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Padre Wagner Augusto Portugal

Leia a liturgia de hoje Leia as outras reflexões

Terceiro Domingo da Quaresma – B.

“Tenho os olhos sempre fitos no Senhor, porque livra os meus pés da armadilha. Olhai para mim, tende piedade, pois vivo sozinho e infeliz”(Cf. Sl 24, 15 s).

Meus irmãos,

Neste terceiro domingo de nosso grande retiro quaresmal, rumo às grandiosas celebrações da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, encontramos Jesus no templo de Jerusalém, testemunhamos seu gesto profético e cheio de indignação contra os vendilhões, e sua insistência numa prática religiosa baseada na JUSTIÇA.

Recebemos de Jesus o anúncio e a proposta de um verdadeiro culto no templo de seu corpo martirizado e glorificado. Hoje este templo é a comunidade de irmãos e irmãs, a comunidade de fé, a comunidade eclesial, o corpo vivo de Cristo.

Por isso, o tema central da liturgia deste domingo é a adoração de Deus. É o que o Antigo Testamento entende por “temor de Deus”. Este termo não aponta um medo infantil diante de um Deus policial, mas todo o sentimento de submissão e receptividade diante do Mistério. Israel e seu povo não pode “temer” outros deuses. Só a amizade de Javé vale a pena temer perder.

Este temor de Deus se expressa, antes de tudo, na Lei do Sinai, cujo resumo são os Dez Mandamentos. Inicia com o mandamento do temor de Javé: só a Javé se deve adorar, pois ele é um Deus que age: tirou Israel do Egito. Mas o temor de Deus não diz respeito tão-somente à atitude diante de Deus, mas também ao relacionamento com o próximo, com os irmãos e irmãs.

Pois Javé não estaria bem servido com um povo cujos membros se devorassem mutuamente. Daí o culto implicar imediatamente num “etos” ou seja, num critério de comportamento.

No espírito dos antigos israelitas, o Decálogo, que é refletido na primeira Leitura de hoje, era algo como um pacto feudal. Javé era o suserano, que fornecia força e proteção, mas esperava da parte do vassalo, Israel, colaboração e temor; e este consistiria na adoração de Javé e no relacionamento fraterno no seio do próprio povo. Pois sem estas duas condições, Israel não valeria nada como povo de Javé. Ou, em termos de hoje: para servir Deus, não basta ser piedoso; é preciso ser gente também, no relacionamento com os irmãos.

Irmãos e Irmãs,

Podemos dividir o Evangelho de hoje em três partes: primeiro, a purificação do templo, expulsando os que haviam transformado seus átrios em lugar de comércio para a compra e venda de animais, que serviam ao formalismo ritual.

Os peregrinos, tantas vezes vindos de longe, deviam encontrar e pagar no lugar os animais para o sacrifício. Muitas vezes os peregrinos dispunham só de dinheiro romano, não admitido no templo, por serem moedas cunhadas com imagens de imperadores estrangeiros ou com figuras pagãs do mundo opressor.

Daí a presença de cambistas no templo. Segundo o Evangelista João, o episódio acontece no recinto sacro, mas externo ao templo propriamente dito, que era um lugar de acesso também a estrangeiros e pagãos. Por isso, pode parecer excessivo o rigor de Jesus. Mas ao Evangelista interessa o simbolismo do episódio.

Jesus conheceu o mesmo templo que foram restaurado por Herodes, aquele que mandou massacrar os meninos de Belém. O templo se tornara o centro do culto ao Deus único e centro do judaísmo. Nele Jesus foi consagrado a Deus por Maria e José e nele Jesus “se perdeu” aos doze anos; a ele Jesus terá “subido” nas solenidades próprias do judaísmo.

Meus irmãos,

A segunda parte começa com a citação do Salmo 69: “O zelo por tua casa me devora”. (Cf. Jo 2, 17b)/ E ligando a perícope vem a profecia: “Destruí este templo e eu o reconstruirei em três dias”(Cf. Jo 12, 19b), que será citada como acusação diante de Caifás na condenação e será usada como escárnio no Calvário.

Destruir e Reconstruir são dois verbos fortes no Evangelho de hoje: aqui está o resumo da missão dos profetas.

Desde o início de seu Evangelho São João anuncia a missão profética de Jesus: tirar o pecado do mundo, arrancar a criatura humana das trevas, destruir o velho homem e recriar o universo, fazer renascer a criatura pela força do Espírito santo, transformar a água em vinho e, coisa inédita, destruir a morte e re-dar a vida, como tão bem aparece em tantas passagens dos santos Evangelhos, e, de forma muito visível, na ressurreição de Lázaro e, sobretudo em sua própria ressurreição. Gestos profundamente proféticos, mas que ultrapassam os feitos de todos os profetas.

Mas do que o Templo-edifício, o Evangelho nos fala do templo espiritual, mas agradável a Deus, onde os sacrifícios não são animais, mas boas obras, obras de caridade, acolhida ao pobre, ao excluído, ao necessitado, acolhida ao irmão deficiente que precisa ser acolhido que é chamado pelo Cristo e pela Igreja no Brasil: “Levanta-te, vem para o meio!”(Cf. Mc 3,3).

Deixemos os holocaustos e tudo o que seja afim e vivamos a construção de um novo templo, o templo espiritual, com obras de caridade e obras de evangelização. Aprendamos a fazer o bem, procurando o que é justo e agradável a Deus. Corrijamos o opressor e defendamos a viúva, bem como o ancião.

A resposta de Jesus a Samaritana é o dever de casa da liturgia de hoje: “Nem em Jerusalém nem no Garizim, mas chegou a hora de adorar o Pai em espírito e verdade”. (Cf. Jo 4,31-23).

Meus irmãos,

Jesus foi deixando claro em sua caminhada que o Templo de Jerusalém tinha perdido o seu sentido e que ele mesmo, seu corpo, seria o novo lugar da presença salvadora de Deus. A NOVIDADE DE HOJE É QUE OS DOIS TEMPLOS SE MISTURAM, e João observa: “O templo de que Jesus falava era o seu corpo”. (Cf. v. 21). Não mais um templo de pedra, por mais precioso que seja, mas um templo vivo, aberto para todos.

Nós cristãos, como prolongamento do Corpo do Cristo glorioso, somos a casa de Deus, o templo espiritual, cuja cabeça e fundamento é Jesus.

Enfim, a terceira parte do Evangelho – Capítulo 2 – vv. 23-25, temos a exortação, inúmeras vezes repetidas nos Evangelhos: não basta a admiração diante dos milagres, da coragem, ou da novidade trazida por Jesus. É preciso a convicção de Marta: “Creio que és o Cristo, o Filho de Deus, que veio a este mundo”. (Cf. Jo. 11,27).

Irmãos e Irmãs,

Paulo anuncia a cruz de Cristo na segunda leitura. Escândalo para os judeus, porque a cruz é um instrumento indigno para a morte de um judeu. Loucura para os pagãos, com sua filosofia elitista ou hedonista. Mas para os chamados, de todas as nações e de todos os povos, é a revelação da força de Deus e de sua sabedoria.

Nós sabemos por quê: porque Deus quer conquistar corações, que se convertem diante da conseqüência de seu próprio orgulho. Por isso, o acesso a Deus acontece doravante no Cristo rejeitado, pois é nele que encontramos o gesto de reconciliação de Deus para conosco.

Meus irmãos,

Hoje em dia, muita gente sente dificuldade em falar e aceitar os dez mandamentos. Esta lei, aparentemente tão negativa na sua expressão, não foi substituída pelo novo mandamento de Jesus, que é o amor?

Por isso buscando no amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, estaremos vivendo uma antecipação das glórias do Céu pela celebração da Páscoa. E, mais, o batizado sempre deve se comprometer a promover a vida e lutar contra tudo que a ameaça.

Todos os seres humanos são chamados a serem templos de Deus em Cristo Jesus. Importa não profanar o templo que carregamos em nós mesmo. Importa fazer com que tudo o que nele se realiza seja agradável a Deus.

Há de sê-lo se vivermos a sabedoria e ou a loucura da cruz, isto é, se soubermos viver o amor que nos foi ensinado por Cristo, que deu sua vida para que tivéssemos vida. Essa é a nova Aliança selada por Cristo com toda a humanidade.

Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO