O
dia que recebe um novo nome
"No
dia do Senhor (Kyriaké eméra), o Espírito
tomou conta de mim. E atrás de mim ouvi uma
voz forte como trombeta..." Ap 1,10.
Nos primeiros textos não-escriturísticos
constata-se que " o primeiro dia depois do sábado"
começa a ser chamado "o dia do Senhor".
Mas essa nova denominação aparece já
nesse texto do Apocalipse, o último livro da
Bíblia. O termo Kyrios tinha ecos no mundo
grego-romano e ocupava o lugar de destaque nos cultos
imperiais. Por isso, segundo diversos autores, essa
denominação (Kyriaké eméra)
tinha uma espécie de conotação
crítica : seria uma clara contraposição
a qualquer outro dia de cunho pagão, dedicado
ao imperador ou a outras divindades e, definitivamente,
a todos os pretensos "absolutos" que quisessem
escravizar as pessoas. Com a expressão "dia
do Senhor", o autor do Apocalipse quer designar
especificadamente o dia em que a comunidade celebra
a liturgia eucarística comunitária.
Como frisaram muitos pesquisadores, o Apocalipse,
livro a um só tempo atraente e desconcertante,
escrito por volta do ano 95, sob o imperador Domiciano,
tem uma acentuada coloração litúrgica.Os
cânticos e as aclamações dos quais
está repleto esse livro não retomam
as formulas bíblicas só por mera imitação
literária; pode-se pensar, pelo contrário,
que têm seu lugar de origem na liturgia dominical,
embora o autor os adapte a outros contextos. Em Ap
1,10, o vidente tem sua visão no dia dedicado
ao Senhor, talvez na mesma hora em que se celebra
o culto divino. O " dia do Senhor" recebe
seu nome de Cristo Senhor, como, muito antes, o "banquete
do Senhor" (Kyriakòn deîpnon), em
1 Cor 11,20.
O motivo da escolha desse
nome, parece estar em nítida conexão
com a ressurreição de Cristo Kyrios.
Este parece ser,sem dúvida, o acontecimento
que deu origem ao domingo cristão, e sua chave
fundamental: a ressurreição de Cristo.Vale
a pena destacar que os quatro evangelistas que em
geral não costumam indicar o dia da semana
em que o fato aconteceu ( à exceção
dos debates em torno do sabá), têm muito
cuidado em registrar que a ressurreição
do Senhor ocorreu no "primeiro dia da semana",
ou seja no dia seguinte ao sábado, dia por
antonomásia da religião judaica.(Cf
Mt 28,1;Mc 16,1-2.9;Lc 24,1;Jo 20,1.19.26). Como se
pode notar nessa série de textos, os quatro
evangelistas situam a ressurreição de
Cristo no "primeiro dia da semana". Essa
expressão se encontra nos relatos do anúncio
da ressurreição da manhã de Páscoa,
e nos relatos da aparição do Ressuscitado
na tarde do mesmo dia. Pode-se ver, nesse acordo,
e nessa discreta insistência, o indício
de que, já na época da redação
dos evangelhos, o primeiro dia da semana sabatina
tinha um significado particular, em memória
da ressurreição de Cristo. Essa menção
unânime procede provavelmente de uma intenção
teológica,e até litúrgica. Podemos
concluir que o costume de celebrar a assembléia
eucarística no domingo remonta a uma tradição
apostólica. Os textos dos Atos e de 1 Corintios
(um dos escritos mais antigos do Novo Testamento)
que mencionam o " primeiro dia da semana"
mostram que esse dia devia adquirir muito em breve
um significado particular na história das comunidades
cristãs; já no começo dos anos
50, nas comunidades originais da gentilidade na Grécia
e na Ásia Menor. A coloração
judaica da expressão sugere, além disso,
que a escolha desse dia não é uma criação
da gentilidade, mas remonta às comunidades
judaico-cristãs. A assembléia cristã
do domingo, realização exemplar da Ekklesia,
parece definitivamente uma instituição
praticamente tão antiga quanto a própria
Igreja.
Padre Gian Luigi
Morgano
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