
Padre Wagner Augusto Portugal
Sexta-Feira Da Paixão Do Senhor –
B.
Meus irmãos e Minhas Irmãs,
Hoje é o único dia do ano litúrgico em
que não se celebra a Santa Missa, em vistas da Crucificação
e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Igreja está em
recolhida oração. Dia de penitência. Dia
de jejum. Dia de abstinência de Carne. Dia em que cada
um de nós deve voltar seus pensamentos para viver os
sofrimentos atrozes vividos pelo Salvador e Redentor da Humanidade.
Durante o Tríduo Sacro, a liturgia segue os passos do
Senhor mais cerradamente ainda do que no Tempo da Quaresma.
O Tríduo Sacro é um grande drama, uma grande encenação
do sofrimento do Senhor. Por isso, tendo representado a Instituição
da Eucaristia na tarde de Quinta-Feira, a liturgia não
volta a celebrar a eucaristia até a noite pascal –
assim como Jesus não voltou a celebra-la até que
a celebrasse no Reino de Deus.
Por isso, no dia em que o sacrifício de Cristo está
mais central do que nunca, a tradição da Sagrada
Liturgia não celebra o sacrifico da Missa, mas uma evocação
de sua morte, que não deixa de estar em íntima
união com a missa de Quinta-Feira Santa, já que
o pão consagrado ontem é consumido hoje.
A liturgia nos faz sentir, de maneira especial, o significado
do sofrimento de Cristo, e as duas leituras que preparam o Evangelho
são fundamentais para penetramos no Mistério que
celebramos. A primeira Leitura é o quarto canto do Servo
de Javé.
Nesta leitura de Isaías a Igreja nascente encontrou,
através das nuvens da história antiga, o fio que
a existência de Jesus retornou e levou ao fim: a doação
da vida do justo, pela salvação dos homens e mulheres,
pela salvação dos irmãos, mesmo dos que
o rejeitaram e mesmo daqueles que o traíram. Já
a segunda leitura, retirada da Carta aos Hebreus, coloca em
evidencia que Jesus participou em tudo de nossa condição
humana, exceto participou do pecado.
Assim devemos nos colocar perante o mistério de hoje:
Jesus, se fazendo homem em tudo – exceto no pecado, morre
pela salvação da humanidade, para o perdão
de nossos pecados, inaugurando o novo tempo: o tempo da salvação
e da glória.
Meus irmãos,
Nesta celebração acompanhamos os passos do Senhor
em sua paixão até a sua entrega total na cruz.
Contemplando e adorando o Senhor Crucificado, elevamos nossa
oração por todas as pessoas com quem o sangue
de Cristo nos fez irmãos, especialmente os que sofrem,
prolongando hoje, o mistério de sua cruz. Comungando
do seu corpo, recebemos força para viver da esperança
e da vitória que nasce da cruz.
É Páscoa: Cristo, que morre na cruz, passa deste
mundo ao Pai; do seu lado brota, para nós, a vida divina;
passamos do pecado para vida nova da ressurreição:
“É a páscoa da Cruz”.
Hoje, irmãos, estamos diante do corpo morto do Senhor.
Hoje estamos diante da morte do Filho de Deus, que assumiu em
tudo a condição humana, exceto o pecado. Jesus
que suportou a calúnia, o desrespeito, a zombaria, a
condenação a morrer numa cruz, morte reservada
a criminosos. Estamos diante de um morto, pregado no madeiro
da Cruz, com a inscrição sugestiva: “Jesus
Nazareno, o Rei dos Judeus”.
A paixão e morte de Jesus é um mistério,
é uma verdade de fé que ultrapassa a compreensão
dos pobres mortais. Por isso é necessário que
todos nós nos penitenciemos e rezemos como Jesus: “Pai,
perdoai-lhes eles não sabem o que fazem”.
Jesus, de maneira exemplar, cumpriu a vontade do projeto de
salvação de seu Pai: angústia, dor, calvário,
crucificação, vinagre, desprezo, humilhação,
despojamento, doação, enfim, amor pela humanidade.
Meus irmãos,
A paixão nos foi relatada: densas palavras e episódios
que devem não somente tocar nossos corações,
mas fazer de cada um de nós protagonistas da paixão.
Rezamos com esta Paixão. Vamos nos converter e procurar
a graça de Deus com o relato que acabamos de refletir.
Morte da pessoa mais importante da humanidade: morte do Filho
de Deus, morte do Redentor, morte do homem que salvou a humanidade.
Tanta humilhação que ouvimos que um soldado lhe
abriu o lado com uma lança.
Nunca imaginaríamos o soldado anônimo, que a tradição
mais tarde chamou de Longino, que seu gesto cruel era o cumprimento
da bendita profecia de Zacarias: “.... derramarei sobre
a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um
espírito de graça e de consolação.
E eles olharão para mim depois de haver-me transpassado.
Lamentarão a morte do filho único, chorarão
como se chorassem sobre um filho primogênito”. (Cf.
Zc. 12, 10).
Contemplamos o Cristo transpassado e morto na cruz. O primogênito
de Deus Pai, isto é, aquele que tem o direito de herança
sobre tudo. O primogênito de todas as criaturas, ou seja,
aquele para quem todas as coisas foram feitas, tanto as do céu
quanto as da terra.
Irmãos caríssimos,
Domingo passado celebramos a entrada triunfante de Jesus em
Jerusalém com o Domingo de Ramos. Ontem celebramos a
Instituição da Eucaristia, a Instituição
do Sacerdócio Ministerial. Jesus diante do templo. O
povo curioso por causa da ressurreição do amigo
fiel Lázaro, todos queriam estar perto de Jesus.
Daí a afirmação do Senhor: “Eu vos
digo com toda a verdade, se o grão de trigo, caindo na
terra, não morrer, ficará só, mas se morrer,
produzirá muito fruto” (Cf. Jo 12,24).Pensemos
bem Jesus é o grão de trigo que traz dentro de
si a força da vida, da vida eterna, da vida na Trindade.
Mas, para que anuncie a vida, irrompendo a morte terá
que morrer, na mais cruel de todas as mortes, a morte de cruz.
O grão morre para brotar, é um grão carregado
de esperança, de doce esperança da ressurreição.
É uma morte que anuncia e traz no seu bojo a vida, a
vida eterna.
Morte bendita que anuncia e personifica a vida, vida plena,
vida em abundância, vida em plenitude.
Por isso a Cruz é o lenho da esperança cristão,
o símbolo de nossa fé: “Enquanto o mundo
gira a cruz permanece de pé!”
Choramos a morte de Jesus no madeiro da Cruz.Beijamos o Senhor
Morto e na noite de hoje iremos retirar Jesus da Cruz e caminhar
com seu esquife pelas principais ruas desta Manchester mineira.
Contemplamos as suas chagas. Contemplamos o seu sofrimento.
Contemplamos a morte para ressuscitarmos com o Senhor no terceiro
dia, na ressurreição da vida eterna.
Sofrimento pela morte. Sofrimento que ilumina o mundo. Sangue
que derramado pela nossa iniqüidade é esperança
da vida eterna. Cristo morto que nos pede um renovado empenho
pastoral para abandonar a morte e viver a vida plena, vida de
fé, vida de comunidade, vida de conformidade com o projeto
de salvação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vida
de conformidade com o Deus da Luz, com o Deus da Vida, com o
projeto do Primogênito e redentor de todas as criaturas
no caminho que nos leva à glória eterna.
Amados irmãos,
O evento da paixão, morte e ressurreição
de Jesus Cristo são três momentos distintos, mas
inseparáveis de nossa fé: “Cristo morreu
por nossos pecados e foi sepultado. E ressuscitou ao terceiro
dia”. E, mais, “ninguém me tira a vida. Tenho
o poder para dá-la e novamente para retoma-la”.
Estamos diante de um morto, que é nosso: Jesus de Nazaré,
nascido de uma Mulher Virgem, morto pelos nossos pecados, que
de seu lado correu água que lavou nossos crimes e nossa
infidelidade. Jesus o Criador, o dom da vida eterna, a verdade
única, a luz eterna, a árvore da vida do Paraíso,
o caminho para a ressurreição e a vida.
Com tudo isso, entre as leituras e a veneração
da Cruz gloriosa, iremos assistir agora às grandes preces
da Igreja, modelo das preces dos fiéis em nossas liturgias.
Este rito também se inspira na idéia de que a
cruz é a fonte da graça de Deus, da vida da Igreja:
do lado aberto do Salvador nasce a sua única Igreja,
a Santa Igreja Católica.
Enfim, depois da mistagogia da palavra de Deus, das preces universais,
especialmente da oração pedindo a paz e do pedido
generoso de dignidade e vida plena para os idosos, iremos receber
a comunhão, simples e devoto gesto de dedicação
ao Senhor que nos amou até o fim: “Jesus tanto
amou o mundo que morreu na Cruz pela nossa Salvação”.
Meus irmãos,
A liturgia sugestivamente mantém desde a noite de ontem
o altar desnudado e o sacrário aberto. Jesus está
morto. Que o sofrimento seja o caminho de vida, como o grão
que morre para dar a vida À espiga. Jesus abraçou
a cruz e a morte por fidelidade à missão que o
Pai lhe deu, de ser o rosto misericordioso de Deus, solidário
com os pequenos , com os pecadores, com os idosos, com os pobres.
Esta é a nossa missão, ser fiel com Cristo da
Cruz, do Calvário para a Ressurreição e
para a Vida eterna. Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO