
Padre Wagner Augusto Portugal
15º Domingo do Tempo Comum - A.
“Contemplarei, justificado, a vossa face; e serei saciado quando se manifestar a vossa glória”(cf. Sl.16,15)
Meus irmãos e minhas irmãs,
A Sagrada Liturgia nos levou, nos domingos precedentes, a reflexão do primeiro discurso de Jesus que foi o Sermão da Montanha e do seu segundo discurso que foi o Sermão Missionário. Mateus na sua exegese nos introduz hoje na leitura do terceiro discurso de Jesus que agrupa sete parábolas, que são as lições que Jesus nos ensina e que todos devemos aprender didaticamente a pedagogia do Reino de Deus. Claras e simples as parábolas argumentam o dia a dia de todos os que querem seguir Jesus. Por isso Jesus hoje nos apresenta a Parábola da Palavra de Deus que é semeada no coração humano. Encontrará a Palavra Divina um coração disposto a acolhê-la? Como nós nos portamos diante da Palavra de Deus? Nós somos corações que são como terra boa ou fértil para acolher a Palavra de Deus? Que Deus nos ajude a podermos cantar com grande entusiasmo o que o salmista nos pede: “A semente caiu em terra boa e deu fruto”(cf. Sl. 64).
Assim, iluminados pela santa liturgia, este dia é uma ação de graças à mãe-terra pelas sementeiras, pela colheita, pela prodigalidade que vem de Deus em favor de seus filhos e filhas. Quem trabalha nas lides rurais entende bem o que significa terra boa, terreno pedregoso, beira de caminho ou espinheiros. Por isso, o Evangelho dá um passo audacioso: ele quer alcançar o “terreno” do coração humano e afirmar que a Palavra de Deus é sempre fecunda e boa, e necessariamente brotará, se encontrar em nossos corações as disposições necessárias para crescer e dar frutos. E isso nós encontramos claramente na palavra do Profeta Isaías “Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e para a alimentação, assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”(Cf. Is 55,10-11).
Meus irmãos,
Jesus está à beira do Lago de Genesaré, sentado na barca,contempla a multidão na praia entre a água e o trigal que espigava. Era tempo de espera da colheita e o povo queria ouvi-lo e foi buscar no campo o tema de sua pregação e muitos de seus ouvintes tinham feito a colheita manual e sabiam do que acontecia com o fruto que caia entre os pedregulhos, ou seja, que não serviam para nada. Jesus vê aquela gente como o campo a ser semeado. Jesus é o semeador. A Palavra que o Pai lhe dera para ensinar(cf. Jo. 14,10) era a semente. Há tempos tentava plantar a Palavra de Deus naqueles corações. Por muitos motivos a maioria resistia, embora gostassem de ouvir o que Deus tinha para falar. Tinham o coração como pedra. Outros duvidaram dele e, entre o certo e o incerto, preferiam os seus negócios, os afazeres do mundo que muitas fezes são como espinheiros. Outros, ainda, não o levavam a sério, porque eram homens que sempre estavam na beira do caminho. Por fim, felizmente, havia os ouvintes que se comportavam como terra-boa, a exemplo dos apóstolos, e era nessa terra boa que Jesus queria multiplicar abundantemente o grão da doutrina e da graça que Ele era dispensador trazendo do Pai.
Meus irmãos,
“Palavra” no antigo testamento tem o sentido de chamada, de investidura de uma missão, de mensagem, de prenúncio, ou por fim, de acontecimento. No Novo Testamento, por sua vez, o substantivo “Palavra” ocorre 331 vezes, com os mais diversificados sentidos, como vocábulo, afirmação, dito, informação, pedido, notícia, discurso, exortação. O próprio Jesus é chamado simplesmente de Palavra de Deus, ou Verbo(cf. Jo 1,1), e quando se encarnou, se disse que a Palavra de Deus se fez carne e veio morar em nosso meio(cf. Jo. 1,14).
Assim, no Evangelho de hoje, “palavra” terá uma mistura de sentidos, que vão desde as palavras pronunciadas por Jesus até a sua pessoa, passando pelos sinais – que chamamos de milagres – que comprovam a sua messianidade. Sua doutrina, expressa em palavras humanas, está ligada ao mistério divino-humano de sua pessoa. Sua doutrina se expressa pela Santíssima Trindade(cf. Jo 14.15.26), a paternidade de Deus(cf. Jo 20,17), o julgamento final da criatura humana(cf. Mt. 25, 31-46); ora por uma exortação: amai-vos uns aos outros(cf. Jo. 13,34); perdoai-vos as ofensas(cf. Lc. 17,4); amai vossos inimigos(cf. Mt. 5,44); ora ainda por um pedido: que todos sejam um(cf. Jo 17,21); seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não(cf. Mt 5,37); aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração(cf. Mt 11, 29). Em vista de tudo isso está na centralidade da pregação a PESSOA DE JESUS, O SALVADOR.
Meus caros irmãos,
Partindo da pessoa de Jesus, de sua pregação, cada um de nós, de acordo com o seu empenho, poderá produzir bons frutos. A semente que nos é apresentada é boa, porque é garantida por Deus. Se a semente de Deus criou o mundo e enviou o seu Filho Unigênito para recriá-lo a problemática da liturgia de hoje está na terra que recebe a semente, ou seja, no coração de cada um de nós. A solução desta plantação é de nossa inteira responsabilidade, se a semente vai ou não vai frutificar. Deus realmente é misericordioso e não quer o mal de ninguém. Mas nos concede o livre arbítrio para receber ou não receber a grande semente, Jesus, Mestre e Senhor. Por isso Deus nos chama em espírito e verdade. Na consciência reta de aquiescer ao seu convite, respeitando a nossa liberdade, somos chamados a voltarmos para o sumo BEM, ser terra boa, fazendo a distinção do que é bom e do que é mal ou perverso. A parábola de hoje é um elogio à Palavra divina, sempre fecunda e eficaz, e um elogio à liberdade humana, onipotente dentro dos limites impostos a toda e qualquer criatura. Nossas metas e sonhos podem ser insondáveis, mas nossa realidade tem margens como o rio. Cristão autenticamente responsável é aquele que conhece as suas condições, os seus limites, remove as pedras e os abrolhos, que se atravessam na vida cotidiana, abrindo-se como terra boa às sementes da graça divina e cultiva o campo de seu coração e produz os frutos queridos por Deus(cf. Jo 15,5).
Irmãos e Irmãs,
Como estamos celebrando o ano Paulino a “palavra de Paulo” hoje, tirada da sua epístola aos Romanos, nos apresenta o tema da vivificação do Espírito, a vida nova em Cristo. Paulo nos diz que recebemos o Espírito de Cristo, que clama em nós: “Abbá, Pai”. O Espírito que nos transforma em filhos adotivos, co-herdeiros com Cristo, chamados para a glória com ele(cf. Rm 8,14-17). Mas ainda não se revelou em nós esta glória, embora já tenhamos recebido o Espírito como primícia. Por isso, nos e toda a criação estamos ansiando por essa plenitude, como uma mulher em dores de parto: o filho está aí, mas até que ele se manifeste, ela tem que passar pelo trabalho do parto. É essa a situação nossa e de nosso mundo, que é solidário conosco.
Somos chamados a um crescimento da fé e da salvação. Por isso vamos promover o encontro de uma semente garantida – a “Palavra de Deus” – com uma terra boa, acolhedora e generosa. Combatendo os motivos de endurecimento que nos abre a recebermos a Palavra fortificada em terra boa, como a dominação ideológica, a alienação, o consumismo, o culto da riqueza, do poder e do prazer, deixando de lado os fascínios de desejo, Deus nos chama a viver a autenticidade da simplicidade, a educação libertadora com olhos para o Evangelho.
Diante de corações duros, inconstantes, materialistas, Jesus nos chama a sermos corações abertos e disponíveis para escutar a sua Palavra de salvação. Se assim vivemos a Palavra, que é Jesus, será acolhida em cada um de nós como a chuva do céu, que penetra no chão e faz a semente da Palavra de Deus semear em nossos corações desejosos e abertos a fazer a sua vontade, que é sempre de santidade.
Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO