Tamanho da fonte
Diminuir o tamanho da fonteAumentar tamanho da fonte
 


Padre Wagner Augusto Portugal

Leia a liturgia de hoje Leia as outras reflexões

Festa da Transfiguração do Senhor, B.

“O Espírito Santo apareceu na nuvem luminosa e a voz do Pai se fez ouvir: Este é o meu Filho amado, nele depositei todo o meu amor. Escutai-o”. (Cf. Mt. 17,5).

Meus irmãos,

A Festa da Transfiguração celebra o mistério de Jesus Cristo. Para nós mineiros é a festa do Senhor Bom Jesus. O Bom Jesus que ilumina a vida de todos os cristãos, por isso manifesta o Cristo e toda a sua divindade, a sua glória ao mundo, como nosso salvador. É esse o sentido do Evangelho que lemos no dia de hoje.

É nesse sentido que São Marcos procura iluminar à cruz de Jesus, um cruz dolorosa, entretanto, uma cruz triunfante. É um sinal de maldição, mas uma cruz que traz consigo uma bênção. Na cruz morre o Filho de Deus. Mas nesta mesma cruz brota a vida plena para todas as criaturas, para a humanidade redimida por ela.

            A Transfiguração tem um significado muito singular: revelar aos Apóstolos que a passagem pela morte era temporária e a ela sucederia o fato impensável da ressurreição. Isso porque Jesus de Nazaré era o Filho de Deus e tinha o “poder de dar e retomar a vida”(Cf. Jo 10,18).

            Portanto, vem a pergunta: O que é a Transfiguração? Não é uma aparição, podemos dizer inicialmente. Mas, podemos afirmar  que a Transfiguração é o parecer em outra forma que não a forma costumeira que Jesus aparecia aos seus discípulos. Jesus, portanto, não apareceu no Tabor, mas tomou outra figura.

Como o fenômeno é inteiramente desconhecido no Antigo Testamento, não há uma palavra própria para descreve-lo ao entendimento humano. Os Evangelistas foram buscar uma nova terminologia usada na linguagem pagã, quando falavam de deuses que não assumiam a forma humana.

E usam um termo que a língua nossa, a língua de Camões, também guardou do grego: metamorfose, isto é, assunção de outra forma. Assim temos uma outra forma quando a água assume a forma de gelo, ou quando a lagarta se transforma em borboleta. No Monte Tabor não temos um outro Jesus.

É o mesmo Jesus de Nazaré que assume uma forma divina. Embora não possamos dizer que Deus tenha uma outra forma, o Evangelista teve de ater-se ao linguajar e à compreensão humana. Ainda que o Antigo Testamento não conte transfigurações em sua linguagem, os termos com que se descreve a de Jesus são todos desconhecidos, quando se descreve a divindade: luz resplandecente, vestes brancas, alto de um monte, nuvem da qual sai uma voz.

Meus irmãos,

A Transfiguração ocorreu em Monte, local para os judeus de contato com a Divindade. As vestes brancas simbolizam a eternidade, o pertencer ao céu e ser santo como Deus é santo. Por isso o anjo da ressurreição estará vestido de vestes brancas.

A Santa Igreja conservou a figura da veste branca e a impõe ao recém-batizado para simbolizar à pertença à família de Deus e para expressar que o Sagrado Batismo devolveu à criatura a santidade que à coloca em comunhão com Deus, conforme nos ensinou São Paulo: “Passais por uma transformação espiritual de vossa mentalidade e vos revestis do homem novo, criado segundo Deus na justiça e verdadeira santidade”(Cf. Ef 4,24).

Tudo isso levando para a santidade e para a comunhão íntima com Deus e com a comunidade.

            Outro símbolo da Transfiguração é a Luz. Deus mora na Luz inacessível, conforme nos ensina a IV Oração Eucarística, tão rica de significados teológicos. Por isso São João nos ensina: “Deus é Luz”(Cf. 1 Jo 1,5) Jesus de Nazaré definiu-se como sendo a encarnação da luz(Cf Jo 1, 7s; 3, 19; 12,46).

            A nuvem, simboliza a presença de Deus, como a manifestaçao no Monte Sinai(Cf. Ex 19,16) e a aliança entre Deus e o povo. Isaías cantava que a nuvem é o carro de Deus(Cf. Is 19,1, Sl 104, 3). Quando Jesus subir ao céu, em certo momento, será envolto por uma nuvem(Cf. At 1,9). Ora, o Tabor tem muito do significado do Sinai. Cristo estava para dar à luz um novo povo, uma nova e definitiva aliança, um novo Testamento através do Sangue derramado na cruz. Como vimos, a Transfiguração tem todo um sentido pascal. E a Páscoa tem um sentido de re-criação.

            Para o Angélico Santo Tomás de Aquino, o Tabor tem a presença do Espírito Santo: “A Trindade inteira apareceu, o Pai, na voz: o Filho no homem; o Espírito na nuvem luminosa”. A voz do Pai, saída da nuvem, é o centro do episódio: “Este é meu filho bem-amado. Escutai o que Ele diz!”. (Cf. Mc 9, 8).

Aqui está uma clara afirmação da filiação divina de Jesus, de sua autoridade de Filho de Deus, de sua natureza divina, por isso ele tem palavras de vida eterna. Para que nós nos transfiguremos nós devemos nos revestirmos de Cristo para sermos como Ele é.  É muito importante termos presente que a Festa de hoje nos sinaliza que pelo caminho do sofrimento e da Cruz chegaremos a Ressurreição. São Pedro nos representa a todos quando pretendemos viver e anunciar a alegria da Ressurreição sem passar pela generosa entrega e pela morte.

Também nós preferimos montar a nossa tenda na montanha. Mas é preciso ter a experiência mística e coletiva da missão, do anúncio do Evangelho. Não podemos ficar na “fresca” da contemplação da Montanha, mas descer para o dia a dia da vida missionária. Devemos ressaltar:

1. O Discípulo reza unindo a oração a realidade do dia a dia da vida cotidiana, principalmente pedindo a força de Deus para vencer os obstáculos, pedindo as forças que vem de Deus.

2. Somos convidados a dar espaço e oportunidade a novas experiências. Para isso é preciso rezar e amar, conforme nos ensinou São João Maria Vianney no silêncio do confessionário e na acolhida da partilha de seu ministério.

A experiência do Monte Tabor (transfiguração) deu força aos apóstolos para agüentarem a experiência amarga do Monte Calvário. São Marcos relatou a história para fortalecer a fé vacilante dos membros da sua comunidade, quarenta anos depois do acontecido. O texto os convidou para que renovassem a fé em Jesus e na sua Palavra.

O texto nos convida a mesma atitude, conforme o convite de Deus Pai: “Este é o meu Filho amado. Escutem o que ele diz!” O convite de ontem vale hoje também para nós. Mais do que um convite é uma convocação para a missão e para o engajamento na realidade concreta da missão.

Contemplando hoje a face de Jesus transfigurado e escutando o que ele diz, encontraremos força para passar através dos sofrimentos e dificuldades da vida, até o dia em que poderemos contemplá-Lo na glória do Pai, realização definitiva da Aliança e das Promessas. Que Deus nos ajude e que as palavras finais do saudoso amigo Dom Lucas nos interpele: “Que eu possa sempre ver o rosto sereno e radioso do meu Cristo”. Eu e completo: sempre na realidade da oração e do amor no irmão que vive e convive conosco no cotidiano. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO