
Padre Wagner Augusto Portugal
23º. Domingo do Tempo Comum - C.
“Tende compaixão de mim, Senhor, clamo por vós o dia inteiro; Senhor, sois bom e clemente, cheio de misericórdia para aqueles que vos invocam”(Cf. Sl 85,3.5)
Meus queridos Irmãos,
Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
O livro da Sabedoria nos ensina, na primeira leitura, que a sabedoria nunca é conquistada para sempre. É a prece de Salomão pela sabedoria, especialmente a segunda parte, que ensina o quanto à sabedoria é indispensável e necessária para os embates chamados diários de nossa caminhada neste mundo transitório. A sabedoria tão necessária nos dias hodiernos e nesta sociedade utilitarista em que vivemos o hedonismo campear e a falta de compromissos que sejam duradouros e sérios.
O lucro reina pelo lucro e o poder pelo poder, sempre se esquecendo que todos os dons devem ser colocados na gratuidade da graça que provém de Deus Trindade. Assim, a sabedoria ensina a dar a tudo o seu devido lugar, a ponderar o que é mais e o que é menos importante. Isso nos leva a conduzir as conclusões que, aos olhos das pessoas superficiais, parecem loucura.
As exigências do seguimento de Jesus parecem loucura extrema: “Odiar pai e mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs(Cf Lc 14,26)”, por causa de Cristo e de seu Evangelho, não é uma loucura? Não, isso nos ensina São Lucas em seu Evangelho. É a conseqüência da sabedoria cristã, da ponderação a respeito do investimento necessário para o Reino de Deus.
Começar a construir a torre sem o necessário capital é que é loucura, pois, todo mundo ficará gozando da gente porque não conseguiu concluir a obra! O homem sábio e prudente faz o devido orçamento, decidindo com prudência aonde irá aplicar e investir. No caso de todos os cristãos, o único orçamento adequado de se investir é o SUPREMO BEM, sem o qual os outros investimentos ficam sem sentido.
Irmãos e Irmãs,
O Evangelho de hoje nos ensina que o ponto de partida para a autêntica vivência cristã é o DESAPEGO. Desapego que, inicialmente, foi pedido aos discípulos e apóstolos, mas que paulatinamente foi entendido como desejo de Cristo que fosse assumido por toda a COMUNIDADE ECLESIAL. Desapego a exemplo de Jesus que deixou tudo para trás, não acumulou riquezas, e distribuiu tudo para os outros, até a sua preciosa vida na Cruz pela salvação de todo o gênero humano.
A mania das pessoas de possuir bens chega a ser uma doença. Doença que nos interpela a ficarmos livres de tudo o que nos oprime. O dinheiro em si não é mal e nem os bens. A maneira como se usa o dinheiro ou se usa os bens materiais deve ter uma finalidade comunitária, de servir a quem precisa e ao nosso semelhante. E aceitar a Jesus, na sua totalidade, para sermos um só com ele, como o verso e o reverso de uma medalha fazem uma unidade nos pede o DESAPEGO dos bens materiais.
Assim, o Evangelho de hoje nos coloca quatro condições radicais postas por Jesus para ser cristão:
- O desprendimento das coisas familiares;
- O desprendimento da própria vida e dos próprios interesses;
- O desprendimento de qualquer tipo de posse material ou espiritual;
- O assumir da cruz, isto é, a própria história em suas situações concretas no nosso quotidiano.
Jesus por sua vez fez tudo o que falamos acima: deixou a glória do Paraíso, assumiu a pobreza em todos os sentidos, aniquilou-se a si mesmo, tomando a condição de servo sofredor, sofreu todas as vicissitudes do seu tempo e de seu povo e morreu na Cruz pela nossa salvação.
Jesus repartiu tudo o que era e o que tinha com os discípulos, até mesmo o seu poder divino de perdoar os pecados e de santificar o povo de Deus. Mas quer repartir hoje e agora também a cruz e a morte, partes integrantes de sua missão salvadora, e partilhar a ressurreição e a glorificação, nova meta da criatura redimida.
Irmãos e Irmãs,
Jesus não é contra a família. Jesus não vai na contramão de um cultivo dos valores pessoais. Tudo o que os homens possuem vem da misericórdia de Deus. A família é um dom sagrado, a Igreja doméstica. A família vai mal quando ela está sem Jesus. A família com Jesus é querida e incentivada. Jesus está presente na família para transformá-la e não somente visitando-a nos batizados, primeira eucaristias, missas de exéquias ou matrimônios. Jesus quer caminhar com as famílias no cotidiano, no dia a dia, sendo presença-presente e viver segundo o seu Evangelho todos os momentos.
Jesus não vai contra uma vida confortável do ponto de vista individual ou pessoal. O que Jesus é contra é o egoísmo, a ausência de partilha, da misericórdia e do perdão. Jesus nos quer misericordiosos, mansos e compassivos. Jesus não quer uma religião de orações apenas pessoais, mas quer que nós nos engajemos na vida de comunidade, na Paróquia e na vida da Arquidiocese.
O discípulo renuncia a tudo, principalmente ao seu eu, as suas exigências, caprichos. O verdadeiro e autentico discípulo pega a cruz de Cristo e a carrega na dimensão comunitária e pastoral.
O Reino dos Céus é como a torre a ser construída. Tem que ser iniciada do alicerce, fazendo as bases para que se tenha uma boa sustentação. Assim, também, é o Reino de Deus que pede o esvaziamento do eu, coisa que exige muito mais esforço e trabalho do que levantar uma catedral ou arrasar uma montanha. É preciso assumir a Cruz e estar preparado para a morte, para as perseguições, para as calúnias, para as fofocas e para as intrigas. E estas surgindo vão nos purificando, deixando aquilo que realmente é o mais importante, a graça de Deus que nos embala e nos anima na missão.
Irmãos e Irmãs,
Paulo hoje é focalizado preso. Mesmo na prisão, coloca-se a serviço dos irmãos, implorando pela liberdade do escravo Onésimo. A comunidade eclesial deste Domingo dará graças a Deus pela graça de seguir a Cristo, de carregar as cruzes no seu seguimento, pela liberdade no uso das coisas, sem a elas se apegar. Pedirá o dom da sabedoria para ser fiel ao seguimento de Cristo. São as experiências pascais transformadas em ritos no memorial eucarístico que celebramos. Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO