Algumas regras práticas
Feitas essas observações preliminares,
é fundamental a todo estudioso da Bíblia algumas
regras práticas. A primeira delas é a de se deslocar
abstratamente ao tempo em que foi escrito o livro que se estuda
ou se lê, não se analisando o que está escrito
com o aculturamento atual, mas procurando entender bem o que
se escreveu com a mentalidade de então.
Outra delas é que os títulos, subtítulos
e a divisão em capítulos e versículos não
fazem parte do escrito em si, não são inspirados,
mas foram idealizados em princípios deste segundo milênio
de nossa era, para facilitar a localização, bem
como a leitura, e de acordo com a divisão vigente por
assunto ao tempo do criador do sistema. Por isso mesmo, nem
sempre um capítulo encerra um assunto, como acontece
com um livro moderno, podendo se encontrar a conclusão
dele mais adiante ou em local diverso.
Além de tudo isto, é de se
considerar que a Bíblia forma uma unidade total de doutrina,
coerente e religiosamente muito lógica. E não
se há de esquecer a necessidade de sempre se recorrer
ao ensino da Igreja, que com seu "depósito"
ilumina a interpretação doutrinária dos
textos difíceis.
Não é possível se dar ao luxo de interpretações
particulares, por mais sábias que nos possam parecer
(2Pe 1,20-21). Assim, é de se ler a Bíblia tal
como foi ela escrita e não como se gostaria que tivesse
sido composta. Qualquer originalidade pode lhe redundar em falsificação
grosseira, mesmo uma simples entonação de voz
que se busca interpretar.
As Escrituras foram escritas ao bafejo do Espírito Santo
e não Lhe pode ser atribuída qualquer contradição
entre os vários livros que a compõem. Só
o Espírito Santo é o interprete do que inspirou
pelo que Jesus fez da Sua Igreja o único "depósito"
(da Fé) (v. Catecismo da Igreja Católica, 109/119):
"E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará
outro Paráclito, que fique convosco para sempre, a saber,
o Espírito da Verdade, o qual o mundo não pode
receber; porque não o vê nem o conhece; mas vós
conheceis, porque ele habita convosco, e estará em vós.
(...) Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós
em mim, e eu em vós. (...) Mas o Paráclito, o
Espírito Santo a quem o Pai enviará em nome, esse
vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar
de tudo quanto eu vos tenho dito" (Jo 14,16-20.26)
"Ainda tenho muito que vos dizer; mas
vós não o podeis suportar agora. Quando vier,
porém, aquele, o Espírito da Verdade, ele vos
guiará a toda a verdade; porque não falará
por si mesmo, mas dirá o que tiver ouvido, e vos anunciará
as coisas vindouras. ..." (Jo 16,12-15).
Pelos trechos aqui transcritos vê-se
que o próprio Jesus diz que seria o Espírito Santo
quem "vos ensinará todas as coisas e vos fará
lembrar de tudo quanto eu vos tenho dito", "vos guiará
a toda a verdade" e "vos anunciará as coisas
vindouras". Assim sendo, é aquilo e somente o que
foi ensinado pelos Apóstolos que permaneceu na Igreja
como o depósito que São Paulo fala:
"Ó Timóteo, guarda o
depósito que te foi confiado, evitando as conversas vãs
e profanas e as oposições da falsamente chamada
ciência; a qual professando-a alguns, se desviaram da
fé. A graça seja convosco" (.I Tm 6,20-21)
"Por esta razão sofro também
estas coisas, mas não me envergonho; porque eu sei em
quem tenho crido, e estou certo de que ele é poderoso
para guardar o meu depósito até aquele dia. Conserva
o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido na fé
e no amor que há em Cristo Jesus; guarda o bom depósito
com o auxílio do Espírito Santo, que habita em
nós" (2 Tm 1,12-14).
Ainda, quando Jesus estabelece o "primado"
de Pedro, deixa clara a autoridade dele e dos Apóstolos
com ele, quando lhes dá o poder de "ligar e desligar",
eis que estará sempre presente, "no meio deles":
(A Pedro) "Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado
és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne
e sangue que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus.
Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre
esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno
não prevalecerão contra ela; dar-te-ei as chaves
do reino dos céus; o que ligares, pois, na terra será
ligado nos céus, e o que desligares na terra será
desligado nos céus" (Mt 16,17-19)
(A todos os Apóstolos 'reunidos' junto com Pedro) "Em
verdade vos digo: Tudo quanto ligardes na terra será
ligado no céu; e tudo quanto desligardes na terra será
desligado no céu. Ainda vos digo mais: Se dois de vós
na terra concordarem acerca de qualquer coisa que pedirem, isso
lhes será feito por meu Pai, que está nos céus.
Pois onde se acham dois ou três reunidos em meu nome,
aí estou eu no meio deles" (Mt 18,18-20)
Além disso, essa Sua presença
entre os Apóstolos, fica mais clara e eficaz ainda quando
diz que "estarei convosco, todos os dias, até a
consumação dos séculos". É
que bastaria ter dito "estarei convosco", mas acentua
acrescentando "todos os dias" e, ainda ratifica "até
a consumação dos séculos". Confirmando
tudo isso, vai Marcos nos informar que "quem crer (na pregação
da Igreja) e for batizado será salvo, mas quem não
crer será condenado". Ora, quando Cristo afirma
ser condenado quem não crê na pregação
é afirmar a infalibilidade da pregação
e a eficácia da Assistência do Espírito
Santo, e quando o diz aos Apóstolos somente, di-lo à
Igreja, depositária do que ensinaram:
"E, aproximando-se Jesus, falou-lhes,
dizendo: Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra.
Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações,
batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito
Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho
mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até
a consumação dos séculos" (Mt 28,18-20)
"E disse-lhes: Ide por todo o mundo,
e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado
será salvo; mas quem não crer será condenado"
(Mc 16,15-16)
(Lc 24,27"E, começando por Moisés
e por todos os profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras
o que a ele dizia respeito. (...) '...era preciso que se cumprisse
tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés,
nos Profetas e nos Salmos.' Então abriu-lhes a mente
para que entendessem as Escrituras" (Lc 24, 27.44-45)
"Já não vos chamo servos,
porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos
amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer"
(Jo 15,15).
Outro fator importante a observar é
a da sucessão apostólica na Igreja, para o exercício
do mesmo múnus, com os mesmos dons apostólicos,
também ratificado na Escritura:
"Irmãos, convinha que se cumprisse
a escritura que o Espírito Santo predisse pela boca de
Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam
a Jesus; pois ele era contado entre nós e teve parte
neste ministério. (...) É necessário, pois,
que dos varões que conviveram conosco todo o tempo em
que o Senhor Jesus andou entre nós, começando
desde o batismo de João até o dia em que dentre
nós foi levado para cima, um deles se torne testemunha
conosco da sua ressurreição" (At 1,16-22).
Por outro lado, também São
Paulo afirma que Tiago, Pedro e João são "colunas
da Igreja" (Gl 2,9). Ora, esse fato corrobora a existência
de hierarquia no Colégio Apostólico, até
mesmo ao tempo de Cristo, eis que somente eles foram testemunhas
de alguns acontecimentos importantes tais como a Ressurreição
da filha de Jairo (Mc 5,37), a Transfiguração
(Mc 9,2), a Agonia do Monte das Oliveiras (Mc 14,33), e recomendados
ao silêncio a respeito até a ressurreição
(Mc 5,43; 9,9), o que evidencia o motivo de serem considerados
"colunas". Ambas, a sucessão e a hierarquia,
evidenciam a presença da sucessão apostólica
caracterizando a autenticidade do Colégio Apostólico
Católico e do "depósito da fé":
"E, aproximando-se Jesus, falou-lhes,
dizendo: Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra.
Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações,
batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito
Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos ordenei;
e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação
dos séculos" (Mt 28,19-20).
Outra observação que se deve
fazer num começo de estudo da Bíblia é
com base na já mencionada coerência que deve ter
tudo o que se deduz com a totalidade dela, donde a necessidade
de sintonia das conclusões com todo o seu conteúdo.
Sempre se buscará, por isso, confirmação
na própria Bíblia daquilo que se concluiu ou se
encontrou, ou também no magistério da Igreja,
detentora da Tradição, a única interprete
autorizada por Cristo, como acima se viu.
E é bom nunca se perder de
vista que a maioria dos escritos do Novo Testamento, principalmente
os Evangelhos, foram escritos para o uso de pessoas que já
conheciam todo o tema que abordam em seus mínimos detalhes,
não lhes sendo necessário esclarecimentos e explicações
como para nós, que desconhecemos os pormenores, os quais
estão na Tradição e Magistério da
Igreja.