Maria, Mãe das Dores
Frei Clarêncio Neotti, O.F.M.
www.franciscanos.org.br
Santíssimo, Jesus atravessou um grande mar de sofrimentos
de toda espécie. Portanto, o sofrimento não pode
ser conseqüência de pecado pessoal. Se o fosse, que
sentido teria o convite expresso por Jesus aos discípulos
de tomar diariamente a cruz, ou seja, todas as circunstâncias
humanas, incluídos o sofrimento e a adversidade, e segui-lo
(Lc 14,27)? Conservo comigo uma frase pronunciada em dia de
retiro mensal pelo meu Confrade Frei Ademar Spindeldreier, em
maio de 1975, um mês e meio antes de morrer num acidente
rodoviário. A frase ganha valor, porque Frei Ademar se
tornara, por seu permanente estado de saúde, um verdadeiro
mestre na espiritualidade do sofrimento: "Só quem
não ama a Deus pode dizer que o sofrimento é crueldade".
Maria de Nazaré, imaculada e santíssima, jamais
tocada pela sombra do pecado, mergulhou no oceano do sofrimento
a ponto de ser identificada como a Mãe das Dores. As
raízes de seu sofrimento não estão plantadas
na lama do pecado, mas na paixão de seu Filho divino.
Seu sim na Anunciação encontra a plenitude de
sua sinceridade e de sua grandeza aos pés da Cruz, quando
o sofrimento humano da mãe alcança a amplitude
do sofrimento do Filho divino e o martírio do Filho plenifica
todas as medidas redentoras.
O quadro do Calvário (uma das cenas que mais provocaram
místicos, santos, artistas e teólogos) ensina
que o sofrimento tem forças e alcances impensáveis.
Normalmente, o sofrimento é tido como tolhedor da atividade,
limitativo de movimentos. No entanto, nenhum canto da terra
ficou sem experimentar a força dinâmica e redentora
do Crucificado. Não é, portanto, repetimos, como
castigo de pecados cometidos que a Imaculada é a Mãe
das Dores. Como também não é por seus méritos
pessoais que se tornou Mãe de Deus. Sua conceição
imaculada, sua maternidade, seu estado de "cheia de graça"
(Lc 1,28), como também suas lágrimas de dor, estão
inseparavelmente unidas e dependentes de seu Filho Jesus, Filho
de Deus nela concebido por obra e graça do Espírito
Santo (Mt 1,18). O sim da Anunciação implicou
não só sua maternidade milagrosa, mas também
as trevas do Calvário. Se Paulo afirma completar em seu
corpo as tribulações de Cristo (Cl 1,24), o que
não deveria acontecer com Maria, a mãe do Crucificado?
Quando se fala em Nossa Senhora das Dores, a imagem clássica
que nos vem à mente é a da mulher com uma espada
atravessada no coração. Às vezes, sete
espadas. Quando se fala em Nossa Senhora da Piedade, outro título
da Mãe das Dores, a figura clássica é a
da Mãe com o Filho chagado e morto nos braços.
Como não lembrar, nesse caso, a famosa Pietà,
de alvíssimo mármore, esculpida por Miguelângelo,
venerada e admirada na primeira capela lateral à direita
de quem entra na Basílica de São Pedro, em Roma?
Lembramos esta, mas são tantíssimas as esculturas,
pinturas e poemas em todos os tempos e em todas as culturas.
O mistério do sofrimento não exclui nenhum segmento
social. Por mais que tenha se desenvolvido a ciência e
por mais que ela tenha encontrado antídotos para a dor,
o mistério do sofrimento continuará a ocupar por
extenso todas as direções da história humana.
Lembrou o Concílio Vaticano II: "Todas as conquistas
da técnica, ainda que utilíssimas, não
conseguem acalmar a angústia da criatura humana"
(Gaudium et Spes, 18). As dores de Maria são parte integrante
da História da Salvação, como os sofrimentos
das criaturas são inseparáveis da história
humana na terra.
No momento em que Maria levou o Filho ao templo para consagrá-lo,
segundo a Lei de Moisés, o velho Simeão, tomando
o Menino em seus braços, o proclamou "luz das nações"
e "salvação dos povos" (Lc 2,30-32),
profecia que vinha perfeitamente ao encontro das palavras do
Arcanjo a Maria, que mandara dar ao Menino o nome de Jesus,
que significa "Deus é salvação"
(Lc 1,31-33). Acrescenta, porém, Simeão: "Ele
será um sinal de contradição ... e tu,
Maria, terás a alma traspassada por uma espada"
(Lc 2,34-35).
Comenta o Papa João Paulo II: "As palavras de Simeão
colocam sob uma luz nova o anúncio que Maria tinha ouvido
do Anjo. O Filho de Maria e com ele a sua Mãe, experimentarão
em si mesmos a verdade daquela palavra de Simeão: sinal
de contradição. Aquilo que Simeão diz apresenta-se
como uma segunda Anunciação a Maria, uma vez que
indica a dimensão histórica concreta em que o
Filho realizará a sua missão, ou seja, na incompreensão
e na dor. Se este outro anúncio confirma a sua fé
no cumprimento das promessas divinas da salvação,
também lhe revela que ela terá que viver a sua
obediência de fé no sofrimento, ao lado do Salvador
que sofre, e que a sua maternidade será obscura e marcada
pela dor" (Redemptoris Mater, 16).
A devoção popular considera a profecia de Simeão
como a primeira das sete grandes dores de Maria. Na verdade,
nela se encerram todas, como seu sim na Anunciação
aceitava todos os passos da missão de Jesus. Maria não
demorou em perceber que a profecia de Simeão era o reverso
da linda e esperançosa medalha da Anunciação.
Com o filho ainda no colo, teve de refugiar-se no Egito, fazendo
o percurso de 250 km de deserto inóspito, na companhia
de algum caravaneiro mascate. Os artistas suavizam muito a travessia,
fazendo Maria montar uma serena mula puxada pela obediência
de José. Quadro nenhum poderá exprimir o que ia
pelo coração da jovem mãe, carregada ao
mesmo tempo de privilégios e angústias. Outros
caravaneiros lhe terão levado a notícia da chacina
de Belém. Como não unir a matança dos meninos
de Belém com aquela executada pelo Faraó e da
qual astutamente fora salvo Moisés? Como não se
lembrar, se estava procurando refúgio na terra dos Faraós?
Como não se lembrar das duas carnificinas, ambas de crianças
masculinas inocentes, se o Menino que levava nos braços
tinha uma missão muito parecida com a de Moisés,
o grande profeta dos Dez Mandamentos e da libertação
do povo da escravidão? O deserto era o mesmo. A mão
de Deus era a mesma. Lá no deserto, encontravam-se a
espera/esperança do Antigo Testamento, na recordação
de Moisés, com a certeza/esperança do Novo Testamento
na pessoa de Jesus Salvador. E Maria, por sua maternidade, se
posta entre a antiga e a nova Aliança, como o elo essencial,
único e insubstituível.
Há uma necessidade, que corre todo o Antigo Testamento
e o Novo: a procura de Deus. Podemos dizer que Deus é
alguém que quer ser procurado, ainda que seja ele mesmo
a dar a graça do encontro. Nem Maria, santíssima
e imaculada, escapou da procura, que traz sempre consigo a marca
da angústia. O Evangelista a faz procurar Jesus que "se
perdera" no templo (Lc 2,41-50): "Teu pai e eu aflitos
te procurávamos!" (Lc 2,48). Pelos caminhos do templo,
Maria ainda tinha José a seu lado. Não sei em
que momento foi maior a dor de Maria: se ao procurar Jesus pelas
repartições públicas (casa de Caifás,
pretório de Pilatos, corte de Herodes, pátio da
flagelação), se na estrada do Calvário,
flagelado, coroado de espinhos, carregando a cruz. Apoiada em
João, não terá Maria perguntado: "Onde
estão os Apóstolos"?
A piedade popular separa a dor de Maria ao presenciar impotente
a crucificação, ao tê-lo morto nos braços
e ao vê-lo deposto na sepultura. Na verdade, a dor é
uma só, imensa, em total consonância com o sofrimento
do Filho crucificado. Na Anunciação, oferecera-se,
dizendo sim à vontade de Deus. No templo, consagrara
o Filho a Deus. No deserto o protegera. No Calvário,
repete consciente seu sim, unindo o ofertório de si mesma
ao ofertório salvador do Filho, na força e na
graça do mesmo Espírito Santo da Anunciação.
No martírio do Filho está a razão e o sentido
do martírio da Mãe. Um vergonhoso martírio
humano, que se transforma em fecundo e glorioso parto: da Cruz,
passando por Maria, nasce o Corpo Místico de Cristo,
que é a Igreja (Cl 1,17). Ó feliz martírio,
que abriu para sempre as portas da eternidade e o coração
do Pai celeste!
Conta uma velhíssima tradição que Adão
estava sepultado no Calvário que, por isso mesmo, levava
esse nome, que significa "caveira". Os pintores costumam
desenhar a caveira aos pés da cruz. Não importa
a lenda. O que importa é que a árvore da vida
do Paraíso terrestre perdido (Gn 2,9) chama-se agora
"Cruz" e o que a virgem Eva perdeu com seu orgulho
e sua incredulidade, a virgem Maria recuperou com sua humildade
e sua fé. Da árvore da vida do paraíso,
enroscada pela serpente, nasceram o desequilíbrio e a
desgraça. Da árvore da vida do Calvário,
da qual pendeu o corpo do Filho de Maria, nasceram a comunhão
com Deus e a graça.
Ao contemplar a Mãe dolorosa, nosso coração
deve ir além do sentimento de compaixão, porque
de seu sacrifício doloroso, nascemos para a plenitude
da vida, merecida pela Cruz de Cristo. Com a Mãe das
Dores aprendemos que a salvação é fruto
do sofrimento.