amor de Deus a ser celebrada
com alegria.
Esta deve também ser a preocupação do
catequista: conjugar anúncio e celebração.
No encontro de catequese é indispensável a abertura
à celebração litúrgica.
Colaboração: Maria Helena L. de
Carvalho - Novo Hamburgo
Fonte: Luiz Guglielmoni – Revista Catechesi, Itália
(1983/15, pp.11-19)
Orientações gerais e indicações
práticas para uso das parábolas na catequese.
R. M. O. traduziu.