
Padre Wagner Augusto Portugal
1º Domingo da Quaresma –A.
“Quando meu servo chamar, hei de atendê-lo, estarei com ele na tribulação. Hei de livrá-lo e glorificá-lo e lhe darei longos dias”(Cf. Sl 90,15s)
Meus queridos irmãos,
O tempo especial da Quaresma é, originariamente, considerado o tempo de preparação para o sacramento do Batismo, via de regra administrado aos catecúmenos – adultos – na noite da Páscoa. Nesta perspectiva situa-se a recordação do pecado nas origens da humanidade: todos precisam ser salvos em Cristo Jesus – o que é o efeito do batismo.
A Primeira Leitura deste domingo, retirada do Livro de Gênesis, narra o pecado do ser humano, representado por Adão e por Eva, nas origens da humanidade. Evoca o contraste entre o carinho do criador e a leviandade do ser humano, que, tentado pelo desejo da experiência do bem e do mal, com a ilusão de se tornar igual a Deus, acaba encontrando-se nu e sem nada. Por sua vez, a Segunda Leitura, da Carta aos Romanos, é o comentário do Apóstolo São Paulo sobre o mesmo episódio: se, solidários com Adão, todos pecam e morrem, muito mais encontram a justiça, a amizade com Deus, em Cristo, pelo qual a graça e a vida entram em nossa existência. A morte física, para Paulo, já não é aquele “castigo de Adão”, mas a transformação da vida, conforme o ensinamento de 1Cor 15,35-53.
Estimados Irmãos,
O tempo da Quaresma é inaugurado com a recordação das tentações do deserto. Jesus tem que tomar uma decisão: ou os bens do mundo, ou os bens do Reino. Depois de ser batizado, Jesus, antes de começar a vida pública, vive no deserto em jejum e em oração durante quarenta dias. Jesus veio ao mundo para recriá-lo, isto é, para levar as criaturas à sua origem primitiva com um destino divino e eterno.
O cenário de hoje lembra o tema do paraíso terrestre. Neste paraíso, Adão e Eva começavam a grande missão de povoar a terra, de criarem uma família de Deus, um povo que fosse a alegria e o prolongamento da Santíssima Trindade. Lá nossos primeiros pais, tentados pelo demônio e pelo mal, sucumbiram. Fracassou, aos olhos humanos, o plano amoroso de Deus. Jesus, agora como Novo Adão(Cf 1 Cor 15,45), ao começar a nova criação, passa pelas mesmas tentações, vence o demônio e ganha, por assim dizer, o direito de reabrir as portas do paraíso e construir o Reino dos Céus, a nova família do Senhor Deus na terra, neste vale de lágrimas.
As mesmas tentações de Adão e de Jesus são as tentações dos homens e das mulheres de hoje, as nossas tentações. O Evangelho de hoje narra um episódio de nosso quotidiano.
Tentações que advêm de uma dura opção: ou optamos pelos valores divinos e retornamos ao paraíso, fazendo o caminho chamado Jesus, ou nos contentaremos com os valores passageiros e efêmeros deste mundo, curtindo o angustiado desejo de ser deus(Cf. Gn 3,5), em permanente conflito com o Senhor e sem passagem entre terra e céu. A única ponte possível para a vida eterna é CRISTO. Para fazer esta ponte Jesus “viveu em tudo a condição humana, exceto o pecado”(Cf. Hb 4,15).
Meus queridos irmãos,
Adão e Eva foram tentados, no paraíso, pela gula, irmã gêmea da cobiça. Neste domingo, o demônio relembra, com um pé no paraíso de Adão e com outro na missão de Jesus, tenta-o transformar pedras em pão. A cobiça é a primeira tentação a nossa análise. Será menos a tentação de matar a fome e mais a tentação de ter. Jesus viera transformar os corações de pedra das criaturas humanas em corações-morada do Espírito Santo. Isso para que o coração humano procurasse as coisas de Deus, as alegrias eternas, e não as coisas passageiras do mundo efêmero. O demônio coloca a cobiça, que é a mãe de todos os vícios como meta para Jesus.
A segunda tentação colocada pelo demônio é o poder, irmão da soberba e do orgulho. Poder absoluto. Que não deve contas e obediência a ninguém. Ser Deus. Adão, em frontal desobediência a Deus, desejou até mesmo o poder sobre a morte. A Jesus é proposto o poder sobre as leis da natureza, o poder sobre os anjos. O demônio oferece o que os homens sempre desejaram: ter tudo em suas mãos e nada dividir com ninguém. Quem quer isso é o homem egoísta e orgulhoso. Isso porque Jesus viera para divinizar o homem e dar-lhe poderes excepcionais, mas sempre em comunhão com Deus e com o próximo. O demônio coloca a soberba como a mãe de todas as divisões, inimiga declarada da fraternidade.
A terceira tentação colocada pelo demônio é a dominação, a partir do “conhecer o bem e o mal”. Jesus viera como Senhor do mundo. Todas as criaturas lhe estavam sujeitadas. Mas viera para servir e não para dominar. Jesus veio para ser o servo dos servos de todos, e servir com gratuidade. Jesus no Lava-pés demonstrou qual deve ser a atitude dos cristãos: sempre servir, lavar os pés dos irmãos, se colocar como aquele que serve, servindo com generosidade e desprendimento, por amor, por sumo amor!
Estimados amigos,
As tentações estão em toda à parte e estão em confronto permanente com o demônio. Jesus passando pelo deserto, passando pelas mesmas tentações do povo que saiu do exílio, é duramente tentado. Assim, nós homens e mulheres, sofremos no dia a dia as mesmas tentações: na intimidade da casa, a tentação do pão. Na intimidade com Deus, a tentação de ficar ausente da vida de Deus e a terceira tentação nos trabalhos diários, aonde somos muitas vezes tentados a viver a ausência de Deus e a auto-suficiência. No equilíbrio e desempenho dessas três dimensões está a santidade. Por isso, o demônio se faz presente como perturbador.
Somos chamados a combater o mal e o demônio no dia a dia. Somos chamados a caminhar para o deserto, para a busca de Deus, para o nosso encontro com a Trindade Santíssima. Às tentações do ter, do poder e do dominar, que estão no sangue da gente desde a desgraça de Adão, Jesus veio propor o desapego, a fraternidade e o serviço generoso e gratuito.
Hoje, Jesus sai da cruz das tentações e sobre esta vitória constrói o Reino, a maneira humano-divina de viver na terra, que Adão não soube fazer. Jesus hoje é vitorioso sem o alarde do milagre. Na Sexta-Feira Santa Ele não desce da Cruz, porque nela estava a vitória definitiva do desapego, do serviço, da fraternidade, que geram vida e paz, graça e amor, verdade e salvação. Façamos de nosso retiro quaresmal, de penitência e conversão, a busca continua do rosto sereno e radioso de Deus, no desapego, no amor, no serviço generoso e na caridade que gera fraternura. Assim Seja!
Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO