
Padre Wagner Augusto Portugal
12º Domingo do Tempo Comum – B.
“O Senhor é a força
de seu povo, fortaleza e salvação do seu ungido.
Salvai, Senhor, vosso povo, abençoai vossa herança
e governai para sempre os vossos servos”. (Cf. Sl. 27,
8s).
Meus Irmãos e Minhas Irmãs,
No final do Evangelho de hoje vem à pergunta que permeia
toda a liturgia deste domingo: “Quem é
este, a quem até o vento e o mar obedecem?”(Cf.
Mc 4, 41). Falando das tempestades, poderíamos dizer,
tempestades da fé, estamos ainda em pleno segredo messiânico.
Aproximamo-nos, porém, do momento em que esse segredo
será parcialmente desvendado, pelo menos para os discípulos,
embora sem que o compreendam.
A Jó é feita uma pergunta por Deus: “Quem
fechou com comportas o mar?”(Cf. Jó 38, 8). Até
Jó se dá conta do estado nebuloso de seu pensar
e confessa: “Disseste bem: Quem obscurece assim a providência
com discursos tolos? Falei de maravilhas que me superam sem
compreende-las. Fizeste bem, interrogando-me para que respondesse.
Meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora meus olhos
te viram. Agora posso retirar-me”(Cf., 42,2-6).
O livro de Jó não é só, nem principalmente,
um livro de lamúrias. É uma profissão de
fé no Deus Criador e Mantenedor da criação.
Reclamar contra a manutenção de Deus testemunha
uma visão muito curta, se Deus fez tantas coisas maravilhosas
e insondáveis no universo. A Sagrada Escritura nega-se
a dar uma resposta superficial à problemática
de Jó, mas lhe dá como pano de fundo o mistério
do Deus vivo e verdadeiro.
Meus irmãos,
Jesus dá ordens para que os discípulos tomassem
uma barca e atravessassem o lago em direção às
terras pagãs de Gérasa. A noite no Evangelho que
refletimos tem um significado escatológico, de salvação
daqueles que estão nas trevas, na escuridão, no
pecado.
A aventura do grupo, em companhia de Jesus, no meio da tempestade,
lembra o acontecido na sinagoga de Cafarnaum: um espírito
imundo reage à presença de Jesus. Jesus dá-lhe
ordens de calar-se e sair do homem. O espírito, agitando-o
violentamente, deu um grande grito e saiu. E todos ficaram admirados.
E o mesmo ensinamento se repete no Evangelho de hoje.
Os discípulos estavam apavorados com a situação
da viagem dentro do Mar: eram muitos os questionamentos e estávamos
no início da missão: noite tempestuosa. Quando
sentiram que o barco iria afundar apelaram para Jesus, que deu
ordens ao vento e ao mar e recompôs a calmaria.
Assim nós devemos relembrar da passagem bíblica: “Sem mim nada podeis fazer”(Cf. Jo 15,5).
Realmente, sem a presença de Deus em nossas vidas, pela
mediação de Jesus Cristo, nada poderemos fazer.
Por isso devemos fazer ponte com outra passagem de Jo 16,33: “Coragem! Eu venci o mundo!”. Que
o poder de Jesus estava evidente ninguém mais duvida.
O que ocorre, entretanto, é que os discípulos
sentiram e deveriam dar testemunho que Jesus dominava os demônios
que moravam no fundo do mar e era o Homem que veio para dar
a libertação aos cativos, conforme ficou evidenciado
quando Jesus libertou um possesso em Gérasa.
Jesus foi o verdadeiro catequista para os apóstolos no
Evangelho de hoje: foi corrigindo os erros e as doutrinas que
não condiziam com o seu Projeto de Salvação.
Por isso Jesus venceu o mundo quando ao morrer na Cruz redentora
anunciou uma nova e eterna aliança: a vida eterna. Daí
que a mensagem que os apóstolos deveriam pregar era a
chegada do Reino de Deus a hebreus e pagãos, um Reino
na terra, nessa vida procelosa.
Apesar do mal, apesar das borrascas tenebrosas ocasionadas pela
presença do mal no mundo, o Reino é possível,
porque Jesus está presente. A atenção e
a luta serão incessantes, o medo virá. Mas o pensamento
de que Jesus “está conosco” no
mesmo barco de nossa vida, de nossa caminhada cotidiana, significa
a garantia para a nossa vida.
Irmãos e Irmãs,
A tempestade do Mar da Galiléia foi provocada, segundo
entendimento dos apóstolos pelos demônios que moravam
no fundo do mar. Este episódio toma um sentido de luta
de poderes entre os espíritos do mal e Jesus de Nazaré,
encarnação do espírito do bem. Esta luta
entre o bem e o mal ocupa largo espaço na literatura
bíblica.
E a idéia de que os espíritos do mal morassem
nos abismos do mar aparece clara nalguns salmos que cantam a
passagem do Mar Vermelho, sempre vista pelos Israelitas como
uma tremenda vitória de Deus para libertar o povo do
mal da escravidão.
O livro de Jó foi escrito exatamente para mostrar a existência
dos dois princípios, do bem e do mal, e no trecho que
lemos hoje, como primeira leitura, encontramos um Deus soberano
do Mar, pondo-lhe limites, isto é, mostrando-se senhor
e acima dos espíritos do mal, exatamente como Jesus hoje
na barca.
O Evangelho de hoje, ainda, nos fala da humanidade de Jesus.
Uma humanidade que está tão presente em sua vida
na terra, quanto hoje ela manifesta-se no gesto de dar ordens
ao mar revolto.
O Evangelista quis ressaltar a verdade de seu poder divino a
que se sujeitam todas as criaturas, boas e más. Não
se travam batalhas para ver quem é mais forte. Simplesmente,
Jesus tem poder, dá ordens, é obedecido. Sua natureza
humana, que lhe traz cansaço e sono, não se altera
com o gesto de sua natureza divina.
Meus irmãos,
O amor de Cristo por nós é tão grande,
que de algum modo nós nos identificamos com ele: somos
seu corpo. Para Paulo, isso é muito real. Nossa incorporação
com Cristo é uma realidade espiritual. Diz respeito à
criatura nova que somos no Espírito. Paulo nem quer mais
conhecer a Cristo de modo carnal. Isso não quer dizer
que Ele não dá importância à história
humana de Jesus. Quer dizer sim que esta história humana
não é apenas humana, mas divina. É a história
de Deus que nos renovou em Cristo.
Por isso, se Jesus parece estar dormindo ou recostado no travesseiro
estamos muito enganados. Muitos preferem ver o Cristo da Sexta-feira
da paixão: Morto e ponto final! Assim ele não
incomoda nossas situações de pecado. Mas, o Cristo
é a luz que ilumina a nossa vida, que caminha conosco
lado a lado, que é nosso porto seguro.
O silêncio de Deus é uma das grandes qualidades
que distingue Deus dos homens. No silêncio da história
caminha a voz que deve guiar nossas vidas. Assim, nas aflições
da vida, procurando segurança em Deus, encontramos Jesus
diante de nós, poderoso, sim, mas isso, em última
instância, por meio da Cruz, por meio de sua doação
de amor. Aí, ele revela o poder maior de Deus em sua
pessoa. Reconhecendo isso, teremos confiança para enfrentar
as tempestades de nossa história.
Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO