Elevada ao céu em corpo
e alma
Frei Clarêncio Neotti, O.F.M.
www.franciscanos.org.br
O último, no sentido de mais recente, dos quatro dogmas
marianos é o da assunção em corpo e alma
ao céu de Maria, proclamado pelo Papa Pio XII, no dia
1º de novembro de 1950, festa de Todos os Santos. Esta
verdade de fé só tem sentido considerada como
conseqüência lógica da maternidade divina
de Maria. Maria é uma criatura de Deus Criador, por isso
mesmo teve um início e um final de vida na terra. No
início, temos sua conceição imaculada,
em previsão de sua maternidade divina. No final, temos
sua assunção gloriosa, como coroamento de uma
vida humana vivida sem pecado, "cheia de graça"
(Lc 1,28), íntegra no corpo e na alma, inteiramente consagrada
à missão para a qual Deus a escolhera.
Na curta fórmula usada pelo Papa Pio XII para proclamar
o dogma da assunção de Maria, que vem dentro da
constituição apostólica "Munificentissimus
Deus", são explicitamente citados os outros dogmas
marianos: a conceição imaculada, a maternidade
divina e a virgindade perpétua. A solene fórmula
é esta: "Pronunciamos, declaramos e definimos ser
dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus
sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi
assunta em corpo e alma à glória celestial".
No texto da constituição, o Papa acentua "a
maravilhosa harmonia existente entre os privilégios concedidos
por Deus àquela que o mesmo Deus quis associar ao nosso
Redentor".
Não vamos aqui discutir exegeticamente o sentido dos
termos usados pelo Papa para a declaração do dogma.
Já foram escritas centenas e centenas de páginas
sobre isso. Apenas digamos que as palavras do Papa evitam falar
sobre a morte ou não morte corpórea de Maria;
evitam falar sobre o que seja o corpo humano e qual sua condição
ao ser elevado ao céu; evitam falar do relacionamento
entre corpo e alma; evitam usar algum verbo que sugira que o
céu seja algum lugar determinado, "nas alturas",
por exemplo. Evidentemente os belíssimos quadros de Murillo
e de outros pintores marianos, que fixaram em telas a assunção,
sugerem ter sido Maria "levada pelos anjos" ao "mais
alto" céu. O dogma não entrou nesse linguajar
humano, muito compreensível, por sinal, porque sempre
se imaginou Deus nas alturas e o diabo nos abismos.
O Papa Pio XII, na mesma constituição, faz, logo
no início, uma longa referência ao nexo entre Maria
assunta e Maria imaculada. Cito o belíssimo e fundamental
texto, que espantou alguns grandes teólogos: "O
privilégio da assunção brilhou com novo
fulgor, quando o nosso predecessor Pio IX, de imortal memória,
definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição.
De fato, estes dois dogmas estão estreitamente conexos
entre si. Cristo com a própria morte venceu a morte e
o pecado, e todo aquele que pelo batismo de novo é gerado,
sobrenaturalmente, pela graça, vence também o
pecado e a morte. Deus, porém, por lei ordinária,
só concederá aos justos o pleno efeito desta vitória
sobre a morte, quando chegar o fim dos tempos. Por esse motivo,
os corpos dos justos corrompem-se depois da morte, e só
no último dia se juntarão com a própria
alma gloriosa. Mas Deus quis excetuar desta lei geral a Bem-aventurada
Virgem Maria. Por um privilégio inteiramente singular,
ela venceu o pecado com a sua conceição imaculada;
e por
esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer
na corrupção do sepulcro nem teve de esperar a
redenção do corpo até o fim dos tempos.
Quando se definiu solenemente que a Virgem Maria, Mãe
de Deus, foi imune desde a conceição de toda a
mancha, logo os corações dos fiéis conceberam
uma mais nova esperança de que em breve o Supremo Magistério
da Igreja definiria também o dogma da Assunção
corpórea da Virgem ao céu".
Se o dogma da Assunção é recente, a devoção
a Nossa Senhora Assunta faz parte da piedade popular desde os
primeiros séculos da Igreja. Nos primeiros séculos
celebrava-se a "dormição" de Maria,
cercada de muitas lendas, algumas até com evidentes heresias.
Mas nenhuma dessas celebrações separava Maria
de seu Filho glorioso. A celebração chamava-se
também "Trânsito de Maria" e já
então divergiam as opiniões sobre a morte ou não
morte da Mãe de Jesus. Essas celebrações
eram cercadas de muito carinho, sobretudo numa fértil
e impressionante imaginação sobre os modos como
Jesus teria vindo buscar sua Mãe e quem vinha em companhia
dele para levar Maria aos céus.
Já no século V temos documentos da festa da Assunção
no dia 15 de agosto e a festa vem enumerada junto com as festas
da Natividade, da Apresentação, da Anunciação
e da Purificação de Maria. E era por ocasião
destas festas que os Santos Padres pronunciavam suas homilias
marianas, fixando assim, através dos séculos,
uma doutrina teológica que, seguramente, foi sustentada,
alimentada e celebrada pela piedade popular. O Papa Pio XII,
na Constituição Apostólica para a declaração
do dogma, lembra que "nas homilias e orações
para o povo na festa da Assunção da Mãe
de Deus, os santos Padres e os grandes doutores falavam de uma
festa já conhecida e aceita. Com a maior clareza a expuseram;
apresentaram seus sentido e conteúdo com profundas razões,
colocando especialmente em plena luz o que a festa tem em vista:
não apenas que o corpo morto da Santa Virgem Maria não
sofrera corrupção, mas ainda o triunfo que ela
alcançou sobre a morte e a sua celeste glorificação,
a exemplo de seu Unigênito Jesus Cristo".
Um desses Santos Padres, sempre citado e citado pelo próprio
Papa Pio XII, é São João Damasceno (650-750).
É dele este texto: "Convinha que aquela que guardara
ilesa a virgindade no parto, conservasse seu corpo, mesmo depois
da morte, imune de toda a corrupção. Convinha
que aquela que trouxera no seio o Criador fosse morar nos tabernáculos
divinos. Convinha que a esposa, desposada pelo Pai, habitasse
na câmara nupcial dos céus. Convinha que, tendo
demorado o olhar em seu Filho na cruz e recebido no peito a
espada da dor, ausente no parto, o contemplasse assentado junto
do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse tudo
o que pertence ao Filho e fosse venerada por toda a criatura
como mãe e serva de Deus".
O Santo Padre cita vários outros grandes autores antigos
e conclui: "Por conseguinte, desde toda a eternidade unida
misteriosamente a Jesus Cristo, pelo mesmo desígnio de
predestinação, a augusta Mãe de Deus, imaculada
na concepção, virgem inteiramente intacta na divina
maternidade, generosa companheira do divino Redentor, que obteve
pleno triunfo sobre o pecado e suas conseqüências,
ela alcançou ser guardada imune da corrupção
do sepulcro, como suprema coroa dos seus privilégios.
Semelhantemente a seu Filho, uma vez vencida a morte, foi levada
em corpo e alma à glória celeste, onde, rainha,
refulge à direita do seu Filho, o imortal rei dos séculos".
São Francisco de Assis tinha especial devoção
à Imaculada Conceição, tanto que mandou
fazer um altar especial para ela. Mas a devoção
predileta do primeiro teólogo da Ordem Franciscana, Santo
Antônio (+1231), era Nossa Senhora Assunta, Nossa Senhora
da Glória. Morreu cantando a antífona das Laudes
da Virgem: "Ó gloriosa e excelsa Senhora, bem mais
que o sol brilhais". Entre seus esquemas de sermões,
há um inteiro dedicado à Assunção
de Maria. Parte do texto do Eclesiástico: "Como
um vaso de ouro maciço, ornado de toda espécie
de pedras preciosas, como a oliveira carregada de frutos e como
o cipreste que se eleva até as nuvens" (Eclo 50,10-11).
Cito a passagem, onde fala de Maria como o trono do Altíssimo:
"O lugar dos pés do Senhor foi Maria Santíssima,
da qual recebeu a humanidade. Este lugar glorificou-o no dia
de hoje, porque a exaltou acima dos coros dos anjos. Por isso
se percebe claramente que a Virgem Santíssima foi assunta
com aquele corpo que foi o lugar dos pés do Senhor. Donde
a palavra do Salmo:
"Sobe, Senhor, para o lugar do teu repouso, tu e a arca
da tua santificação" (Sl 132,8). O Senhor
subiu, quando se assentou à direita do Pai. Subiu também
a arca da sua santificação, quando no dia de hoje
a Virgem Mãe chegou ao tálamo celestial".
Santo Antônio termina o esquema, lembrando que, aquela
que fora na terra o trono do Senhor, hoje é posta num
trono de luz eterna.
Logo depois de proclamar o dogma da Assunção
em corpo e alma ao céu, o Papa Pio XII rezou uma oração
composta por ele. Destaco apenas dois tópicos, para encerrar
a nossa reflexão: Ó Virgem Imaculada, Mãe
de Deus e Mãe dos homens, cremos, com todo o fervor de
nossa fé, em vossa assunção triunfal em
corpo e alma ao céu, onde sois aclamada Rainha por todos
os coros dos anjos e todas as legiões dos santos, e a
eles nos unimos para louvar e bendizer o Senhor, que vos exaltou
sobre todas as demais criaturas, e para vos oferecer as expansões
da nossa devoção e do nosso amor. Cremos que,
na glória, onde reinais, revestida do sol e coroada de
estrelas, sois, depois de Jesus, a alegria e o júbilo
de todos os anjos e de todos os santos. E nós, desta
terra onde somos peregrinos, confortados pela fé numa
futura ressurreição, volvemos nossos olhos para
vós, nossa vida, nossa doçura e nossa esperança".