
Padre Wagner Augusto Portugal
14º. Domingo do Tempo Comum - C.
“Recebemos, ó Deus, a vossa misericórdia no meio do vosso templo. Vosso louvor se estenda, como o vosso nome, até os confins da terra; toda a justiça se encontra em vossas mãos” (Cf. Sl 47,10s).
Meus queridos irmãos,
A Paz é o desejo maior de todos os cristãos. Por isso somos convidados a repetir o gesto de Jesus e de todos os seus seguidores: “Que a paz esteja nesta casa e com todos os seus moradores”. Por isso, nós que somos discípulos e missionários de Jesus Cristo somos convidados a imitá-lo levando a paz para todos os lares: “Em qualquer casa em que entrardes, dizei: Paz a esta casa... Curai os enfermos”(Cf. Lc. 10,5.9).
A paz que nos aponta para a proximidade do Reinado de Deus. Assim, esta missão é dever não só dos apóstolos, mas dos setenta e dois discípulos que Jesus mandou depois da missão dos Doze. O Evangelista Lucas pensa numa ampliação da missão dos Doze, que representam a missão das doze tribos de Israel.
Os setenta e dois lembram os setenta e dois povos de Gn 10 e os tantos profetas-anciãos de Num 11,24-30. Depois do Evangelho do Cristo ter sido propagado a toda o povo israelita é chegada a hora deste anúncio ser compartilhado com todas as gentes e com todos os povos.
É a universalidade do mandato apostólico e da missão que todos, sem distinção, pelo batismo são chamados a se empenharem no anúncio do Cristo Ressuscitado. E este anúncio tem um conteúdo programático fundamental: o Reino de Deus. Este Reino se caracteriza pela “paz”, no sentido mais abrangante e profundo, de harmonia plena entre Deus e os homens, e entre os homens solidariamente. Assim, todos os homens e mulheres de boa vontade são chamados e convocados a serem os protagonistas da paz.
Caros irmãos,
O Evangelho de Jesus deve ser aberto a todos e anunciado sem distinção. Anunciar o Evangelho pelos setenta e dois discípulos é relembrar nos setenta e dois povos da terra(Cf. Gn 10). É a universalidade da missão aonde todos são chamados a serem operários da construção do Reino de Deus.
Portanto, o Reino de Deus não se impõe pela força e nem contra a vontade. O Reino de Deus realizar-se-á seguramente, mas para aqueles que o querem. Deus respeita a liberdade que deu às suas criaturas. Assim, a vingança e o ódio não constroem nada e não são atitudes queridas por Deus.
O Evangelho não pode, não tem fronteiras geográficas, raciais, religiosas, sociais e políticas. O Evangelho é a boa nova, a chance da verdade e da graça de Deus. E os que aderirem a esta verdade e a esta graça estão ascendendo uma luz em Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida que leva ao Pai. Por isso quem é de Cristo, enamorou-se pelo Cristo deve ser luz para os outros, isto é, ser um discípulo autenticamente missionário, portador da salvação.
O envio dos discípulos e como o envio de João Batista: “Tu estarás repleto do Espírito Santo; converterá a muitos: ... e prepararás o povo para o Senhor”(Cf. Lc 1, 16-17). O discípulo deve se comportar como um profeta, que é o porta-voz de Deus.
Profeta é aquele que não prega a sua verdade pessoal, mas prega a verdade do Cristo e a salvação que vem deste projeto que é projeto de vida plena. O discípulo é o mensageiro do Cristo, assim, poderíamos chamá-lo de arauto do Senhor. Por isso o discípulo aponta pela sua pregação o horizonte do Cristo, a busca do rosto sereno e radioso do Senhor Ressuscitado, fiel ao próprio mandato do Senhor: “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba”(Cf. Jo. 7,37).
Irmãos e irmãs,
Qual deve ser a atitude do discípulo? O discípulo deve ser manso e desprendido das coisas deste mundo. O discípulo deve ter a metodologia e o jeito de viver do Cristo. Assim, a primeira qualidade do discípulo é a mansidão, presente na figura do cordeiro e na saudação a ser usada ao entrar numa casa. Contemplamos Jesus que recusa o método violento de Tiago e de João ao terem a hospedagem negada. Por isso os discípulos devem relembrar o Sermão da Montanha: “Felizes os mansos, felizes os pacíficos, porque são portadores de reconciliação e são filhos de Deus”(Cf. Mt 5,9).
A segunda qualidade do discípulo é o desprendimento das coisas, dos bens materiais, da comodidade e de tudo aquilo que nós resumimos na palavra “bem-estar”. Portanto, Jesus nos pede para deixar para trás bolsa, alforje, sapato para ter a liberdade de viver e de anunciar unicamente o Cristo Ressuscitado que está no meio de nós. Desprendido de tudo e de si mesmo, o autêntico discípulo estará credenciado para anunciar a paz.
Caros irmãos,
A pobreza nos aponta para a mansidão e o desprendimento. A pobreza que o Cristo exige de seu discípulo é a do desprendimento, que acaba sendo sinônimo de coração voltado para Deus e para o próximo necessitado. À pessoa de coração fraterno e receptivo, Jesus chama de filho da paz(Cf. Lc. 10,6).
Por isso anunciemos a chegada do Reino de Deus e esse reino será necessariamente de paz. Não se trata da paz como a pensam os homens do mundo. Mas paz que é sinônimo de Jesus Cristo. A paz de Jesus tem muito a ver com a mansidão, o desprendimento e o respeito a tudo e a todos.
A paz de Jesus é a derrota de Satanás, de suas maldades, de suas doenças e de seus males. A Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, o justo, nos leva a verdade de condenar o aborto, a eutanásia, os homicídios e anunciar a cultura da vida. Por isso a alegria do discípulo não deve ter por base o poder sobre os espíritos do mal e a derrota de Satanás, mas o fato de Deus o ter escolhido para a comunhão plena com ele, que é o gozo da sonhada e plena pacificação, com o auxílio do Espírito Santo.
Meus irmãos,
A missão do cristão é evangelizar, anunciando a boa-notícia, o verdadeiro alívio do homem que sinceramente busca o sentido último de sua vida, Deus. Quem anuncia este programa de vida é homem da paz.
O homem velho, segundo São Paulo, foi crucificado com a Cruz do Cristo. Para quem é nova criatura em Cristo, surge, como o sol, a paz e a misericórdia de Deus. Benção, paz e misericórdia sobre todo o “Israel de Deus”, por isso lhes desejo com fé: “A paz do Senhor esteja sempre convoco” para que ao sairmos desta celebração possamos viver a missão: “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe”, caros portadores da paz do Cristo! Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO