Maria sempre virgem
Frei Clarêncio Neotti, O.F.M.
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O segundo, na ordem histórica, dos quatro dogmas marianos
é o da virgindade de Maria, antes, durante e depois do
parto de Jesus. O dogma foi proclamado em 649, pelo Concílio
Ecumênico do Latrão. Uma declaração
dogmática, na Igreja, é necessariamente antecedida
por séculos de estudos, debates, aprofundamentos e, muitas
vezes, superação de doutrinas heréticas.
A partir de 649, não houve mais nem no Oriente nem no
Ocidente vozes discordantes. A Liturgia cristã, que é
a teologia feita oração, a literatura e as artes
em todas as épocas enalteceram a virgindade perpétua
de Maria, por ser Maria a Mãe de Deus. Convém
acentuar sempre de novo que é em sua maternidade divina
que radicam sua virgindade e todos os outros privilégios
marianos.
A antífona mariana que a Igreja reza há séculos
no final da oração da noite, que começa
com as palavras "Alma Redemptoris Mater" (Mãe
santíssima do Redentor), canta ternamente a virgindade
de Maria: "Tu, que acolheste a palavra de Gabriel e, diante
de uma natureza extasiada, geraste teu próprio Criador
e permaneceste virgem antes e depois do parto, tem piedade de
nós pecadores". Para não citar dezenas de
belíssimos poemas a Maria sempre virgem, cito apenas
uma parte de um do bispo Sofrônio, do VII século:
"Salve, ó Mãe de Deus, não desposada!
Salve, ó virgem integérrima depois do parto! Salve
admirável espetáculo maior que todos os prodígios!
Quem pode descrever teu esplendor? Quem pode cantar o teu mistério?"
Ao declarar a virgindade de Maria, a Igreja afirma que ela
concebeu sem a concorrência do sêmen masculino.
Para quem crê, os Evangelhos são suficientemente
elucidativos. Lembremos o texto de Lucas: "O anjo Gabriel
foi enviado da parte de Deus ... a uma virgem, prometida em
casamento a um homem chamado José, da casa de Davi, e
o nome da virgem era Maria" (Lc 1,26-27). Em duas linhas,
o Evangelista afirma duas vezes a virgindade da escolhida para
ser a Mãe de Jesus. Quando a jovem Maria lhe pergunta
como isso seria possível, porque ela não conhecia
homem (a expressão 'conhecer', em hebraico significa
ter relações conjugais), o anjo lhe responde:
"O Espírito Santo virá sobre ti e o poder
do Altíssimo te cobrirá com sua sombra" (Lc
1,35). O Evangelista Mateus é linearmente claro: "Maria
estava prometida em casamento a José. Mas antes de morarem
juntos, ficou grávida do Espírito Santo"
(Mt 1,18).
Os exegetas se aprofundam na explicação dessas
palavras dos Evangelistas e levantam várias hipóteses.
Há quem fale em voto de virgindade de Maria, contrariando
toda a cultura hebraica e a mentalidade do Antigo Testamento
em que ela fora educada. Há quem pense que a virgindade
perpétua decorra natural e indiscutível a partir
do momento em que ela é possuída pelo Espírito
Santo, tornando-se um inaudito milagre vivo, contendo dentro
de si o Filho de Deus, seguramente acima de barreiras ou limites
biológicos. E há os que pensam numa Maria prática,
consciente e piedosa que, a partir da concepção
milagrosa, combina com José, já então ciente
do mistério (Mt 1,20-21), uma vida matrimonial virginal.
Se Moisés descalçou as sandálias diante
da misteriosa sarça que ardia sem se queimar (Ex 3,5),
por que José, "homem justo" (Mt 1,19), e Maria,
"cheia de graça" (Lc 1,28), não poderiam
renunciar a um relacionamento conjugal diante de um Deus que
descera dos céus e "armara sua tenda" (Jo 1,14)
na mais íntima intimidade da vida dos dois? Fica sempre
verdadeira a palavra do anjo, dita no contexto da Anunciação:
"Para Deus nada é impossível" (Lc 1,38).
A doutrina da virgindade de Maria, antes, durante e depois
do parto, está inseparavelmente unida à maternidade
divina de Maria, à ação do Espírito
Santo em Maria, ou seja, à encarnação do
Filho de Deus. Pela lógica e ciência humanas ninguém
ousaria afirmar sua virgindade no parto e depois do parto. Mas
também pela razão humana ninguém conseguiria
afirmar o mistério da encarnação de Deus.
A Igreja não precisou das provas sensíveis a que
recorreram os Apócrifos, ainda que revestidas de piedade
e encanto. A preocupação dos Apócrifos,
no entanto, em comprovar a virgindade no parto e depois do parto
de Maria, mostra uma linha lógica de necessidade: não
se trata de um parto de uma criança apenas, trata-se
do parto de uma criança que, sendo inteiramente humana,
é inteiramente divina. E se esse fato ultrapassa a ciência
e a inteligência, constituindo um mistério inefável,
isto é, que não pode ser expresso por conceitos
humanos, com ele ultrapassa também o fato da virgindade
integral de Maria.
O dogma da virgindade de Maria quer ainda afirmar, sem deixar
nenhuma sombra de dúvida, que Jesus, concebido do Espírito
Santo e nascido da Virgem Maria, é o filho primogênito
e único de Maria de Nazaré, ou seja: Jesus Cristo,
o Messias, não teve irmãos ou irmãs carnais
nascidos do ventre de sua mãe Maria. Tiago Menor, por
exemplo, é chamado de "irmão do Senhor"
(Gl 1,19) e outras vezes se fala nos irmãos de Jesus
presentes entre seus ouvintes (Mt 12,46; Mc 3,31-35; Lc 8,19).
Mas todos sabem que em hebraico o termo "irmão"
pode indicar qualquer parentesco, como sobrinho (Gn 12,5 e 13,8;
29,12.15), tio, primo (1Cr 23,22) e até amigo (Gn 29,4).
Isso nunca foi problema teológico para a Igreja.
O dogma da virgindade de Maria, sempre ligado à maternidade
divina, foi-se preparando e firmando nos primeiros séculos,
nas pregações, escritos e doutrina dos santos
padres, na liturgia e na piedade popular, até que, em
outubro de 649, o Concílio do Latrão chegou a
esta definição de fé: "Seja condenado
quem não professar, de acordo com os santos Padres, que
Maria, mãe de Deus em sentido próprio e verdadeiro,
permaneceu sempre santa, virgem e imaculada quando, em sentido
próprio e verdadeiro, concebeu do Espírito Santo,
sem o concurso do sêmen de homem, e deu à luz Aquele
que é gerado por Deus Pai antes de todos os séculos,
o Verbo de Deus, permanecendo inviolada a sua virgindade também
depois do parto". Por 'santos Padres', entendemos os Bispos
participantes do Concílio, que assinaram o documento
dogmático.
Lembremos que a virgindade de Maria vai muito além de
um dado biológico e físico. João Paulo
II, na encíclica Redemptoris Mater, em poucas linhas
abre um leque extenso: "O fato fundamental de ser a Mãe
do Filho de Deus constituiu desde o princípio uma abertura
total a sua missão. As palavras 'Eis a serva do Senhor'
testemunham esta abertura de espírito em Maria, que une
em si, de maneira perfeita, o amor próprio da virgindade
e o amor característico da maternidade, conjuntos e como
que fundidos num só amor" (n. 39).
O comportamento e a vida virginal de Maria inspiraram uma nova
forma de servir a Deus, praticamente desconhecida no Antigo
Testamento: o celibato consagrado, que é uma decisão
pessoal, livre, consciente, espontânea de dedicar a vida
inteira e sem reservas a serviço da missão de
Cristo sobre a terra, ou seja, a serviço da construção
do Reino de Deus. Pelo seu sim, Maria consagrou-se inteiramente
à missão que Deus lhe propunha. Obedeceu humildemente.
Acolheu o plano de Deus e a ele doou-se sem reservas. Vazia
de pretensões pessoais e pobre de si, deixou-se envolver
pela riqueza de Deus. Maria tornou-se "exemplo sublime
de perfeita consagração, pela sua pertença
plena e dedicação total a Deus" (Vida Consagrada,
28).
O religioso, a religiosa não têm outra finalidade
senão repetir o gesto de Maria e centrar, sem reservas,
sua vida em Cristo, modelo, razão e meta da vida consagrada
e ser, no tempo e no espaço, um Evangelho vivo aberto,
acessível ao povo, que não procura apenas palavras,
ainda que sagradas, mas o testemunho de uma vida totalmente
consagrada às coisas de Deus, exatamente como o foi a
Virgem Maria.
Na encíclica Redemptoris Mater (1987), João Paulo
II descreve a consagração virginal de Maria, que
passou a ser o modelo de vida consagrada: "Maria consente
na escolha divina para se tornar, por obra do Espírito
Santo, a Mãe do Filho de Deus. Pode-se dizer que este
consentimento que ela dá à maternidade é
fruto da doação total a Deus na virgindade. Maria
aceitou a eleição para ser mãe do Filho
de Deus, guiada pelo amor esponsal, o amor que consagra totalmente
a Deus uma pessoa humana. Em virtude desse amor, Maria desejava
estar sempre e em tudo 'doada a Deus', vivendo na virgindade.
As palavras 'Eis a serva do Senhor' comprovam o fato de ela
desde o princípio ter aceitado e entendido a própria
maternidade como dom total de si, da sua pessoa, a serviço
dos desígnios salvíficos do Altíssimo.
E toda a participação materna na vida de Jesus
Cristo, seu Filho, ela viveu-a até o fim de um modo correspondente
à sua vocação para a virgindade" (n.
39)