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Páscoa da Ressurreição

A Festa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo é a maior da Igreja, do Cristianismo, deveríamos dizer do mundo todo. Antigamente era chamada “Grande dia (Tertuliano)”. “Rainha de todos os dias (S. Greg. Naz)” e com outras denominações que indicavam, a grande consideração em que era dita a festa da Páscoa, bem como a alegria inefável que inundava todas as almas, um como que suspiro de alívio, graças ao reatamento da amizade entre o céu e a terra obtida pela Paixão de Jesus Cristo, que tem na Ressurreição seu último complemento, uma como que aceitação, por parte da deus Padre, do Sacrifício de seu Filho Divino.

Toda esta exaltação religiosa da Igreja tem como base solidíssima a Revelação Divina. Diz de fato S. Paulo que “se Jesus Cristo não ressuscitou, nossa fé é uma idiotice, sem fundamento (1 Cor. 15, 14)”e, em outro lugar, afirma que Jesus Cristo ressuscitou pela nossa salvação (Rom. 4,25).

Alegremo-nos, portanto, e exultemos neste dia do Senhor.

No entanto, para que nossa alegria seja plena (Jo. 3, 24) é mister que tiremos as lições espirituais do fato de Ressurreição de Jesus Cristo.

Em primeiro lugar, cumpre-nos alegramo-nos com o próprio Nosso Senhor que, com sua ressurreição, venceu a morte e os tormentos. Ele desceu ao sepulcro desfigurado pelos açoites, pelos escarros, pela coroa de espinhos. Não parecia mais um homem, e sim um farrapo humano. Pois bem, na ressurreição, Ele sai glorioso do sepulcro. Desaparecem as cicatrizes, seu rosto brilha novamente, e Ele o homem perfeito, retornou novamente todo o aspecto do mais belo dos filhos dos homens. Conservou apenas as chagas das mãos, dos pés, e do Sagrado lado, com troféu de vitória. E com isso, devemos nos regozijar. Além de gratidão, e um sentimento nobre alegrar-se com as venturas do próximo. E, no caso, trata-se nada menos de Nosso Divino Redentor.

Com isso, passamos à outra conclusão a que somos levados pela ressurreição de Senhor. É a gratidão, as ações de graças pelo benefício inefável da Ressurreição de hoje recebe seu último complemento. Uma das virtudes mais esquecidas, e, no entanto, mais agradáveis a Deus, é a gratidão. Na sua vida mortal, queixou-se Jesus da ingratidão dos nove leprosos, e S. Paulo nos recomenda que todas as nossas petições subam ao trono de Deus, envolvidas na ação de Graças (Fil. 4,6). Que benefício maior poderíamos obter de Deus, do que nossa Redenção? Pois, no dia em que ele se completa, enchem os nossos corações de agradecimento ao Deus todo poderoso que, por nossa salvação, nos deu seu Filho Unigênito.

Agradecemos ao Filho de Deus, sua misericórdia, tomando um corpo como o nosso para imolar-se por nós. Agradeçamos ao divino Espírito Santo, pela santificação que opera em nossas almas, em virtude da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus cristo. E sempre, conservemos o hábito da Ação de Graças. É a melhor maneira de combater nosso egoísmo, e o modo mais eficaz de predispor Deus Nosso Senhor e atender nossas súplicas.

Lembremo-nos, depois, da ressurreição de Jesus cristo foi fruto de seus atrozes sofrimentos. Foi através da sua Paixão, que mereceu Ele a glória da sua ressurreição, e a entrada triunfal no paraíso. Ele mesmo o disse aos discípulos incrédulos de Emaús: “Por ventura não era necessário que Cristo sofresse estas coisas e assim entrasse na sua glória (Lc. 24,26)”? Há nisto também uma lição preciosa, cuja aceitação e prática é indispensável. Se quiser-mos tomar parte da glória com Jesus Cristo Ressuscitado, é preciso compartilhar de suas dores, é preciso tomar a nossa cruz, a cruz quer nos toca nos insondáveis desígnios de Deus, e seguir com paciência e amor as pegadas do Divino Salvador. Infelizmente, hoje profana-se a páscoa com um excesso de divertimentos profanos, quando não pecaminosos; quando, o dia todo deveria fixar na nossa mente e no nosso coração a vitória de Jesus Cristo, protótipo da nossa futura ressurreição. Assim; a festa de páscoa ter-nos-ia sido plena. Plena pela alegria com a vitória de Jesus Cristo; plena, com nossos corações inundando em ação de graças; plena pela firme resolução de seguir a Jesus Cristo, desapegando-nos do mundo e de nós mesmos, evitando todo pecado, tudo fazendo com a reta intenção de servir a Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Rei, nosso Salvador, o amigo de nossas almas.

A festa da ressurreição deu margem a vários usos, litúrgicos uns, profanos outros, todos no mesmo sentido de manifestar a alegria de Páscoa. Na Idade Média, em Roma, antes da Missa do dia, cantada em Santa Maria Maior, dava o Papa a paz aos Cardeais, e demais membros da sua corte, num rito religioso. Dirigia-se à capela de S. Loureço, no Lateranense, na qual se venera a imagem do Santíssimo Salvador, célebre por ser considerada feita não por mãos de homens (aqueropita). Aí revestido dos paramentos sagrados, abria o relicário, rezava, beijava os pés da imagem e dizia, três vezes. “O Senhor ressuscitou do sepulcro”. Ao que todos respondiam: “que esteve por nós suspenso na Cruz, Aleluia”. — Sentava-se, depois, o Pontífice no trono e dava a paz aos Cardeais assistentes, dizendo: “O Senhor ressuscitou verdadeiramente”, ao que replicava o Cardeal: “E apareceu a Simão”.

+(a) Dom Antonio de Castro Mayer, Bispo de Campos