Sem dizer
uma palavra, apanhou seu capuz e seguiu para a gruta.
Lá encontravam-se mais de 600 pessoas. Foi
rezado o terço e feito alguns exercícios
de penitência, mas "Aquerò"
como ela chamava a Aparição, não
veio.
No dia 27 de fevereiro quando chegou na gruta a
Aparição já estava lá
esperando por ela.
No dia 28 mais de 1.150 pessoas presenciaram diversas
práticas de penitência e a reza do
terço em êxtase. É como dizia:
- "É por penitência, por mim
primeiro, pelos outros depois" .
No dia seguinte, segunda-feira, 1º de março,
a multidão foi calculada em 1.500 pessoas
e viam-se pessoas de todas as classes. Para a curiosidade
geral, desponta entre elas a batina preta do Padre
Dêsirat. Ele não é de Lourdes
e não sabe da proibição imposta
ao clero pelo Abade Peyramale . Sua presença
causa sensação e em poucos momentos
vê-se na primeira fila, com sua miopia compensada
por óculos de grossas lentes, numa posição
bem próxima da vidente. A descrição
que ele faz dos fatos diz tudo:
"0 sorriso ultrapassa toda a expressão
humana. 0 artista mais hábil, o ator mais
consumado, nunca poderá reproduzir-lhe o
encanto e a graça! Impossível imaginar.
0 que mais me tocou foi a alegria e a tristeza que
se lhe desenhavam no rosto. Quando um destes fenômenos
sucedia ao outro, era com a rapidez do relâmpago.
No entanto nada de brusco: uma transição
admirável. Eu tinha observado a criança
quando ela chegou e se dirigia à gruta. Tinha-a
observado com escrupuloso cuidado. Que diferença
entre o que ela era e o que eu vi no momento da
Aparição! Respeito, silêncio,
recolhimento por toda a parte. Ó, como era
bom estar lá! Eu julgava-me no vestíbulo
do Paraíso".
Foi também neste mesmo dia, quando ocorreu
a 12ª Aparição que aconteceu
o primeiro dos sete milagres escolhidos pelo Bispo
e considerado realmente como "Obra de Deus".
Catarina Latapié, proveniente de uma queda
de um carvalho, na qual subira para tirar bolotas
para os porcos, teve o braço deslocado e
dois dedos da mão direita dobrados e paralisados.
0 fato aconteceu em outubro de 1856 e o médico
só conseguiu consertar o seu braço,
mas os dedos não tiveram jeito. E isto a
impedia de fazer o seu trabalho, não a deixava
tricotar e nem fiar, estava sendo a sua ruína.
Apesar de encontrar-se grávida de 9 meses,
saiu a pé de sua casa na noite do dia 28
de fevereiro, para Lourdes, distante 7 quilômetros,
levando os seus dois filhos mais novos. Assiste
a Aparição do dia 1º de março
e fez fervorosas preces suplicando a intercessão
de Nossa Senhora junto a DEUS, pedindo sua cura.
Terminada a aparição, sobe até
o fundo da gruta e mergulha a mão na fonte
que tinha formado e cujas águas deslizavam
mansamente como um pequeno regato, correndo para
o Gave.
Um estremecimento acompanhado de uma grande suavidade
invadiu todo o seu ser. Ela sentiu de repente, voltar
a flexibilidade aos seus dedos. Vibrou de alegria
e chorou de satisfação. Emocionada
iniciou os seus agradecimentos pela graça
alcançada, quando súbitamente sente
uma violenta dor nas entranhas, como prenúncio
do próximo nascimento de mais um filho. Num
gesto ligeiro e contrito, ajoelha-se e com as mãos
postas suplica:
- "Virgem Santa, Vós que acabais
de me curar, deixai-me chegar em casa"!
Levantou-se, pegou nas mãos de seus filhos
e seguiu para sua casa em Loubajac. Assim que chegou,
mal teve tempo de chamar a parteira, deu à
luz um sadio garoto que recebeu o nome de João
Batista e que mais tarde tornou-se sacerdote.
No dia 2 de março, eram mais de 1.650 pessoas
em Massabieille. Com maior dificuldade Bernadete
chegou ao "seu local". A
Aparição disse:
"Vai dizer aos sacerdotes que venham aqui
em procissão e construam uma Capela".
Por essa razão, mais tarde em companhia das
tias Bernarda e Basília, foram encontrar-se
com o Abade Peyramale, para levar-lhe a notícia.
0 Senhor Abade era um homem severo, de caráter
íntegro e muito exigente na observância
do direito e da ordem. Já tinha ouvido os
comentários sobre Bernadete e as Aparições
na gruta, assim como as notícias de curas
e os comentários maldosos do jornal local.
Não se decidira sobre os fatos, mesmo porque
não dispunha de elementos que lhe oferecesse
condições de optar. Intimamente aceitava
com simpatia a possibilidade da Aparição
ser verídica, em face dos muitos comentários
favoráveis. Mas na sua posição,
não podia considerar comentários e
nem indícios, era preciso haver alguma coisa
sólida, que se mostrasse de modo concreto,
para que pudesse apreciar os acontecimentos. E apesar
de possuir um coração bondoso e paternal,
o momento exigia que procedesse com cautela, até
com rudeza, se fosse necessário, para deixar
aparecer a verdade transparente.
- "És tu que vais à gruta"?
- "Sim, Senhor Abade".
- "E dizes que vês a Santíssima
Virgem"?
- "Eu não disse que era a Santíssima
Virgem".
- "Então quem é essa Senhora"?
- "Eu não sei".
- "Ah, tu não sabes! Mentirosa!
E no entanto esses que fazes correr atrás
de ti dizem e o jornal imprime, que tu pretendes
ver a Santíssima Virgem. Então o que
é que tu vês"?
- "Qualquer coisa que parece uma Senhora".
- "Ora essa! Uma Senhora! Uma procissão"!
Aborrecido olha para as duas tias que a acompanha
e lembra-se que elas conceberam antes de se casarem,
e desabafa:
- "Que desgraça ter uma família
destas que faz a desordem na cidade! Desapareçam
daqui imediatamente"!
As três saíram o mais depressa que
puderam e imaginem o tamanho do "apuro"...
Disse Bernadete:
- "Não me apanham mais a vir à
casa do Senhor Abade" !
Mas, logo que caminharam alguns passos, lembrou-se
que não tinha transmitido toda a mensagem
ao Senhor Abade. Esquecera-se de falar da "Capela".
Quis voltar, mas as tias protestaram:
- "Não contes comigo! Tu põe-nos
doentes"!
Depois de muito procurar, conseguiu que Dominiquette
Cazenave a acompanhasse. Marcaram uma entrevista
para às 19 horas. Estavam lá além
do Abade Peyramale os Padres Péne, Serres
e Pomian (o confessor dela). Transmite a segunda
parte do recado:
- "Vai dizer aos sacerdotes para construírem
aqui uma Capela".
- "Uma Capela? Como para a procissão?
Estás certa disso" ?
-"Sim, senhor Abade, estou certa".
- "Ainda não sabes como ela se
chama"?
- "Não , Senhor Abade".
- "Pois bem, é preciso perguntar-lhe".
Depois de responder mais algumas perguntas dos outros
padres, despediu-se, e com sua acompanhante voltou
para casa.
No dia seguinte mais de 3.000 pessoas a aguardavam
na gruta. A multidão rezava ansiosa desde
muito cedo. Mas a Visão não apareceu.
E como nos dias 22 e 26 de fevereiro, regressou
perturbada.
Todavia, neste mesmo dia, mais a tarde, voltou à
gruta e desta vez encontrou-se com a Visão.
Ao regressar à cidade, foi conversar com
Peyramale:
_ "Senhor Abade, a Senhora sempre quer a
Capela ".
- "Perguntaste-lhe o nome"?
_ "Sim, mas ela apenas sorriu".
- "Troça valentemente de ti".
- Faz uma pausa e depois diz: - "Pois
bem, se ela quer a Capela que diga o seu nome e
faça florir a roseira da gruta. E então
nós mandaremos construir uma Capela e não
será muito pequena, será muito grande".
0 dia 4 de março era aguardado com grande
expectativa porque era o último da quinzena
de aparições. A polícia pediu
reforço policial de d'Argelès e de
Saint Pé, cidades vizinhas de Lourdes, para
ajudar na manutenção da ordem, no
sentido de evitar qualquer excesso. A estimativa
era para mais de 8.000 pessoas ao redor da gruta.
Para que Bernadete, pudesse chegar ao local, fizeram
uma passarela de madeira, que lhe facilitou o acesso.
Ela veio acompanhada de sua prima Joana Véderè,
que tinha 30 anos de idade e ficaram juntas perante
a Aparição.
Ajoelharam e começaram a rezar o terço.
Quando iniciavam a terceira Ave Maria da segunda
dezena, entrou em êxtase.
0 comissário Jacomet tirou o seu caderninho
de Notas e escreveu "34" sorrisos
e "24" saudações
em direção a gruta.
A multidão com o olhar acompanhava tudo e
apreciava a beleza do Sinal da Cruz que ela fazia.
Terminada a Aparição, apagou a vela
e, indiferente a presença de toda aquela
gente, tomou o caminho de sua casa.
Muitos ficaram desapontados e perplexos, porque
esperavam algum milagre ou alguma revelação.
Não aconteceu nada, visualmente. No ar ficaram
muitas perguntas e uma grande expectativa: será
que terminaram as Aparições?
Maria Bernarda foi encontrar-se, com o Senhor Abade
e dar-lhe notícias do "encontro".
- "Que te disse a Senhora"?
- "Perguntei-lhe o nome... Ela sorriu. Pedi-lhe
para fazer florir a roseira, ela sorriu outra vez.
Mas ainda quer a Capela".
- "Tu tem dinheiro para fazer essa Capela"?
- "Não, Senhor Abade".
- "Eu também não . Diz
à Senhora que lhe dê".
Peyramale estava desconsolado por não ter
obtido nenhuma informação segura,
sobre a Aparição. Ela também,
mas sem poder fazer nada, voltou triste para casa.
No dia 18 de março é submetida a um
severo interrogatório e declara:
- "Não penso ter curado quem quer
que seja e de resto não fiz nada para isso.
Não sei se voltarei à gruta".
Mas independentemente das aparições
continuarem ou não, a afluência era
cada vez maior. Diariamente muitas pessoas iam lá
para rezar, para recolher água da fonte ou
para bebê-la. Todos acreditavam que quem esteve
lá foi a Santíssima Virgem. As velas
multiplicavam-se: no dia 18 eram 10 ; no dia 19
havia 21 velas; já no dia 23, colocaram no
nicho das aparições, uma imagem de
gesso da Virgem Maria, doada por um senhor, Felix
Maransin.
Do dia 4 de março quando ocorreu a última
aparição, ou seja a 15º, até
o dia 25 do mesmo mês, Bernadete procurava
levar uma vida normal, ao lado de seus familiares
no "cachot", mas era impossível,
porque a todo momento era solicitada para interrogatórios,
por visitantes que faziam filas intermináveis
à porta de sua casa, querendo conversar,
abraça-la e pedir-lhe que tocasse com as
mãos em objetos que levavam. Eram pessoas
que buscavam graças e outras que vinham contar
milagres alcançados pela bondade e o carinho
intercessor de Nossa Senhora.
Não tinha mais sossego. As vezes quase perdia
a paciência:
- "Tragam-me todos ao mesmo tempo".
De outras vezes, cansada, precisando de repouso.
queria isolar-se:
- "Fechem a porta à chave"!
E jamais aceitou e não deixou que nenhum
de seus familiares aceitassem gratificações
em dinheiro ou presentes, por qualquer razão
que fosse:
- "Isso queima-me! Por favor, não
façam isso"!
Quando lhe perguntavam se a Dama voltaria, simplesmente
dizia que não sabia. Só podia afirmar
que ELA queria sempre uma Capela e que os sacerdotes
fossem em procissão à gruta. |