Rainha do céu e da terra
Frei Clarêncio Neotti, O.F.M.
www.franciscanos.org.br
São antiqüíssimas e sempre rezadas e cantadas
pelo povo cristão as antífonas marianas que invocam
Maria como Rainha do céu e da terra, dos anjos e das
criaturas. Durante o tempo pascal, a mais conhecida antífona
que celebra a ressurreição de Jesus começa
com estas palavras: "Rainha do céu, alegrai-vos,
porque o Senhor ressuscitou como disse!". Uma das orações
aprendidas em criança ao lado da Ave-Maria, é
a "Salve Rainha, Mãe de misericórdia",
que a Liturgia das Horas canta na Oração da Noite
e a piedade popular com ela encerra a oração do
Rosário. Uma terceira antífona, também
cantada na Oração da Noite, começa com
estes versos: "Ave, Rainha do céu! Ave, dos anjos
Senhora!". Quantas vezes invocamos Maria como Rainha na
Ladainha: Rainha dos Patriarcas e dos Profetas, Rainha dos Confessores,
das Virgens e dos Mártires, Rainha dos Anjos e dos Santos!
Também as liturgias bizantina, copta, armena e outras
do Oriente celebram festivamente a realeza de Maria. Lemos,
por exemplo, no longo hino "Akátistos": "Vou
elevar um hino à Rainha e Mãe, de quem, ao celebrar,
me aproximarei com alegria, para cantar com exultação
as suas glórias... Ó Senhora, a nossa língua
não te pode louvar dignamente, porque tu, que deste à
luz a Cristo nosso Rei, foste exaltada acima dos Serafins...
Salve, Rainha do mundo, salve, Maria, Senhora de todos nós!".
Desde os primeiros séculos, a poesia cristã e
a liturgia cantaram a dignidade régia da Mãe de
Deus. Como a luz do dia vem do sol, a realeza de Maria vem de
sua maternidade divina. Já na Anunciação
o Arcanjo falava do reinado sem fim do menino que lhe nasceria
por obra e graça do Espírito Santo (Lc 1,33).
Para a piedade popular, há uma lógica: rei o filho,
rainha a mãe. Por que não haveria de ser rainha
aquela que o próprio Deus escolhera para ser a mãe
do "Rei dos reis e senhor dos senhores" (Ap 19,16)
e que, por isso mesmo, a preservara imaculada desde a conceição,
a fizera "cheia de graça" (Lc 1,28) e a mantivera
virgem durante e depois do parto?
Com a proclamação do dogma da Assunção
corporal de Maria ao céu, o título de Rainha e
Senhora do universo, vem espontâneo aos teólogos,
aos pregadores e aos papas. Para encerrar o Ano Santo de 1954,
decretado pelo Papa Pio XII para celebrar o primeiro centenário
do dogma da Imaculada Conceição, o Santo Padre
escreveu a encíclica "Ad caeli Reginam" sobre
a realeza de Maria e instituiu para toda a Igreja a festa de
Nossa Senhora Rainha. Mais tarde, o Papa Paulo VI escreveria
na excepcional Exortação Apostólica sobre
o Culto à Virgem Maria: "A solenidade da Assunção
tem um prolongamento festivo na celebração da
Realeza da bem-aventurada Virgem Maria, que ocorre oito dias
mais tarde, e na qual se contempla aquela que, sentada ao lado
do Rei dos Séculos, resplandece como Rainha e intercede
como Mãe" (n.6).
Na encíclica, o Papa Pio XII cita, logo no início,
ao menos doze Santos Padres que se referem à soberania
da Mãe de Deus sobre toda a criação, com
diferentes expressões, mas todas querendo dizer a plenitude
de glória e poder de Maria: Senhora, Senhora de todos
os que habitam os céus e a terra, Senhora de todas as
criaturas, Senhora coroada com um diadema de ouro, Rainha, Rainha
do gênero humano, Rainha eterna junto ao Filho do Rei,
Rainha do mundo, Rainha do universo, mais eminente que todos
os reis.
Em seguida, o Santo Padre passa os olhos nas expressões
usadas por seus antecessores, começando pelo Papa Martinho
I (+654), que chamou Maria de "gloriosa Senhora nossa,
sempre Virgem". Numa de suas bulas, o Papa Xisto IV chamou
Maria de "Rainha sempre vigilante, a interceder junto do
Rei, que ela gerou". Lembra ainda o Papa Bento XIV, que
afirmou que o Sumo Rei confiou a Maria, em certo modo, seu próprio
império. Depois, o Papa lembra alguns Santos, conhecidos
por sua teologia mariana. Cito apenas Santo Afonso de Ligório
(1787), que escreveu no clássico livro sobre as Glórias
de Maria: "Porque a Virgem Maria foi elevada até
ser a Mãe do Rei dos Reis, com justa razão a distingue
a Igreja com o título de Rainha".
Escreveu Pio XII na mesma encíclica de 1954 que Maria
é Rainha não só por ser a Mãe de
Deus, mas também por ter sido associada, pela vontade
de Deus, a Jesus Cristo na obra da salvação. Isenta
de qualquer culpa pessoal ou hereditária, e sempre estreitissimamente
unida ao Filho, ela o ofereceu no Calvário ao Eterno
Pai, sacrificando seu amor de mãe em benefício
de toda a humanidade manchada pelo pecado. Por isso, assim como
Jesus é Rei não só por ser o Filho de Deus,
mas também por ser o nosso Redentor, assim pode-se afirmar
que Maria é Rainha não só por ser a Mãe
de Deus, mas também porque associou-se a Cristo na redenção
do gênero humano. "Maria participa da dignidade real
- ensina Pio XII - porque desta união com Cristo Rei
deriva para ela tão esplendente sublimidade, que supera
a excelência de todas as coisas criadas. Desta mesma união
com Cristo nasce aquele poder real, pelo qual ela pode dispor
dos tesouros do Reino do Redentor divino". O Reino de Maria
é vasto como o de seu Filho, porque nada se exclui de
seu domínio.
Pio XII cita ainda uma belíssima passagem da bula "Ineffabilis
Deus" da proclamação do dogma da Imaculada
Conceição por Pio IX: "Deus fez a maravilha
de a enriquecer, acima de todos os anjos e santos, de tal abundância
de todas as graças celestiais hauridas dos tesouros da
divindade, que ela - imune de toda a mancha do pecado e toda
bela - apresenta tal plenitude de inocência e santidade,
que não se pode conceber maior abaixo de Deus, nem ninguém
a pode compreender plenamente senão Deus".
Ao instituir a festa da realeza de Maria, Pio XII, em boa hora,
chamou a atenção para um possível mal-entendido,
que poderia também acontecer com o Reinado de Cristo.
A realeza de Maria não deve ser considerada em analogia
com as realidades da vida política moderna. É
verdade que não se podem representar as coisas do céu
senão através das palavras e expressões
da linguagem humana. Mas isso não significa que, para
honrar Maria, se deva aderir a uma determinada forma de governo
ou a uma particular estrutura política. Conclui o Papa:
"Longe de ser fundado sobre as exigências dos seus
direitos e a vontade de altivo domínio, o reino de Maria
conhece uma só aspiração: o dom completo
de si na sua mais alta e total generosidade".
A festa da realeza de Maria a princípio foi celebrada
no dia 31 de maio, como conclusão do mês em muitos
países dedicado a Maria, com suas belíssimas noites
marianas e ladainhas cantadas. Introduziu-se o costume da coroação
de Maria, carregado de muita ternura, porque eram quase sempre
crianças que coroavam a Mãe do Céu. A introdução
da Missa vespertina diminuiu o interesse pelas "novenas".
A reforma litúrgica introduzida pelo Concílio
Vaticano II preferiu celebrar no dia 31 de maio o mistério
da Visitação e passou a festa de Nossa Senhora
Rainha para o dia 22 de agosto, dentro da oitava da solenidade
da Assunção de Maria ao Céu.
No dia 22 de agosto lemos na Liturgia das Horas, um trecho
de uma homilia de Santo Amadeu, do século XII. O texto
escolhido termina assim: "Ao ser levada aos céus
a Virgem das virgens por Deus e seu Filho, o Rei dos reis, no
meio da exultação dos anjos, da alegria dos arcanjos
e das aclamações de todo o céu, cumpriu-se
a profecia do Salmista que diz ao Senhor: Está à
tua direita a rainha recoberta de vestes de ouro" (Sl 45,10.15).
Na encíclica "Sobre a bem-aventurada Virgem Maria
na vida da Igreja que está a caminho" (1987), o
Papa João Paulo lembra que em Maria realizou-se plenamente
a verdade que 'servir ao Rei é reinar'. Maria, serva
do Senhor, tem parte no Reinado do Filho. "A glória
de servir não cessa de ser a sua exaltação
real: elevada ao céu, não suspende aquele serviço
salvífico em que se exprime sua mediação
materna" (n. 41). De sorte que ser Rainha do céu
e da terra não é apenas a posição
mais alta conquistada por uma criatura humana. Mas é
também para a humanidade a garantia de uma intercessora
generosa, de uma medianeira das graças divinas, de uma
advogada segura, de uma dispensadora dos tesouros divinos. A
realeza de Maria é essencialmente materna, exclusivamente
benéfica.
Volto ao Papa Pio XII e escolho dois trechos da oração
que ele escreveu ao anunciar a festa litúrgica de Nossa
Senhora Rainha: "Queremos exaltar a vossa realeza com legítimo
orgulho de filhos e reconhecê-la como devida à
suma excelência de todo o vosso ser, ó suavíssima
e verdadeira Mãe daquele que é Rei por direito
próprio, por herança, por conquista. Reinai, ó
Mãe e Senhora, mostrando-nos o caminho da santidade,
dirigindo-nos e assistindo-nos para que dele nunca nos afastemos.
Reinai sobre as inteligências, para que não procurem
senão a verdade; sobre as vontades para que sigam somente
o bem; sobre os corações para que amem unicamente
o que vós mesma amais".