Tamanho da fonte
Diminuir o tamanho da fonteAumentar tamanho da fonte
 


Padre Wagner Augusto Portugal

Leia a liturgia de hoje Leia as outras reflexões

Quinto Domingo da Quaresma – B.

“A mim, ó Deus, fazei justiça, defendei a minha causa contra a gente sem piedade; do homem perverso e traidor; libertai-me, porque sois, ó Deus, o meu socorro”(Cf. Sl 42, 1-2).

Meus Irmãos e Minhas Irmãs,

Chegamos ao fim de mais um retiro anual neste abençoado tempo da Santa Quaresma. Todos nós somos convidados neste derradeiro domingo da Quaresma a refletir e entender a aprendizagem divina: a hora de Jesus. “Dias virão”, expressão que, no Antigo Testamento, muitas vezes soa como uma ameaça.

Hoje, entretanto, ouvimos uma promessa das mais carinhosas: uma nova Aliança, conforme nos ensina a primeira leitura retirada do Livro de Jeremias. A antiga aliança tinha sido rompida demasiadas vezes. Deus recorre ao último recurso: uma nova aliança.... Aliança que será diferente da anterior.

A Lei não mais estará escrita em tábuas ou em rolos, mas no coração de cada um dos viventes. E não mais precisarão de mestre, pois todos conhecerão Deus. Deus os toma para si, esquecendo seus pecados.

Irmãos e Irmãs,

A segunda leitura nos fala que Cristo morreu por nós e se tornou princípio de salvação. Em Cristo a nova e eterna aliança é concluída.
Por isso estamos chegando perto da hora decisiva para Jesus.

O capítulo 12 do Evangelho de São João é denso e tenso. Jesus subiu a Jerusalém para a festa dos judeus, para a Páscoa judaica. Pernoitando em Betânia, há poucos quilômetros de Jerusalém, na casa de Lázaro, a quem ressuscitara dos mortos, Maria, num gesto profético, ungiu-lhes os pés com perfume precioso e enxugou-os com os cabelos.

Ao gesto de Maria, acontecido na privacidade, respondeu a multidão pelas ruas de Jerusalém, levando ramos de oliveira e gritando hosanas a Jesus, vindo em nome do Senhor. Todos: homens e mulheres, jovens e crianças, judeus e pagãos, cidadãos e plebeus, discípulos e inimigos se encontram no teatro da salvação.

Jesus demonstra perfeitamente que tem consciência que irá morrer e qual será o tipo de morte que para Ele está reservada. Jesus anuncia que é chegada a hora de sua paixão. Preocupa-se com ela. Expressa o desejo de ver os Apóstolos com ele no cumprimento da vontade do Pai. Gostaria que todos acompanhassem nessa hora. O próprio Evangelista coloca a Cruz como caminho de glorificação. Há uma perfeita sintonia entre a vontade de Jesus e a vontade do Pai.

Meus irmãos,

É chegada a hora decisiva. Quando Jesus começou a vida pública, fazendo o milagre de Caná, falou de uma hora em que ainda não havia chegado. Hoje Jesus afirma que chegou a hora. A palavra hora, em João, significa, o momento da paixão-morte-ressurreição, o cumprimento pleno da vontade do Pai.

A hora de Jesus inclui a cruz e a ressurreição, pelas quais se ofereceu ao mundo a salvação. E essa hora aparece no Evangelho hodierno sob várias figuras ou expressões afirmativas. Por isso o grão que vai nascer e frutificar, o perder a vida para conservar a vida eterna, a glorificação, a exaltação, a voz do céu, a morte, o julgamento tudo isso são demonstrações que é chegado o momento da paixão de Jesus.

Por isso é necessário que o fiel fite os olhos da fé, porque na primeira vez em que Jesus, em sua vida pública, subiu a Jerusalém, recebeu a visita de Nicodemos. O velho mestre representava, de certa forma, todos os judeus a quem Jesus anunciava em primeiro lugar, a nova doutrina e as condições exigidas para recebê-la.

Agora, é um grupo de gregos pagãos que o foram ver.

Jesus anuncia que é chegada a hora de sua glorificação na morte. Os gregos queriam ver Jesus. Ver, no Evangelho de JOÃO, está na linha do crer. Não basta ver Jesus com os olhos do corpo, mas devemos ver Jesus com os olhos da fé. Por isso é necessário entrar no destino de Jesus.

Jesus fala por parábolas. Compara-se a um grão de trigo, que morre para poder dar fruto. Ver Jesus é compreender, o quanto for possível, esse caminho de morte e vida, de humilhação e glória. Vê, de fato, Jesus quem for também capaz de ser grão de trigo e fazer morrer seu egoísmo e seus interesses, para que repontem frutos de salvação.

Irmãos e Irmãs,

O discípulo verdadeiro, segundo Jesus, não deve ter medo e fugir do caminho do sofrimento. Devemos ter cuidado com o verbo “odiar”, que ocorre no versículo 25 do Evangelho. Jesus não manda ter ódio, como entendemos a palavra hoje. Aqui ela está em contrabalanço com amar. Dois extremos para dizer que o discípulo de Jesus deve viver inteiramente desapegado. São inúmeras às vezes em que Jesus coloca essa exigência e a põe de muitos modos.

O discípulo não deve fugir da morte, se ela for necessária, pela edificação do Reino de Deus. Tudo no mundo é relativo, tendo em vista que o essencial é a vontade salvadora do Pai, que mandando seu Filho ao nosso meio, era necessário que Ele morresse para a nossa salvação.

O sim de Jesus à vontade do Pai é dolorosamente difícil. Compreende-se que, nesse momento de intensa luta interior e de decisão, Jesus peça aos Apóstolos que não o abandonem. E promete aos que estiverem com ele até o fim – passando pela cruz e chegando à glória – que o Pai do Céu os receberá com honras.

Jesus, ainda fala do servo, porque a gratuidade aqui na salvação é fundamental. Gratuitamente Jesus morre na cruz para a salvação do mundo. Gratuitamente deve acompanhá-Lo e com ele sofrer e morrer o servo.

A morte cruenta na cruz é a única forma de servir, porque há muitas formas de cruz e muitas maneiras de dar a vida por Cristo. Por isso, servir, viver a vida prática em coerência com esse serviço, repartir com os irmãos o que tem e o que é, e anunciar, de todas as formas a seu alcance, a pessoa e os ensinamentos de Jesus. Esse comportamento significa um contínuo morrer para os próprios interesses, significa repetir na prática a frase de Jesus no Horto das Oliveiras: “Não se faça a minha vontade e sim a vossa”.

Meus irmãos,

A síntese da mensagem da Liturgia de hoje é a seguinte, na conclusão dos exercícios quaresmais: ao aproximar-se da Semana Santa, todos somos convidados a descobrir a arma com a qual Jesus venceu o seu adversário e o pecado: a obediência ao amor, obediência ao amor até o fim.

Todos nós temos o incessante desejo de ver a Jesus. E só poderemos faze-lo quando o vermos no irmão e na irmã, especialmente, no deficiente, que nos queremos fazer como Marcos em seu Evangelho de salvação: “Levanta-te, vem para o meio!”. (Cf. Mc 3,3). Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO