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Padre Wagner Augusto Portugal

Leia a liturgia de hoje Leia as outras reflexões

23º Domingo do Tempo Comum. B.

“Vós sois justo, Senhor, e justa é a vossa sentença; tratai o vosso servo segundo a vossa misericórdia”. (Sl 118,137.124).

Meus queridos Irmãos e Minhas queridas Irmãs,

Este domingo a sagrada liturgia nos convida a refletir sobre a fé e as suas etapas em nossa caminhada de salvação. O Evangelho nos relata a cura do surdo-mudo que ocorre em terras pagãs. Assim Marcos quer nos ensinar que os pagãos são chamados à fé e à comunhão com Deus. Curar um surdo e um mudo era um grande milagre, o que demonstrava que Jesus era o Messias.

O povo estava pasmo e elogiava as atitudes de Jesus. Mas, na linguagem moderna, a moral da história do Evangelho de hoje é a seguinte: todos nós somos convidados a abrir os ouvidos para escutar “as palavras de espírito e vida” do Divino Mestre e proclamar estas maravilhas por todas as partes, por todos os povos, vivenciando a beleza da mensagem do Senhor Ressuscitado. Ouvir e proclamar significa, de início, colocar em prática aquilo que queremos anunciar aos nossos irmãos. A fé tem um caminho muito importante: primeiro nós temos que crer.

É crendo que poderemos dar testemunho. Crendo, nós vamos vivenciar o que cremos, ou seja, os Santos Evangelhos transmitidos pelos apóstolos e iluminados pela Tradição da Santa Igreja. A partir do crer, do viver, nós vamos transmitir a fé que recebemos e vivenciamos. Não transmitir apenas com o anúncio, mas, sobretudo, com a vivência, com o testemunho de fé.

Assim, todos somos convidados, a comunicar as maravilhas de Deus diante da comunidade eclesial e dos não crentes. Hoje, como ontem, os que se fazem surdo-mudos na sociedade são bem mais numerosos do que os que nascem deficientes.

Irmãos e Irmãs,

As cidades por onde o Evangelho de hoje nos anuncia são Tiro e Sidônia, consideradas cidades pagãs. Jesus hoje se encontra no meio de pagãos. Jesus estava longe e em lugar de comércio abundante, aonde os judeus e os pagãos dominavam as suas gentes. No meio de um povo incrédulo Jesus curou um surdo. Isso era uma manifestação inequívoca de que Jesus era o Messias.

A primeira Leitura de hoje, retirada de Isaías, escrita há 750 anos antes do tempo de Jesus relembra a cura de surdos e de mudos faz parte do tempo messiânico. E, para reforçar a nota, o povo exclama: “Ele fez tudo bem feito”, vislumbrando a obra messiânica da restauração do paraíso. Lembra a liturgia como Deus “fez tudo bem” desde o início, conforme ensinamentos de Gn 1,31 e seguintes.

O próprio Jesus dá a esses milagres como sinal a João Batista de que era o Messias. Marcos é o único Evangelista a contar a cura do surdo-mudo.

Jesus poderia curar o surdo-mudo em silêncio. Entretanto, sabendo que o surdo-mudo era pagão, não podendo ouvir a palavra de Jesus, era necessário usar gestos visíveis para compreender que estava sendo curado por uma força que vem de Deus. Usando a saliva, como em todos os povos, Jesus usava um sentido terapêutico.

Tocando a saliva com a mão Jesus transmite a graça de Deus. Por isso, a Igreja Santa conservou no ritual do Batismo os gestos de Jesus na cura do surdo-mudo, no momento em que o Batismo abre ao catecúmeno os ouvidos para escutar a palavra de Deus e para que seja solta a língua, para que possa proclamar a bondade paterna de Deus, o Redentor.

Entretanto, seria bom notar que Jesus retirou-se para o lado com o surdo-mudo para que a multidão não o confundisse com os muitos curandeiros de então.

Irmãos e Irmãs,

Jesus contou, nesta e outras curas, com o auxílio do Pai dos Céus, por isso, “eleva os olhos para o céu”, como fizera na multiplicação dos pães para demonstrar que todo o seu poder vinha do Pai que está nos céus e é a origem de todos os bens.

Todos nós, mesmo que batizados, trazemos um pouco de surdo-mudo de hoje, quando não sabemos ligar as realidades terrenas a Deus, Sumo-Bem e fonte de toda a vida.

O curado abriu primeiro os ouvidos para ouvir a Palavra de Deus e depois começou a falar para dar testemunho das maravilhas de Deus. Assim deve ser a nossa vida de fé: ouvir com entusiasmo os mistérios da salvação, colocando-os em prática em nossa vida, para depois dar testemunho do que acreditamos.
 
A grande novidade do Evangelho de hoje que a religião serve para o bem de todos, eliminando exploração e discriminação conforme ensinamento da segunda leitura. Para dar chances a uma ordem melhor, provoca até revoluções, se as estruturas que estão vigendo produzem desigualdades e injustiça. Para a Justiça é a exigência mínima do amor.

Jesus nos ensina a ser bom, a fazer o bem para todos, como Ele fez. Para reconhecer que Jesus é o Messias é preciso que o homem esteja aberto. Ora, nem mesmo os discípulos eram fáceis de abrir. Jesus não apenas “faz as coisas bem feitas”, mas Ele abre também o coração para ver o Reino de Deus, que esta aí, onde se faz a sua vontade e se revela o seu amor. Por isso, Marcos hoje insiste na imposição das mãos, no aplicar a saliva, elevar os olhos, gemer, dizer “effatá”, abre-te. Não é fácil abrir o homem para o mistério de Deus.

 Que todos nós possamos nos abrir a Deus, a Jesus e Evangelizar para que o Deus que nos nutre pela Palavra e pela Eucaristia nos faça sempre co-responsáveis pelos mistérios de Cristo.

Pode existir doença, sofrimento, mas não é a última palavra. Somos chamados a participar com Deus nos aperfeiçoamentos da criação. Por isso o povo saúda a chegada de Messias, exclamando: “tudo ele tem feito bem!”.
 
Que possamos todos repetir com Jesus na nova Evangelização: “tudo estamos fazendo bem, em nome de Jesus, que nos chama a ouvir e anunciar o Seu Reino das Bem Aventuranças. Amém!”

                                 

Padre Wagner Augusto Portugal
VIGÁRIO JUDICIAL DA ARQUIDIOCESE DE JUIZ DE FORA
E PRESIDENTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO INTERDIOCESANO