
Padre Wagner Augusto Portugal
Domingo de Ramos – B.
“Saudemos com hosanas o Filho de
Davi! Bendito o que nos vem em nome do Senhor! Jesus, rei de
Israel, hosana nas alturas!”(Cf. Mt 21,9).
Meus irmãos e minhas irmãs,
O último domingo da Quaresma, o chamado domingo da Paixão,
nos adentrou dentro do mistério grandioso da chamada
Semana das Dores de Nossa Senhora. A liturgia do quinto domingo
da Santa Páscoa resumia bem o que deveríamos retirar
como síntese do grande retiro quaresmal: CONHECER, SOFRER
E VIVER JESUS CRISTO.
Conhecer e aderir a nossa fé em Jesus Cristo. Sofrer
como Jesus sofreu por nós, um sofrimento incruento, que
foi até o grande final de ter que morrer na cruz pela
Salvação de todo o gênero humano. E, mais
do que tudo isso, conhecendo e sofrendo, todos somos convidados
a viver em Jesus Cristo com a vitória do pecado, com
a vitória da morte, anunciando a ressurreição
com a vida eterna em Deus Trindade.
Meus irmãos,
A leitura da Entrada de Jesus em Jerusalém e da Paixão
segundo o Evangelista Marcos, neste ano, oferece ensejo para
meditar a cristologia deste Evangelista. Jesus é mais
do que o Filho de Davi. Jesus é o filho querido de Deus,
o “servo” que, em obediência ao incansável
amor de Deus para com os homens, dá sua vida, realizando
em plenitude o que prefigurou o Servo de Deus em Is 52-53, no
tempo do Exílio.
Mas como Filho de Deus, ele é também o Filho do
Homem, portador dos plenos poderes escatológicos. A condenação
de Jesus sob falsas alegações religiosas e políticas
significa o primeiro passo para a sua vinda gloriosa e o juízo
sobre o mundo, anunciando imediatamente antes da sua paixão.
É a dispersão escatológica, prelúdio
da reunião do rebanho pelo pastor escatológico,
depois da ressurreição, início do tempo
final, prelúdio da vinda definitiva.
O domingo de hoje abre, solenemente, as festividades da Semana
Santa, ou aqui em Minas, chamada de Semana Maior dos Mistérios
do Senhor Jesus. Uma semana em que a sagrada liturgia católica
vive na maior profundidade possível à paixão,
morte e ressurreição do nosso Salvador.
A semana culmina com a Páscoa. Páscoa que quer
dizer passagem. Passagem da morte para a vida eterna. Embora
celebrando a paixão e morte, nossos olhos estão
fixos na ressurreição do “Autor da Vida”,
como Pedro chamou Jesus.
A missa de hoje tem dois momentos. Um inicial em que são
bentos os ramos. Este Evangelho, compondo a bênção
e a procissão solene com os ramos, conta à entrada
triunfal de Jesus em Jerusalém. Nesse ano se lê
o Evangelho de Marcos.
As palmas ou os ramos que seguramos nas mãos durante
a procissão da paixão nos recordam a vitória
de Jesus sobre a morte e a nossa vitória sobre a maldade
e a destruição eterna. As palmas lembram que renasceram
sobre a maldade e a destruição eterna. As palmas
lembram que renasceram acordadas pelo sangue derramado pelo
Senhor Jesus. A mesma lembrança nos devem trazer as palmas
bentas, quando colocadas na cabeceira de nossa cama ou na sala
de estar, ou sob o Madeiro de nossos crucifixos.
Meus irmãos e Minhas irmãs,
O texto da Paixão narrado por Marcos é o mais
antigo relato deste episódio da nossa salvação.
Marcos coloca que Jesus está plenamente consciente de
sua morte, entretanto, não comentando detalhes e pormenores.
Marcos quer narrar o desfecho final: “Verdadeiramente,
este homem era o Filho de Deus”. Na frase do centurião
romano está todo o dogma de nossa fé católica
e apostólica: “Jesus Cristo, Filho de Deus”.
(Cf. Mc 1,1)
As duas naturezas de Jesus não se separam no agir, a
ponto de devermos dizer que o Cristo-Deus-Homem padeceu a morte
na cruz; o Cristo-Homem-Deus nos salvou.
Por isso, “Ver-me-eis assentado à direita do poder
de Deus, vindo sobre as nuvens do céu”.(Cf. Mc
14,62). Assentar-se à direita e vir sobre as nuvens são
expressões bíblicas que afirmam que Jesus tem
poderes divinos, permanece como Deus presente e ativo no mundo
e é o único juiz de todas as criaturas.
Meus irmãos,
Marcos coloca em relevo todos os passos de Jesus e a manifestação
da glória de Deus. Cristo agonizante, luta com vontade
lúcida; abandonado por todos os amigos é a convergência
de todos os corações, anunciando a liberdade plena,
julgado pelos romanos e judeus, é o juiz supremo.
Pura contradição aos olhos humanos, o que nos
leva a refletir: “Apresentando-se como simples homem,
humilhou-se, fez-se obediente até a morte e morte de
cruz...Por isso Deus o exaltou e deu-lhe um nome acima de todo
nome... e diante dele dobrem-se todos os joelhos”(Cf.
Fl 2,6-11).
Hoje nós devemos refletir sobre o protagonismo de Judas
Iscariotes, de Simão Pedro. O primeiro porque entregou
Jesus e o segundo, constituído Pedra angular de nossa
Igreja, o renegou por três vezes.
Judas e Pedro representam as atitudes dos homens e mulheres
de dois mil anos atrás e de hoje. Ambos eram apóstolos,
tomavam refeição na mesma mesa com Jesus, companheiros
de três anos de profícua caminhada. Tudo igualzinho
a nós outros. Ambos experimentaram do poder milagroso
de Jesus.
Na verdade, traímos como Judas e como Pedro. E muitas
vezes não conseguimos explicar para nós mesmos
as nossas traições. Como não conseguimos
explicar o comportamento de Judas e a fraqueza de Pedro. Não
saberia dizer qual dos dois traiu mais feio. Judas traiu por
decepção e ganância. Pedro traiu por medo
e por orgulho. Cada um de nós traz dentro de nosso coração
essas quatro más qualidades: decepção,
ganância, medo e orgulho. A diferença está
nas lágrimas de arrependimento e na conversão
sincera.
Outro protagonista da Paixão de Nosso Senhor é
Pôncio Pilatos. Homem frio, calculista, que odiava o s
judeus, muito dado à violência e à tortura,
reconhece a inocência de Jesus, mas lava as suas mãos,
mandando açoitar Jesus e soltar Barrabás. Político
agiu como os políticos, da pior política. Quantas
e quantas vezes acontecem gestos semelhantes.
Para defender a própria carreira, a própria posição,
sacrificamos a justiça. A mesma injustiça de Pilatos
é repetida a todos os momentos pelos políticos
e pelos homens simples. Assim todos estamos ativos na crucificação
do Senhor. Como Pilatos ou como Apóstolos ausentes.
Meus irmãos,
Hoje é um domingo em que poderíamos chamá-lo
de domingo de Jesus pobre e sofredor. Este domingo é
o dia especial da fraternidade, dentro da Campanha da CNBB,
sobretudo porque hoje fazemos a Coleta da Fraternidade.
Esse é o gesto mais simples que podemos fazer hoje como
solidariedade aos milhares de deficientes que são atendidos
pelos mais diversos serviços da Igreja, principalmente
os trabalhos assistenciais desenvolvidos pelas nossas comunidades,
paróquias, Dioceses para resgatar a dignidade e promover
os que vivem a realidade da deficiência, sendo chamados
pelo Cristo: “Levanta-te, vem para o meio! (Cf Mc 3,3)”.
O dinheiro dessa coleta nacional vai ampliar e melhorar muito
o atendimento a esses nossos irmãos, injustamente condenados
à exclusão, ao esquecimento, ao sofrimento, enfim,
a uma cruz pesada que lhes roubam a alegria de chegar ao termo
da vida com um mínimo de dignidade. A eles Cristo também
se fez solidário e nos apela hoje a sairmos do comodismo
e nos convertermos a uma nova prática, baseada no serviço,
no despojamento de nós mesmos, no dom do amor sem reservas.
Esta aberta à semana da conversão e da mudança
de vida. O Código de Direito Canônico determina
que a forma ordinária de confissão é a
confissão auricular, ou seja, a confissão pessoal.
Por isso cada um faça o máximo de procurar a reconciliação
com Deus e com a comunidade com um bom exame de consciência
e uma perfeita confissão. Enfim, vivamos a paixão
para cantar as alegrias da ressurreição. Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO