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A alegria do domingo

Não se trata só de deixar de trabalhar. É todo o dia do domingo que somos convidados a viver em festa e em sentido pascal. "O domingo é a festa primordial....dia de alegria e libertação da trabalho" (SC 106); "no domingo abstenham-se os fiéis de trabalhos que impeçam....gozar da alegria própria do dia do Senhor..." (CIC 1274).

Bastante antes de o domingo significar abstenção do trabalho, já era entendido pela comunidade cristã como dia de alegria, alegria que consistia em celebrar comunitariamente a Eucaristia e viver o dia todo com tom pascal. Tertuliano argumentava contra alguns que menosprezavam as festas pagãs:" os pagãos têm uma festa anual, ao passo que para ti é festa a cada oito dias" (De idol. 14). Para o Pseudo-Barnabé o domingo é "um dia todo ele passado em alegria" (15,9). As Constituições apostólicas afirmam:" o domingo é dia em que todos deveis ficar alegres, porque quem se aflige em dia de domingo cometerá pecado"(20,11). Por isso foi costume muito antigo que não se jejuasse nesse dia. Santo Ambrósio dava a razão:" no domingo celebra-se a festa da Ressurreição: não podemos jejuar nesse dia. Seria não crer na ressurreição de Cristo se alguém quisesse jejuar no domingo" (Epist. 23). A mesma motivação, e também o olhar escatológico voltado para a páscoa futura , levou a não rezar de joelhos no domingo.Essa postura era penitencial nessa época, e no domingo não cabia essa atitude. Por exemplo, diz santo Agostinho:" todos os domingos oramos de pé (stantes oramus), o que é sinal de ressurreição"( Epist. 55,28).Santo Isidoro:" no dia do Senhor oramos de pé como sinal da futura ressurreição: assim o faz toda a Igreja" (De eccl.Off. 1,24).São Basílio une as duas motivações ( a recordação e a espera da páscoa):" De pé é como fazemos a oração no primeiro dia da semana, mas nem todos sabem a razão disso. Não é somente porque, ressuscitados com Cristo e devendo buscar as coisas do alto, tenhamos de voltar á nossa memória, estando de pé quando rezamos, no dia consagrado à Ressurreição, mas porque aquele dia parece ser de alguma maneira a imagem do tempo vindouro" ( Trat. do Esp.santo 27).

O domingo é o dia pascal, com tudo o que comporta de alegria e vitória. A razão profunda é que esse Senhor Jesus continua vivo e está presente em nossa existência, com toda a sua força salvadora. Como os primeiros cristãos voltaram cheios de alegria depois da Ascensão (Lc 24,52 ss), assim também nós estamos convencidos da presença sempre viva de Cristo e de que sua páscoa é força dinâmica que continua transformando também nossa história. Nós, cristãos, fazemos da alegria do domingo um gesto profético no meio deste mundo: é nosso ato de fé em Cristo Jesus e no que ele nos quer comunicar. Ter tempo para fazer festa e viver com alegria consciente esse dia é demonstrar que entendemos nossa fé cristã não como algo triste, mas como boa nova feita vida. Na verdade, o domingo é "o dia que o Senhor fez: que Ele seja nossa felicidade e nossa alegria" (Sl 117,24). Mais que obra meritória de nossa parte, é dom semanal que o Senhor ressuscitado nos faz, espaço de festa vivido cultualmente. E, além disso, antecipação semanal da páscoa futura e definitiva, que quer alimentar nossa esperança.

O " dia do Senhor" não tem por que estar em inimizade com " o dia do homem". Os cristãos podem evangelizar sua alegria de fim de semana, dando-lhe um sentido pascal e cristocêntrico.Comer melhor, gozar a beleza do criado, dedicar mais horas aos amigos e sobretudo à família, dedicar tempo a nossos hobbies, junto com a participação na Eucaristia da comunidade, tudo isso constitui estilo pascal de viver o dia inteiro do domingo.

Padre Gian Luigi Morgano