
Padre Wagner Augusto Portugal
Primeiro domingo da Quaresma – B.
“Quando meu servo chamar, hei de
atende-lo, estarei com ele na tribulação. Hei
de livra-lo e glorifica-lo e lhe darei longos dias”(Cf.
Sl 90,15s).
Meus queridos Irmãos,
Estamos vivendo o primeiro domingo da quaresma. Santa Quaresma:
tempo de perdoar e de amar. Amar como Jesus nos amou, subindo
ao Lenho da Cruz para a salvação da humanidade.
Vamos hoje refletir sobre a conversão, a linha mestra
deste tempo admirável que é a Santa Quaresma.
A Restauração da Humanidade é feita em
Cristo pelo Batismo.
Por isso o mal tem muitas faces, mas uma coerência inferior
que faz pensar nem ser pessoal, embora não identificável
no mundo material. Chama-se Satanás, ou seja, adversário,
ou ainda diabo, o destruidor. O diabo está presente desde
o início da humanidade. Parece, às vezes, que
Deus “solta as forças do mal”, por exemplo,
quando ele permitiu que Satanás provasse o justo Jô.
As águas do dilúvio representavam, para os nossos
antepassados, um desencadeamento das forças do mal sobre
a criação, o mundo dos homens.
Deus soltou Leviatã, o demônio das águas.
Mas quem tem a última palavra, a palavra final, na criação
é o amor misericordioso de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Não quer destruir o homem. Deus imporá limites
a Leviatã. Não mais voltará a destruir
a terra, conforme nos ensina a primeira Leitura.
No fim do dilúvio Deus repete o dia da criação,
em que Ele venceu o caos original, separou as águas de
cima e as águas de baixo e deu um lugar especial para
o homem habitar. É uma nova criação que
é feita a partir do dilúvio, que vai acompanhada
por um pacto de proteção.
O belo arco-íris, que alegra generosamente todos os viventes,
especialmente os homens, no fim do temporal, é o sinal
natural da aliança entre Deus e os homens. Oito pessoas
foram preservadas, na arca de Noé. Elas serão,
graças à aliança entre Deus e os homens,
o início de uma nova humanidade.
Irmãos e Irmãs,
O primeiro domingo da Santa Quaresma tem um Evangelho muito
especial: aquela passagem que relata o episódio das tentações
de Jesus, antes de começar a sua vida pública,
para pregar o Evangelho. Será contradição
para os olhos humanos pensar que o Filho de Deus passe por tentações.
Essas tentações se passam no deserto.
Tentação é sempre ligada a pecado, e como
Jesus era sem pecado, achamos impossíveis ele ser tentado.
Entretanto, até para os santos a tentação
é colocada para que seja aprimorado o nosso Seguimento
de Jesus Cristo.
O centro do Evangelho de hoje são os homens e as mulheres
que são redimidos por Jesus que restaura a humanidade
pela sua morte e ressurreição.
Todos os homens permanecem em constante tentação:
esta é o retrato dos humanos. No deserto há o
símbolo da natureza violentada, calcinada, amaldiçoada.
Até a natureza deve receber o Messias que vem reconduzir
as criaturas ao sentido que tinham na criação:
obras boas saídas das mãos poderosas de Deus.
Para elas Jesus traz a boa nova.
O extremo mais longe é o diabo. O mais perto são
os anjos, querubins e serafins. Entre os dois acontece a nossa
vida. Entre os dois se põe Nosso Senhor Jesus Cristo,
participando da sorte humana, dos animais e das plantas. O mais
beneficiado é o homem e a mulher.
Meus irmãos,
Jesus exclama que: “O tempo já se cumpriu”.
Isso significa não o fim do mundo, mas a inauguração
de um novo tempo de graça e de paz: o TEMPO DA SALVAÇÃO,
o momento da graça redentora. Terminamos o momento de
espera. Começa o tempo de certeza, que não dispensa
o esforço, a conversão, a emenda de vida. Esse
“hoje da salvação” não é
o tempo histórico de Jesus, mas sim o dia de hoje, o
tempo de cada um de nós, o hoje de cada um dos viventes.
Mas é necesssário refletir ainda sobre o DESERTO.
Todos os profetas se preparavam no deserto. O deserto passou
a ser o lugar onde se pode encontrar Deus e tomar grandes decisões.
E em Marcos, especialmente, é o lugar onde a gente se
encontra com Deus. Compreende-se, então, que Marcos faça
Jesus – mais santo que o profeta Elias, legislador maior
do que Moisés, o Messias esperado – como que nascer
do deserto e vir do deserto para começar a pregação
do Evangelho.
O DESERTO, entretanto, é um lugar inóspito, símbolo
de maldição, lugar de feras e demônios.
E o demônio vem tentar Jesus no deserto. Nós, homens
e mulheres, como imagens e semelhanças de Deus estamos
sempre ameaçados pelo demônio que quer que nós
vivamos o mundo do pecado e da maldição. Por isso
a grande mensagem de hoje é à volta do cristão
para Deus, à volta do vivente – homem e mulher
– para Deus e isso só acontecerá com a nossa
conversão e mudança de vida.
Por isso a Santa Igreja nos apresenta a Quaresma santa, tempo
de conversão, de mudança de vida e de amor em
abundância. Santa Quaresma é retorno para Deus,
equilíbrio interior, vitória sobre as nossas tentações.
A Sagrada Liturgia entoa o cântico que dá o colorido
deste tempo: “Este é o tempo propício”(Cf.
2Cor 6,2).
Jesus veio da terra dos Pagãos. Israel esperava um messias
triunfalista, chefe militar, e veio um filho de carpinteiro,
nascido na mais pérfida cidade de seu tempo. Não
importa qual a nossa origem ou a nossa condição
social ou econômica. O importante é o nosso batismo.
Pelo batismo nos tornamos cristãos e aí não
tem diferença todos somos cidadãos do céu.
Neste sentido anima a liturgia de hoje o espírito de
confiança acreditando que poderemos vencer o pecado e
a tentação pela graça de Deus: “Ele
guia ao bom caminho os pecadores , aos humildes conduz até
o fim em seu amor”. Por esta razão, todos os batizados
devem renovar, na celebração da Páscoa,
o compromisso de seu batismo: um compromisso de coerência
de vida, de anúncio do Evangelho e de engajamento na
nova Evangelização, superando todas as exclusões,
como dos idosos, lutando ainda para que todos tenham “o
pão de trigo e o pão da palavra”, palavra
que liberta e salva!
Meus irmãos,
Conversão e Batismo constituem as duas linhas mestras
da Quaresma. Pelo Batismo o ser humano mergulha, por sua vez,
na morte e ressurreição do Senhor Jesus. Este
mergulho nas águas da vida do Batismo em Cristo exige,
por sua vez, a conversão, o compromisso solene de uma
boa consciência para com Deus.
Conversão, fé na boa-nova do Cristo e compromisso
de vida nova constituem as linhas-força desta Quaresma
que se inicia. Que todos nós possamos viver intensamente
este tempo de penitência, de jejum, de conversão
e de oração e que a palavra divina seja sempre
a santa referência fundante a orientar a vida crista nas
horas de provações e de dúvidas. Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO