
Na
manhã do dia 25 de Março de 1858,
Bernadete sentiu-se novamente "
pressionada"
para ir à gruta. Era uma força estranha
que nascia em seu interior, que não sabia
explicar. Mas era muito cedo e seus pais lhe aconselharam
esperar o dia clarear. Às 5 horas da manhã
já pôs-se a caminho.
Depois de rezar o terço
em êxtase, levantou-se e caminhou em direção
à Aparição e conversaram:
- "Mademoiselle, quer
ter a bondade de me dizer quem és, se faz
o favor"?
"Aqueró"
sorriu, não respondeu.
Ela insiste na solicitação,
a segunda e a terceira vez, obtendo como respostas
um sorriso carinhoso e modesto da Visão.
Mas Bernadete tinha a necessidade
de saber o nome DELA, precisava levar esta notícia
ao Senhor Abade, porque caso contrário,
ele não construiria a Capela. Por isso,
com mais amor e decisão insistiu uma quarta
vez suplicando que ELA dissesse o seu nome.
Desta vez a Aparição
não sorriu mais, ficou séria. As
mãos que estavam unidas afastaram-se estendendo
sobre a terra e depois novamente juntas à
altura do peito, levantou os olhos ao Céu
em sinal de profunda humildade e obediência
a Deus e disse:
Eu
sou a Imaculada conceição
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Dito isso, Bernadete retornou a si e para não
se esquecer das palavr isto, desapareceu.as, repetiu-as
várias vezes em seguida, tropeçando
nas letras que mal sabia pronunciar. Fugiu das
perguntas de todos e correu para a casa do Senhor
Abade Peyramale. Lá chegando, antes mesmo
de cumprimenta-lo gritou:
- " Que soy era Immaculada Councepciou"
(no seu dialeto patois de Lourdes) "Eu
sou a Imaculada Conceição".
0 Abade ficou perplexo. Não sabia se sorria
ou ocultava o seu júbilo, procurando num
último esforço, certificar-se do
óbvio:
- "Pequena orgulhosa, tu és
a Imaculada Conceição"!
- "Não, não, não
eu".
Peyramale sente que está diante de uma
grande revelação: "A
Virgem é concebida sem pecado".
Apesar de ter sido decretado em 8 de dezembro
de 1854 , o Dógma da Imaculada Conceição
de Maria não era aceito por todos os católicos,
principalmente por alguns teólogos que
defendiam a universalidade da redenção
e do Pecado Original. Isto é, atribuíam
a Nossa Senhora o mesmo privilégio que
teve João Batista, de ter a santificação
antes do nascimento . Mas não aceitavam
a imunidade do Pecado, isto é, não
aceitavam que Maria Santíssima fosse preservada
do Pecado Original, mesmo considerando a sua condição
especial de Mãe do Redentor.
Por este motivo o Abade explodia intimamente de
satisfação e se preocupava em querer
saber toda a verdade. Pela Santíssima Vontade
de DEUS, a partir daquele momento Nossa Senhora
foi colocada num merecido e digno pedestal, deixando
realçar com todo brilho, a sua grandeza
notável e ilimitada. E para jubilo de toda
cristandade ELA própria confirmava que
teve uma Conceição Imaculada. Por
isso Peyramale se debatia:
- "Uma Senhora não pode usar esse
nome! Tu enganaste sabes o que isso quer dizer"?
Maria Bernardete diz que não, abanando
a cabeça.
- "Então como podes dizê-lo,
se não compreendes o que é"?
- "Repeti todo o caminho".
No silêncio que se seguiu, Peyramale ficou
pensativo com um suave sorriso nos lábios.
Bernadete interrompe o silêncio e diz:
- "ELA sempre quer a Capela"...
0 Abade no íntimo deve ter respondido que
não só uma Capela, mas uma monumental
Basílica. A partir daquele momento a DAMA
estava dispensada de fazer qualquer milagre, inclusive
de fazer florir a roseira selvagem da gruta. Era
ELA, a MÃE DE DEUS e Nossa Querida Mãe
que veio visitar-nos, com o objetivo de revelar-nos
um grande mistério divino e pedir penitência
ao mundo, para que todos rezassem pela conversão
dos pecadores e tivessem uma conduta responsável
e digna. Peyramale estava emocionado. Tentava
esconder sua alegria e por isso, para salvar as
aparências, falou com ela:
- "Vai para casa, falaremos outro dia".
Os dias passaram e o clero com muita alegria e
vibração comemorou a revelação
do grande mistério.
Dia 6 de abril Bernadete, sentiu-se novamente
"pressionada" para voltar
à gruta. Aquela força estranha e
agradável a impulsionava para Massabieille.
Como já havia passado das 15 horas, foi
encontrar-se com o Padre Pomian no confessionário.
Algumas pessoas que a observava, se incumbiram
de espalhar os boatos. A cidade ficou na expectativa
de algum acontecimento.
No dia seguinte, quarta-feira da Páscoa,
antes do sol nascer já encontrava-se na
gruta, acompanhada inicialmente por uma centena
de pessoas que logo aumentou para 1.000, quando
iniciou a reza do terço.
Nas primeiras AVE MARIA da primeira dezena, entrou
em êxtase. 0 Doutor Dozous, que vinha estudando
o seu caso, surge no meio da multidão pedindo
passagem, pois queria estar ao lado dela, para
presenciar suas reações fisionômicas.
E abrindo passagem entre o povo que contritamente
rezava dizia:
- "Não venho como inimigo, mas
em nome da ciência. Corri e não posso
me expor às correntes de ar. Só
eu posso verificar o fato religioso que aqui se
dá, deixem-me prosseguir este estudo".
Neste dia, ela utilizava uma grande vela que se
apoiava no chão. Foi fornecida por uma
pessoa que tinha alcançado uma graça.
Com sua mão tentava proteger a chama da
vela, da corrente de ar. Mas no transe em que
se encontrava, não posicionou corretamente
a mão esquerda em forma de concha sobre
o pavio aceso, de modo que a chama da vela passava
por entre os seus dedos.
- "Mas ela queima-se"
- gritaram da multidão.
- "Deixe estar" - pediu Dozous.
Ele não acreditava naquilo que seus olhos
viam, os sorrisos de Bernadete, os Sinais da Cruz,
feitos com tanta graça, sua fisionomia
séria em vários momentos compartilhando
duma tristeza da Visão e a chama da vela
que passava por entre seus dedos, sem queimá-los,
sem provocar dores.
Terminado o êxtase, examinou as mãos
da Bernadete e não encontrou o menor sinal
de queimadura. Para testar a sua sensibilidade,
acendeu a vela e sem que ela percebesse, aproximou
a chama de sua mão. Ela gritou e protestou:
"Está querendo me queimar"? Dozous, homem de atitudes extremas, viu crescer
repentinamente em seu coração uma
fé gigantesca. Da mesma forma que seu caráter
explosivo o levava muitas vezes a defender suas
convicções abertamente e com decisão,
espalhou a novidade com disposição,
convencido de que esteve diante do sobrenatural
na gruta de Massabieille.
No "Café Francês"
que era o ponto de convergência para os
"bate-papos" também
para os "mexiricos", Dozous
proclamou com segurança e fartos argumentos,
a existência do extraordinário em
Lourdes. Em dado momento, ele assim se expressou:
- "É um fato sobrenatural para
mim, ver Bernadete ajoelhada diante da gruta,
em êxtase, segurando uma vela acesa e cobrindo
a chama com a mão esquerda, sem que pareça
sentir a mínima impressão do contato
com o fogo. Examinei-a. Não encontrei nem
o mais ligeiro sinal de queimadura" .
Mas continuava a existir também os descrentes,
aqueles que não aceitavam os fatos e caçoavam
dos freqüentadores da gruta. Eles atuaram
sobre os administradores pedindo providências
contra "aquilo" que chamavam
de "palhaçada".
0 Prefeito resolveu proibir o acesso a gruta.
Mandou retirar todos os objetos religiosos que
tinham sido colocados lá.
Os
pais e amigos de Bernadete, para evitar
complicações, a enviaram
para Cauterets, a titulo de tratar de
sua asma. Contudo a sua ausência
em nada influiu no fervor das almas piedosas,
que se manifestavam claramente e todos
os dias. Eram organizadas procissões,
cânticos e orações
com a maior participação
possível. Por outro lado, alguns
procuravam dotar a gruta de certo conforto,
colocando na fonte de água um bacia
com três torneiras, para facilitar
a utilização. Pedreiros,
carpinteiros e funileiros trabalhavam
gratuitamente e com desprendimento, melhorando
o acesso, colocando uma tábua furada
para receber as velas, empregando os seus
esforços com o objetivo de tornar
a gruta um recanto aprazível de
devoção mariana.
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As autoridades vendo que não conseguiam
nem acabar e nem diminuir a freqüência
das visitas à gruta, decidem fechá-la.
No dia 15 de junho o Prefeito mandou fazer uma
barreira constituída por uma paliçada
de madeira, que isolava a área da gruta.
O povo, no dia 17, destruiu a paliçada.
As barreiras são reconstruídas no
dia 18 e são demolidas pelo povo na noite
do dia 27. Tornam a serem reconstruídas
no dia 28 de junho, para novamente serem demolidas
na noite do dia 4 de julho.
No dia 8 de Julho a Igreja intervêm oficialmente,
pela primeira vez, pedindo tranqüilidade
ao povo e respeito às autoridades.
No dia 10 foram levantadas as barricadas novamente.
Bernadete mantinha-se distante e indiferente a
toda esta movimentação. Nas oportunidades
que surgiam, recomendava obediência e desaconselhava
que arrebentassem a paliçada na gruta.
No dia 16 de julho, festa do Monte Carmelo, ela
sentiu-se novamente "atraída"
e "pressionada" para ir
à gruta, como das vezes anteriores. Esperou
pelo entardecer e lá chegou por um caminho
que ninguém suspeitou. Foi em companhia
de sua tia Lucilia, camuflada com um capuz emprestado.
Junto à cerca de tábuas que isolava
a gruta, encontrava-se um grupo de pessoas, que
de joelhos e silenciosamente rezavam. Ela ajoelhou
e acendeu sua vela. Duas congregadas marianas
que a reconheceram, juntaram-se a ela e à
sua tia, em silêncio,
Apenas começara o terço, as suas
mãos afastaram-se comovidas, numa saudação
de alegria e surpresa. Nossa Senhora estava lá.
A sua face iluminou-se e suas feições
adquiriram uma indescritível formosura.
Terminada a reza do terço, pelo seu rosto
podia-se ver estampada a felicidade que brotava
de seu íntimo, a alegria de mais uma vez
ter-se encontrado com a MÃE de DEUS. Ela
não comentou nada. No caminho de regresso,
apenas disse:
- "Eu não via as tábuas
nem o Gave. Parecia-me que estava na gruta, sem
maior distancia que das outras vezes. Não
via senão a Santíssima Virgem Maria".
E neste mundo, foi a última vez. Aconteceu
como se fosse uma visita de despedida, Nossa Senhora
sempre bondosa, cheia de carinho e atenção,
desceu à terra mais esta vez, para o derradeiro
adeus à sua amiga.