
Padre Wagner Augusto Portugal
14º Domingo do Tempo Comum – B.
Meus irmãos e Minhas irmãs,
Neste domingo vamos refletir sobre a sorte do profeta: a REJEIÇÃO.
Tema muito atual no continente americano e, particularmente,
no nosso Brasil que clama por justiça e por dignidade
social.
A primeira Leitura nos ensina que Ezequiel é enviado
a um povo “duro de cerviz”, mesmo enquanto vivia
no exílio. Como no passado Jeremias, Ezequiel lembra
a Israel seu passado rebelde. O povo hebreu é um povo
que se revolta contra Deus e mata seus profetas, inclusive o
Enviado, Jesus de Nazaré.
O profeta deve marcar presença, por isso o povo deve
saber que o porta-voz de Deus esteve no meio dele. Daí
a missão do profeta: o profeta tem que comer a palavra
de Deus, que é doce como mel, mas causa amargura no profeta.
Aceito ou rejeitado, o profeta tem que proclamar, oportuna ou
inoportunamente o Reino de Deus. Profeta não é
uma missão de diplomata. Pelo contrário, há
um momento em que a palavra deve ser dita com toda a clareza:
é o tempo, é o momento do profeta.
Meus irmãos,
O Evangelho de hoje nos ensina que o povo de Nazaré não
soube enxergar em Jesus o Filho de Deus. Não tiveram
fé para enxergar com os olhos da fé e ouvir com
os ouvidos da esperança, e entender com o coração
repleto do amor.
Nazaré, cidade em que Jesus se criou, era uma cidade
sem expressão no Antigo Testamento. Talvez uma vila sacerdotal,
uma cidade ignorada por todos os homens do tempo de Jesus. Cidade
pobre, lugarejo onde se cultivava trigo, linho, vinhedos, olivais
e árvores frutíferas, como a figueira. Em Nazaré
José, pai votivo de Jesus, era carpinteiro e ensinou
o seu ofício a Jesus.
Jesus entra na sinagoga no dia de sábado. O povo hebreu
reuniu-se na sua igreja, a sinagoga, sobretudo aos sábados.
Depois de uma oração, lia-se um trecho, ou em
torno da Lei ou em torno dos Profetas. Depois desta leitura,
alguém, com mais de 30 anos, fazia um comentário
e, por fim, era dada a bênção de Aarão
(Cf. Num 4,24-26). A sinagoga de Nazaré era muito familiar
a Jesus, porque a freqüentara desde criança.
E todos aí o conheciam. Mas até então,
Jesus não tinha a idade exigida para explicar os Profetas.
Agora, passando os 30 anos, aceitou o pedido da comunidade que,
ao ouvi-lo, espantou-se com sua sabedoria e com a interpretação
que dava aos textos sagrados. Como era possível tanto
conhecimento, se não fizera nenhum curso especializado
com os rabinos e os escribas? Que estalo acontecera?
A primeira reação dos nazarenos deveria ser de
reconhecer em Jesus um enviado especial de Deus, como o povo
eleito teve Isaías, Jeremias, Moisés e outros
grandes homens repletos da ação de Deus. Esta
atitude levaria os hebreus a ouvirem Jesus e levar em consideração
o seu ensinamento.
Uma segunda atitude seria ver em Jesus um momento em que estava
possuído pelo demônio. E, por fim, uma terceira
atitude, olhando apenas o lado humano, o lado familiar, escandalizando-se
como Jesus sendo profeta. E, infelizmente, os nazarenos preferiram
rejeitar Jesus.
O que houve? Foi o escândalo. Os Nazarenos não
acreditaram na mensagem de Jesus; as palavras de Jesus, em vez
de lhes abrir o coração e a mente, os fixou na
incredulidade. Assim, muitas vezes vemos repetida a palavra
de Jesus no Evangelho de hoje: “Um profeta só não
é estimado em sua pátria, entre seus parentes
e familiares”(Cf. Mc 6,4).
Meus irmãos,
A experiência de Paulo, relatada na segunda leitura, vai
na mesma direção. Paulo descreve as dificuldades
de seu apostolado, gloriando-se contra aqueles que se gloriam
na observância judaica e outros pretextos para destruir
a obra da evangelização que ele está realizando.
Pede a seus leitores suportarem um pouco de loucura de sua parte:
seu próprio elogio. Mas que elogio!
O currículo de Paulo não está cheio de
diplomas, concursos e obras publicadas, mas de loucuras mesmo.
Gloria-se de sua fraqueza, de sua prisão, de suas tentações,
de seu remorso do passado de perseguidor de cristãos,
de um “anjo de Satanás!”, uma provação
semelhante à de Jô. O que importa é a releitura
e o sentido que Paulo dá: impedir que se encha de soberba.
O evangelho vale mais que ouro, mas o apóstolo é
apenas um recipiente de barro.
Se ele produz efeito, é o espírito de Deus que
o produz. Para o apóstolo, basta a graça, isto
é, que Deus realize a sua redenção, sem
depender de nossas qualidades humanas. Em nossa fraqueza é
que seu poder se manifesta. Jesus não pode fazer milagres
em Nazaré: fraqueza também. Mas Deus realizou
seu plano na suprema “fraqueza” de Cristo: sua morte
na Cruz. Junto a ele há lugar para os “fracos”,
nele, tornam-se fortes.
Irmãos,
Hoje a Santa Igreja deve ser o povo de profetas que denuncia
os desvios da mensagem do Evangelho e protesta em nome dos mais
fracos e injustiçados, lutando por mais justiça
social, por mais inclusão de emprego, de moradia, de
comida. A voz profética deve também ser ouvida
dentro da Igreja para uma vivência cada vez mais autenticamente
evangélica. Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO