
Padre Wagner Augusto Portugal
Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue
de Cristo.
“O Senhor alimentou seu
povo com a flor do trigo e com o mel do rochedo o saciou”(Cf.
Sl. 80, 17).
Meus queridos irmãos,
Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo é festa oportuna
para reflexão sobre a Aliança de Deus com o gênero
humano. Aliança que foi iniciada no Antigo Testamento
e que ilumina o Novo Testamento com a Instituição
da Eucaristia pelo Redentor da Humanidade, para perpetuar entre
nós a Nova e Eterna Aliança de Deus com a humanidade
inteira. Em Jesus o Pai nos acolhe, nos serve e nos alimenta,
fazendo comunhão conosco.
A solenidade do Corpo e Sangue de Cristo tem uma mensagem eminentemente
catequética para o povo de Deus: em todas as missas nós
caminhamos rumo a mesa da Comunhão. Mas, o que é
a Comunhão?
A Comunhão é o sacramento de Deus que se oferece
a nós como alimento de graça, alimento de purificação,
alimento de santificação, alimento de comum união
com o Criador, que nos leva, de maneira coercitiva, pelo próprio
gesto à comunhão com as criaturas humanas.
Comunhão de Deus conosco e com a nossa comunidade, com
o nosso irmão, especialmente com o irmão sofredor,
com o irmão excluído, com o irmão que vive
à margem do sistema neoliberal que excluiu e continua
excluindo o pobre povo brasileiro. Comunhão que nos coloca
em sintonia com o mistério da fé, mistério
de salvação.
Com a festa da Santa Eucaristia, Cristo é atualizado
para as nossas comunidades. Ele é o “jovem”,
ressuscitado há dois mil anos, que sempre se dá
a cada um de nós como alimento diário para levar
adiante nossa caminhada e colaborar com a edificação
do Reino de Deus entre nós.
Irmãos e Irmãs,
A Santa Eucaristia é o Sacramento para as criaturas humanas
e um Sacramento que em todos se encontram iguais entre iguais,
formando uma verdadeira comunidade. Porém, é um
Sacramento feito de pão e de vinho, duas criaturas irracionais,
e quase sempre realizado sobre uma mesa de pedra, o altar.
Parece um verdadeiro encontro da natureza em todos os seus elementos.
Por isso relembrando Santo Irineu que nos ensina que não
foi por acaso que Jesus quis fazer-se presente no pão
e no vinho, dois produtos da terra, amaldiçoada no pecado
de Adão, e isso para que nós tenhamos a certeza
que Jesus refez em si não só a criatura humana,
mas a própria natureza e o cosmo, a terra em seu sentido
mais concreto.
Pela Ressurreição de Cristo, homens e mulheres,
criaturas e toda a humanidade, terra e céu, lagos e orvalhos,
todos, indistintamente, foram recriados para, num verdadeiro
hino de louvor e de ação de graças, pelo
Corpo e pelo Sangue Precioso de Jesus, tornar-se Eucaristia,
mistério máximo de nossa salvação.
Meus irmãos,
A palavra central da liturgia deste ano é ALIANÇA.
Deus Conosco faz aliança com o seu povo a partir da Cruz
Redentora de Cristo.
Israel experimentou seu Deus como Aquele com quem tinha uma
Aliança. Era um aliado, embora a relação
fosse “feudal”, com Deus como suserano
e Israel como vassalo, ou como muitas pensavam uma Aliança
militar, de libertação. Mas eram unidos por amizade
e fidelidade e – em princípio – podiam contar
um com o outro.
Esta Aliança foi instituída, mediante Moisés,
em vários momentos. Um momento era a promulgação
da Lei, que tem a forma de um pacto feudal, conforme nos ensina
Ex 20. Outro era o sacrifício, em que o mesmo sangue
do animal mais precioso – o touro – foi aspergido
em parte sobre o altar e em parte sobre o povo. Deus e povo
unidos pelo mesmo sangue(Cf. Ex 24).
A plena realização deste modelo é Jesus
Cristo. Em seu sangue foram unidos Deus e o novo povo de Deus.
A hora deste sacrifício foi à hora da cruz. As
palavras da NOVA ALIANÇA foram pronunciadas à
sombra da cruz, na noite precedente, durante a celebração
da Páscoa de Jesus e seus discípulos.
Como ainda não foi derramado o sangue, o vinho vermelho
o substituiu – vinho da taça erguida a Deus em
agradecimento pela libertação do povo, conforme
prescrevia o rito pascal, vinho da taça que Deus não
retirou do Filho, quando este, em agonia, rezou: “Afasta
de mim este cálice, mas não a minha, porém
a tua vontade seja feita”(Cf. Mc 14,36).
E, conseqüentemente, o pão partido e distribuído
se transformou em sinal sagrado daquele que se doaria por seus
irmãos até o fim. É a nova Aliança,
que Deus novamente unido com seu povo, não mais por laços
feudais, mas pela própria vida do Filho, dada em corpo
e sangue por nós. Este é o resumo do Evangelho.
Meus irmãos,
A segunda leitura fala da Nova e Eterna Aliança. Em vez
de documento escrito, a cruz redentora. Em vez de sangue dos
animais, o sangue de Jesus. Em vez de um profeta que fosse mediador,
o próprio Filho de Deus que, sem deixar a divindade,
assume a nossa humanidade, a nossa carne. O próprio Deus
revestido da humanidade e primogênito de todas as criaturas
assume o mistério central da nova e eterna aliança
de Deus com os homens.
O Evangelho sela a nova e eterna aliança entre Deus e
os homens. Uma aliança que nos anima a vida, que expia
nossos pecados e que inflama nosso coração de
solidariedade.
A Eucaristia é ceia de libertação. Libertação
de nossos pecados que são lavados pela Cruz Redentora.
Eucaristia que é comunhão que conta com a presença
de Jesus. Não a sua presença física, mas
a sua presença verdadeira. É o próprio
Cristo que dá o seu corpo e o seu sangue como alimento
de nossa salvação.
Eucaristia que personifica e nos lembra a presença/alimento
que nos garante a participação na vida divina.Quando
comungamos, o Cristo/alimento é que nos assimila e nos
diviniza, elevando-nos de criaturas insuficientes à gloriosa
condição de Filhos de Deus.
O Antigo Testamento falava em vida, expiação e
solidariedade. Tudo isso está presente na Eucaristia.
Assim nos fala o próprio Jesus: “Quem come
a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna”(Cf.,
Jo 6,54).
Meus amigos,
A Festa de “Corpus Christi” é
o momento solene em que a Santa Igreja nos convida a fazer um
culto público do Senhor Ressuscitado que caminha conosco
no nosso itinerário de salvação. Com grande
júbilo, aqui em Minas, nós enfeitamos as ruas
para que o Senhor Ressuscitado passe sendo homenageado o Senhor
da Vida com a genialidade da arte sacra mineira que aproveita
este momento de evangelização sobre o valor universal
da Eucaristia.
Que este culto público seja agradável ao Senhor
Eucarístico nascendo em cada um de nós um amor
que se torna sacrifico dedicado ao Santo, a Deus. Amor que doa
corpo e sangue, vida. A celebração de hoje tem
algo de vital, algo que deve mexer com nossas vidas. Devemos
unir-nos a seu amor, entregando nosso corpo e sangue para pô-lo
a serviço de nossos irmãos. Assim todos seremos
consagrados com Jesus “oferenda perfeita” com Cristo.
Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO