Tamanho da fonte
Diminuir o tamanho da fonteAumentar tamanho da fonte
 


Padre Wagner Augusto Portugal

Leia as outras reflexões deste ano Leia a litúrgia diária
Arquivo dos anos anteriores:  
Reflexões do ano 2006 Reflexões do ano 2007

Domingo de Ramos –A.

“Seja feita a tua vontade”(Cf. Mt 26,42).

Meus queridos Irmãos,

Contemplamos na abertura da Semana Santa a figura do Messias Padecente. Neste ano litúrgico A podemos entrar no espírito do Evangelista Mateus ao narrar a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mateus ressalta o cumprimento, na vida e na morte de Jesus de Nazaré, do plano divino, expresso no Antigo Testamento. Neste sentido, podemos observar como Jesus realiza a figura do Servo Padecente de Deus, apresentada na primeira Leitura. Na cena do Getsêmani, por exemplo, Mateus é o único evangelista a colocar literalmente nos lábios de Jesus a expressão do Pai Nosso: “Seja feita a tua vontade”(Cf. Mt 26,42).

Neste domingo lemos dois Evangelhos: um antes de começar a procissão de Ramos e outro na hora litúrgica costumeira. No primeiro Evangelho vamos repetir a cena dos judeus ao aclamar o Senhor como Cristo Senhor e Rei. E o segundo Evangelho, o da Paixão, tem a tonalidade da morte. Morte que Mateus aponta ao Cristo como vitória da vida plena, vitória de quem tem a plenitude de todo o poder, no céu e na terra.

Vamos rezar neste domingo a partir da reflexão da Paixão do Senhor. Que os ramos que hoje trazemos conosco em nossas mãos nos levem ao Cristo mártir, vitorioso sobre a morte e que nos traz a vida plena. O Cristo que padece condenado por homens insanos, para garantir às criaturas humanas a libertação da injustiça e da morte e a posse da santidade e da vida. As palmas em nossas mãos querem significar que estamos prontos a fazer o mesmo itinerário, o mesmo horizonte, o mesmo caminho de Jesus.

Amigos e Amigas,

Mateus acentua que Jesus realiza o plano divino da salvação, expresso clara ou veladamente em todo o Antigo Testamento. Mateus atualiza as profecias em Jesus, daí a assertiva: “Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonastes?” (Cf. Sl 22). Quando os sumos sacerdotes pedem a Jesus que ele coloque a sua confiança em Deus, para que Deus o livre agora deste cálice, Mateus faz um paralelo entre a angústia e a confiança absoluta. Tudo estava programado na missão do Senhor. A angústia vai dando lugar à confiança em Deus, ao convite para louvar, glorificar e venerar o Senhor, que não abandona o atribulado, e passa a falar da realeza do senhor, diante de quem se prostrarão todos os poderosos do mundo, e do novo povo que há de nascer deste momento.

Presente, também está, a figura do Servo de Javé, que foi castigado e humilhado por Deus, foi transpassado e esmagado por causa de nossos crimes, embora não tivesse praticado nenhuma violência, nem houvesse falsidade em seus lábios. Depois de profundos sofrimentos a causa do Evangelho vai triunfar, todos serão justificados na ressurreição do Cristo.

Mateus nos deixa uma clara mensagem sobre a morte de Judas, depois de ter recebido trinta moedas de prata: Judas é o símbolo da pessoa que recebeu o Messias, mas o rejeita por interesses mesquinhos, e por isso será duramente julgado e condenado, mesmo percebendo seu erro. Por isso, não sejamos como Judas que traiu o Cristo por uma ninharia. Que o seu exemplo afaste de nós o desejo do ter, do poder e da disputa de poder, da inveja, da calúnia e da ausência de caridade.

Estimados amigos,

No trecho da Paixão que lemos a pouco fica clara a glorificação de Cristo sobre a morte.  A morte não está sendo visa como uma vergonha, mas como um caminho de glória, uma “teofania”, isto é, uma manifestação de Deus. Várias vezes Jesus aplicou a si a expressão do Antigo Testamento: “Filho de Deus”(Cf. Profeta Daniel).
O Filho de Deus vai ser julgado e condenado, ele aproxima a expressão à glória divina. O Filho de Deus que será julgado é “um ser misterioso, conduzido por Deus sobre as nuvens ao céu para receber a realeza divina”(Cf. Dn 7,13s).

A um messias meramente humano, os inteligentes poderiam compreender, adaptar-se a ele sem deixar os interesses pessoais. Mas a um Messias Divino, quem quisesse compreender e seguir deveria renunciar-se primeiro. Jesus mesmo prevenira: “Se alguém quiser me seguir, renuncie primeiro a si mesmo”(Cf. Mc 8, 34).

A paixão foi decisiva para Jesus, para os discípulos, para os apóstolos e para a humanidade. A paixão inaugura um tempo novo, um novo mundo, um novo céu e uma nova terra.

No dia da morte de Jesus as trevas cobriram o mundo de meio dia até as quinze horas. No início da criação Deus cria a luz. Agora aquele que é a luz do mundo “entrega o seu espírito” para que uma nova luz, a luz da vida(Cf. Jo 8,12) seja instalada no mundo, brilhe para toda a humanidade.

Na morte e da morte nasce a vida plena. A morte de Jesus não é a palavra final e nem o fim. A morte de Jesus é uma recreação, um novo começo. Ressuscitam mortos em torno do Calvário, e, dentro de três dias, o próprio Jesus, morto e sepultado, ressurgirá vitorioso.

O templo teve o seu véu rasgado de cima até embaixo: aqui reside a simbologia de um tempo novo. No novo templo a cortina não terá mais sentido, porque o Cristo assumiu o povo todo, que passou a ser o “corpo do Senhor”(Cf. 1 Cor 12,27).

O novo templo é o próprio Cristo, a morada perfeita, ou somos todos nós(Cf. 1Cor3,16), em fase de crescimento. O “santo dos Santos”, que marcava a presença de Deus no templo, deixa de ser um lugar para ser uma comunidade: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”(Cf. Mt 18,20).

Meus queridos amigos,

Jesus aceitou todos os acontecimentos, conforme nos ensinou Paulo: “Humilhou-se, feito obediente até à morte e morte de Cruz; por isso Deus o exaltou e lhe deu um Nome que está acima de todo o nome, para que ao Nome de Jesus se dobre todo joelho de quantos há na terra, no céu e nos abismos”(Cf. Fl. 2,8-10). Este despojamento de Jesus está resumido na segunda leitura que realiza na figura do Servo e que, por sua obediência até a morte – o amor radical que manifesta o Deus-Amor – é glorificado no senhoria de Deus.

Guardemos estas palmas que carregamos em nossos lares e oratórios, pois são sacramentais, isto é, objetos dignos de toda a nossa veneração e cujo uso respeitoso, como ensina a tradição da Igreja nas orações que emprega, podem trazer muitas graças de Deus às pessoas e lugares que os guardam. O exemplo de Cristo que nos ensina o caminho de libertação nos chama a viver a intensidade desta semana Santa.

Vamos procurar realizar a missão de libertar o mundo pela fidelidade radical à vontade do Pai. Por isso, devemos “prestar-lhe ouvidos”- sentido original de obediência. Obedecer não é deserção da liberdade. Obedecer é unir nossa vontade a vontade do Pai, para realizar seu projeto de amor, e as outras vontades que estão no mesmo projeto. E é também dar ouvidos aos gritos dos injustiçados, que denuncia o pisoteamento do projeto de Deus.

Jesus foi fiel ao projeto do Pai. Deus esperava de Jesus fidelidade a seu plano de amor e que Ele agisse conforme este plano. Jesus foi fiel a esta missão até o fim. Com sua morte ele trouxe a vida. Que nós todos esperamos, pela nossa fé, a ressurreição final. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO