O
Domingo: nossa experiência pascal
Os relatos das
aparições de Jesus, especialmente em
Lucas e João , foram redigidos tendo como pano
de fundo a prática cristã do domingo
e contêm a catequese da Igreja apostólica,
quanto ao sentido da celebração dominical.
Para nós , talvez não seja tão
importante conhecer em detalhes o processo histórico
das origens do domingo quanto viver essa realidade
precisamente no prolongamento das aparições
pascais; considerar as aparições pascais
como arquétipo da celebração
dominical, isto é, entender que a função
particular do domingo na vida da comunidade cristã
encontra sua origem no encontro do Senhor com seus
discípulos no dia de Páscoa; e, por
conseguinte, ver e conceber nossa assembléia
dominical como lugar do acontecimento pascal semanal,
o lugar e o momento em que a comunidade cristã
a cada semana entra em contato com o mistério
pascal de seu próprio nascimento.
O Concilio Vaticano II, ao
se referir ao significado do domingo e do culto cristão
em geral, falou em " celebrar o mistério
pascal ". A partir de então, a expressão
"mistério pascal" pertence à
linguagem litúrgica e pastoral. Essa expressão,
todavia, é uma conceitualização
abstrata; é possível que muitos fiéis
não consigam entendê-la, ou a entendem
de forma demasiado estreita, como se se tratasse pura
e simplesmente de evocar a memória da ressurreição
de Jesus como um fato do passado. Na realidade, celebrar
o mistério pascal quer dizer antes de tudo
que Cristo ressuscitado está presente entre
nós e nos faz ressuscitar com ele: a nós
que podemos estar (como os discípulos de Emaús,
ou como Tomé) tristes, acabrunhados, desconfiados,como
homens de pouca fé, ele nos oferece seu amor
e seu perdão. Celebrar " o mistério
pascal " é ser atraído e reintroduzido,
cada vez mais profundamente, nessa dinâmica
pascal de dar a própria vida pelos outros para
que Deus a devolva em abundância. Celebrar o
"mistério pascal" no primeiro dia
da semana é, partindo de nossas tristezas,
de nossas decepções, de nossa falta
de fé, de nossa impotência diante das
forças destruidoras deste mundo:
escutar com nosso irmãos
a Palavra que nos anima e vivifica, que " faz
arder nosso corações" (Lc 24,32);
embora também seja "crer sem ter visto"
(Jo 20,29);
é aceitar sua comensalidade
na Eucaristia, lugar privilegiado em que podemos realizar
a experiência de que ele vive; é aceitar
também sua presença na ausência,
como Tomé, o "cético vencido";
é, finalmente, aceitar
sua missão, seu estilo de vida na comunhão
fraterna, em solidariedade franca e eficaz com os
pobres da terra, com os excluídos de nossa
sociedade.
Para aquele que participa
assim, com o coração iluminado, da eucaristia
do domingo, as aparições pascais tornam-se
uma realidade que se cumpre hoje nele: a tristeza
se transforma em alegria; o medo dá lugar ao
testemunho, o egocentrismo se transmuta em dom de
si mesmo; a solidão se torna comunhão
e solidariedade; a incredulidade abre espaço
à adoração na fé. A reunião
dominical, definitivamente, não será
outra coisa senão o Ressuscitado, que nos alcança
em nosso próprio caminho de Emaús, isto
é, num momento concreto e exato de nossa existência
cotidiana; nela, o Senhor nos fala, nos convida para
sua mesa, nos confia sua missão, e nos introduz
paulatinamente em sua Páscoa, em sua Vida Nova.
Padre Gian Luigi Morgano
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