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Padre Wagner Augusto Portugal

Leia a liturgia de hoje Leia as outras reflexões

Sexto Domingo Da Páscoa – B.

“Anunciai com gritos de alegria, proclamai até os extremos da terra: o Senhor libertou o seu povo, aleluia!”(Cf. Is 48,20).

Celebramos neste domingo a Festa do Amor, o “AMOR MAIOR”. “Deus é amor” não é, pura e simplesmente, uma sentença metafísica. É uma expressão simbólica, que quer abrir nossos olhos para a presença de Deus na realidade do amor, e isso, sob dois aspectos: o amor que se nos revela na doação de Cristo por nós – o amor colocado como DOM – e o amor que nós devemos praticar para com os filhos de Deus – o amor como MISSÃO, sendo que o primeiro é modelo e fundamento do segundo. Portanto, “amor” não significa, antes de tudo, que nós amamos a Deus – a observância do primeiro mandamento, entendida como base de justificação -, mas que Deus nos amou primeiro, dando seu Filho por nós.

Este amor, manifestado na doação do Filho de Deus, é o maior: “Ninguém tem amor maior, do que dar sua vida por aqueles que ama(Cf.Jo 15, 13)”. Literalmente Jesus nos chama: “de amigos”. Porém, este termo é tão usado e gasto, entre nós outros, e tão carregado de pensamentos interesseiros, que é preferível parafraseá-lo por aqueles que amamos, o que não deixa de ser a etimologia certa de “amigo”.

Não digo: “aqueles que nos amam”, pois o modelo de nosso amor é o que amou primeiro. O amor de Cristo é que nos tornou seus amigos. Amigos em vez de servos. Cristo não nos amou porque éramos amáveis, mas seu amor nos tornou amáveis. Assim deve ser também o nosso amor pelos irmãos. Um pouco como aquela mulher que tem um marido não muito brilhante, porém muito amável a seus olhos, porque ela o escolheu.

Meus irmãos,

Nos dois domingos precedentes a Liturgia da Igreja girou em torno de dois verbos: “conhecer” e “permanecer” em Jesus Cristo, ou seja, estar em comunhão com o Senhor Ressuscitado. Estes verbos iluminam a vida cristã e a nossa caminhada pessoal. Somente em Jesus é unida a humanidade à divindade. Neste permanecer em Cristo está a comunhão do mistério divino com o mistério humano.

O Evangelho de hoje é o Evangelho da TERNURA. Ternura de Deus Pai para com seu Filho bendito e em que ele pusera todo o comprazimento. Ternura nossa, se nos amarmos uns aos outros com o mesmo amor com que Jesus nos amou. Ao conjunto de sentimentos, de ações e comportamento que exprime essa ternura, Jesus chamou de AMIZADE. E chamou aos que permanecem unidos a ele, o Cristo, de AMIGOS. O AMOR é o centro do Cristianismo e é o eixo sobre o qual giram toda as virtudes e doutrinas do NOVO TESTAMENTO.

O Reino de Deus é o Reino do Amor, daquele amor que é instituído para que todos nós tenhamos vida e vida em abundância. O Evangelista João define Deus como amor, relembrando os latinos, DEUS CHARITAS EST, ou seja, DEUS É AMOR, DEUS É CARIDADE. Jesus é a absoluta manifestação do amor entre os homens e as mulheres.

Irmãos e Irmãs,

Em uma sociedade cada vez mais secularizada a palavra amor deixou de ser um sentimento nobre para significar a palavra PRAZER por puro PRAZER, HEDONISMO, EROTISMO e todos os “ismos” que deixam o homem preso ao sexo desvairado, deixando de lado a concretização do amor absolutamente voltado para as coisas do alto, para aquelas coisas que foram assumidas pelo mistério da paixão, morte e ressurreição, e que nos libertou do pecado para que possamos viver a vida da graça que passa pela vida da fraternidade, que é o AMOR sem LIMITES, o amor igual ao AMOR DO CRISTO RESSUSCITADO.

Vivemos em um mundo cada vez mais egoísta e solitário. Quantas são as pessoas que hoje recorrem aos psicólogos, aos tratamentos especializados, que reclamam de solidão. Tudo isso é porque não são solidárias. Temos que sair do solitário para o solidário, fazendo parte da comunidade da solidariedade aonde podemos cantar com o Evangelho de hoje: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. (Cf. Jo 15, 12).

O exemplo de amor que devemos vivenciar e viver é o exemplo do amor perfeito, da primeira e mais lídima comunidade: a Santíssima Trindade.

Queridos irmãos,

“Alegrai-vos sempre no Senhor Ressuscitado!”. “Alegrai-vos sempre no Senhor que Ressuscitou!”. A alegria é o fruto mais bendito do amor e da paz. Quando Cristo entrou em comunhão com a criatura humana, os anjos anunciaram grande alegria para todos. Jesus trouxe a libertação, que foi recebida com grande contentamento.

A vitória de Jesus sobre a morte encheu os Apóstolos de exultação.Por isso São Paulo escreveu da prisão romana: “Alegrai-vos! Sede afáveis com todos! Alegrai-vos” (Cf. Fl 4,4-5). Por isso, a alegria que vem de Cristo é a alegria da paz, a alegria eterna.

Depois da caridade a alegria é uma das virtudes enumeradas por São Paulo na carta aos Gl 5,22. É exatamente esta alegria que inunda o tempo pascal que celebramos, alegrando-se todos os fiéis, os anjos do céu, a terra inundada de tanta luz, a alegria que a Mãe Igreja compartilha com todos os seus fiéis.

E, poderíamos nos perguntar, como viver esta alegria? Com muita simplicidade, como a fé cristã. Vivendo a radicalidade dos Evangelhos, a simplicidade da síntese dos Evangelhos: “Amai a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a Si Mesmo e terão a vida eterna”.

Vida eterna simples que passa pela simplicidade do amor que é personificado no cumprimento dos dez mandamentos, do amor comunhão, um amor gratuito e um amor recíproco.

A alegria cristã, se nasce da comunhão com Deus, tem suas raízes no grande dom da salvação e na nossa correspondência amorosa a ele. A alegria nasce da comunhão e gera comunhão, por isso está estreitamente ligada ao amor, como lembra Nosso Senhor Jesus Cristo na liturgia de hoje.

Meus irmãos,

O amor de Deus, manifestado em Cristo, toma a iniciativa e vai à procura de todos que possam ser amados. Ora, procurando amar a todos, Deus escolhe cada um que ele quer amar, e ama-o com amor de predileção. Deus ama o Filho. Este nos revela o amor do Pai amando-nos até o fim.

E nós somos chamados a fazer o mesmo, para a multidão dos que podem ser nossos irmãos e filhos de Deus. Esta é a dinâmica do amor universal de Deus. Não ama em geral. Ama a cada um como amigo. Daí a necessidade de que estes amigos sejam unidos entre eles por este mesmo amor. A comunidade tem, na eclesiologia, uma prioridade estratégica sobre a missão. Porém, este amor que forma comunidade é destinado a todos, envolvendo todos os que não se opuseram a que Deus os ame assim.

Por isso a Primeira Leitura nos ensina que Deus não faz acepção de pessoas, nem se deixa levar por divergências de sistema religioso. O que Deus mesmo quer é congregar todos os seus filhos num mesmo amor pessoal. Pedro, o primeiro Apóstolo e primeiro Papa, é escolhido para ser o instrumento desta missão, superando os tabus do sistema judaico.

O campo da missão é a meta desta liturgia em que todos nós somos convidados a dar testemunho do amor da Cruz que iluminou a ressurreição e se eterniza no Sacrifício do Banquete Eucarístico, aonde a Igreja nos dá a “Eucaristia como fonte e dom diário de amor para nossa vida”.

Assim, meus amigos, Jesus chamou seus discípulos de amigos e quer que a comunidade cristã, a nossa comunidade, seja um sinal desse amor que nos une a ele e aos irmãos, sem jogo de poder ou de competições gerados pela vaidade pessoal. Que todos nós possamos dar testemunho do amor do Cristo Ressuscitado vivendo a síntese do Evangelho: “alegrai-vos e amai-vos uns aos outros como Jesus, o Ressuscitado, nos amou, amém, Aleluia!”.

Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO