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Padre Wagner Augusto Portugal

Leia a liturgia de hoje Leia as outras reflexões

Segundo Domingo da Quaresma – B.

“Meu coração disse: Senhor, buscarei a vossa face. É vossa face, Senhor, que eu procuro, não desvieis de mim o vosso rosto”(Cf. Sl 26, 8s).

Meus irmãos e Irmãs,

Vamos caminhando no nosso grande retiro espiritual na Santa Quaresma. Tempo de penitência e Tempo de Conversão. Tempo da escuta da Palavra de Deus e dos seus desígnios para a nossa caminhada diária para que possamos voltar para a amizade com Deus.
Deus não quer a morte do pecador, mas sim que este pecador se converta e viva. Vida em abundância, dando testemunho do querigma cristão.

Caros irmãos,

A liturgia deste domingo é repleta do mistério de Deus: a sua transfiguração. E esta passagem bíblica tem um significado muito profundo, tendo em vista que o saudoso Pontífice João Paulo II, na sua Carta Apostólica do Rosário da Santa Virgem Maria, incluiu como quarto mistério luminoso exatamente da perícope que hoje refletimos a Transfiguração do Senhor Jesus.

Mas, irmãos, o que vem a ser a Transfiguração? A Transfiguração é o momento em que Jesus revela sua glória diante de seus discípulos. Esse é o resumo do Evangelho deste segundo domingo da Santa Quaresma.

Devemos situar esta visão no contexto que Marcos criou ao conceber a estrutura fundamental dos evangelhos escritos. Na primeira parte de sua atividade, Nosso Senhor Jesus Cristo se dirige às multidões, mediante sinais e ensinamentos, que deixam transparecer o “seu poder e a sua autoridade”, mas não dizem nada sobre o Seu Mistério Interior.

Na segunda metade de seu Evangelho, São Marcos fala que Jesus revela às suas testemunhas - e depois discípulos – o seu Mistério interior: sua missão do Servo Padecente e sua união com o Pai.

O que foi confiado a Jesus pessoalmente, pelo Pai, na hora do Batismo, quando a voz da nuvem lhe revelou: “Tu és o meu filho muito amado, em quem eu pus minha afeição”. (Cf. Mc 1,11) agora é revelado aos discípulos: “Este é o meu filho amado, escutai-o”. Isso para demonstrar que os mistérios de Deus não podem ser reservados para poucos, mas devem ser comunicados e partilhados com muitos para a edificação do Reino de Deus que se inicia na nossa peregrinação por este mundo.

O Evangelho de hoje nos mostra quem é Aquele que nos veio salvar e em que nos havemos de transformar, se superarmos as tentações da vida presente pela contínua conversão aos seus ensinamentos e sua pessoa: seremos transfigurados.

Meus irmãos,

O Antigo Testamento é um compêndio de recados para o povo de Israel. Ali está presente a aliança entre Deus e a Nação Israelita. O povo prometeu: “Faremos tudo o que o Senhor nos disse!”, conforme Ex 24,3. Mas, Jesus veio inaugurar um novo tempo. Deus nos apresenta o seu Filho Jesus, a nova Arca da Aliança, o novo templo de Deus, e recomenda com insistência: “escutai-O!”.

Este era o dever dos apóstolos e o nosso hoje: escutar Jesus com mais ouvidos do que o povo de Israel escutou Moisés, que lhes transmitira a vontade de Deus. Apesar da morte, ele tem palavras de vida eterna.

Os caminhos de Deus ultrapassam as razões da inteligência humana. Quanto mais, quando se trata da morte de quem, por definição, é imortal. Jesus não se transfigura para deslumbrar seus discípulos e seguidores e demonstrar-se superior a eles. Jesus tratou de um gesto para inspirar, criar e fundamentar a confiança de quem tinha razão para ter medo.

Por isso, morte e vida não se contradizem, mas fazem parte de um processo natural e de um mistério de fé e esperança cristã. Por isso Jesus, Filho de Deus Altíssimo e destinado para ser rei eterno e universal, devia passar pelos escarros, pelas dores e pela morte. Por isso, o Monte Tabor e o Monte Calvário, postos hoje um perto do outro, nos ajudem a compreender que no mistério da dor há ricas e encantadoras sementes divinas.

O monte da Transfiguração é colocado hoje à luz do Monte Calvário. Não pelo formato geográfico, porque o Calvário não passa de uma pequena elevação, mas pelo seu significado simbólico dentro da história da salvação. O Calvário é marcado pelo sangue e pela dor, mas de seu chão brotam as raízes da vida eterna.

O Tabor vem hoje envolto de luz e divindade, entretanto, profetizando um caminho de aniquilamento: cumprir a vontade do Pai até o extremo da renúncia e da morte. No Tabor ecoa a voz amorosa do Pai: “Este é meu filho muito amado, escutai-o”. No Calvário ouvimos a célebre frase da condição humana do Senhor: “Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?”. Aos olhos da fé os dois montes se fundem, porque a crueza do Calvário revela a extrema misericórdia e o infinito amor de Deus.

A morte que Jesus anuncia como a sua, morte violenta, nos convida para morrer diariamente para o pecado, a cada minuto, a cada instante, procurando sempre passar do Calvário para o Tabor, da desgraça para a luz, do pecado para a graça salvadora. Morrendo para o pecado estamos transfigurando para a vida eterna.

Meus irmãos,

Aparecem Moisés e Elias. Moisés o maior legislador e Elias o mais santo dos profetas. Jesus Cristo superou todos os profetas, porque Nele se completou o tempo da salvação, porque “Ele é o Meu Filho muito amado”.

Por isso as atitudes que devemos cultivar nesta segunda semana da quaresma são as seguintes: a humildade, o despojamento, o serviço, a doação em prol de muitos. Só podemos aceitar este ensinamento na confiança de que ele teve razão.

A razão de Jesus é a razão do Batismo em que somos lavados do pecado e inscritos como cidadãos do céu. Valorizamos nosso Batismo, passando do Calvário – sofrimento e pecado – para o Tabor – alegria e graça santificante de Deus.

Portanto, somos convidados a subir com Jesus a montanha e, na companhia de três de seus discípulos, viver a doce e cândida alegria da comunhão com ele. Somos embalados pelo testemunho da fé de Abraão e de Sara, que, obedientes à palavra de Deus e portadores da palavra da Salvação, desafiaram as deficiências da velhice e da esterilidade para gerar numerosa descendência.

As dificuldades e sofrimentos da caminhada não podem nos abater ou desanimar. No meio dos conflitos da vida, o Pai nos permite vislumbrar, desde já, sinais de ressurreição e nos dá o mandamento de escutar a palavra de Jesus, o Filho amado.

Renunciando aos vícios, libertando de tudo que vai contra os valores do Evangelho vamos assumir a nossa vocação de servir a Cristo, que é servir aos irmãos na busca de maior solidariedade e fraternidade. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO