Pentecostes
- A ação do Espírito Santo
A compreensão da pessoa e da missão do Espírito
Santo é dificultada pelo próprio vocábulo
espírito. Este vocábulo dá a idéia
de que o espírito é o contrário do
corpo, o oposto da matéria. Isso já não
acontece com o vocábulo hebraico ruah, do qual a
palavra espírito é tradução.
Ruah significa força, energia, movimento, vida. Este
vocábulo nos fornece o ponto de partida para entender,
de certo modo, a pessoa e a missão do Espírito
Santo.
Em todo o Antigo Testamento, o Espírito não
é revelado como pessoa. Designa a força pela
qual Deus opera e faz operar. Essa força sustenta
todas as coisas no ser. Se Deus retira o seu espírito,
tudo volta ao nada, como reza o salmo 104. É o Espírito
que torna certas pessoas humildes e frágeis capazes
de realizar obras prodigiosas. Por exemplo, a força
de Sansão provém da presença nele do
espírito de Deus. É o mesmo espírito
que mantém o profeta de pé, em atitude de
coragem, para anunciar a Palavra do Deus vivo e verdadeiro.
É o Espírito ainda, conforme aparece no livro
de Ezequiel, que é capaz de reanimar os ossos ressequidos,
isto é, encher de esperança e coragem o povo
que se encontra no exílio: morto politicamente, sem
esperança.
No Novo Testamento, o Espírito Santo já é
revelado como pessoa. Sua primeira grande obra é
o evento de Jesus de Nazaré. Jesus é concebido
pela ação do Espírito. É ele
que suscita, no seio de Maria, a humanidade para o Verbo.
O Espírito nele permanece. Jesus nada faz, a não
ser movido pelo Espírito. Sua missão só
termina com o envio do Espírito. "Jesus crescia
em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus
e diante dos homens" (Lc 2,52). Este crescimento em
graça designa a presença do Espírito
Santo no Menino Jesus. No batismo, a ação
do Espírito Santo transforma Jesus em Cristo, palavra
que significa Messias. E, durante todo o seu ministério,
Jesus é conduzido pelo Espírito Santo. Ele
o impele para pregar a boa nova aos pobres. Pela força
do Espírito, ele prega a Palavra de Deus, realiza
prodígios e vence as forças do mal.
Durante o seu ministério público, Jesus promete
aos discípulos o dom do Espírito Santo para
os tempos de perseguição e sofrimento. Mas,
no quarto evangelho, promete-o como dom permanente à
Igreja para que, após a sua morte, ela não
fique na orfandade.
Pela primeira vez, Jesus doa o Espírito à
comunidade dos seus discípulos, no momento em que
morre na cruz. A própria água que correu do
seu lado, quando aberto pela lança de um soldado,
é, segundo São João, um símbolo
da doação do Espírito.
Uma vez ressuscitado, doa o Espírito aos apóstolos,
para que exerçam, na Igreja, o ministério
da reconciliação. Mas a doação
universal do Espírito Santo realiza-se no dia de
Pentecostes. São Lucas descreve o Pentecostes cristão,
tendo como pano de fundo o Pentecostes judaico, festa celebrada
dias após a Páscoa. A Páscoa era a
celebração da libertação do
povo de Israel da escravidão do Egito. Pentecostes,
por sua vez, tornou-se a celebração da aliança
no Sinai, depois que Israel saiu do Egito. Em Pentecostes,
o povo oferecia a Deus os primeiros frutos da colheita.
Por isso, era chamada também a Festa da Messe. Fazendo
coincidir o Pentecostes cristão com o judaico, Lucas
mostra que o dom do Espírito Santo constitui, na
história da salvação, a aliança
definitiva de Deus com os homens. Agora chegou o tempo da
messe, da colheita, cujo artífice principal é
o Espírito Santo.
Pentecostes é também o momento do nascimento
pleno da Igreja. Até então, a comunidade dos
discípulos de Jesus está parada, estática.
Não sabe que rumo tomar. Por meio do dom do Espírito
Santo, ela se transforma em movimento missionário.
A Igreja, pois, é a segunda grande obra do Espírito
Santo. Lançando-a em direção de todas
as línguas, o Espírito mostra claramente que
está operando no mundo inteiro, em todos os povos
e culturas. Na realidade, ele é o primeiro missionário:
aquele que chega antes de todos e prepara o terreno para
a acolhida do evangelho.
O Espírito é o mestre por excelência.
Sua missão é conduzir os homens ao seguimento
de Jesus e fazer com que o projeto do Pai, anunciado por
Jesus, se torne História. Em outras palavras, fazer
com que a história de Cristo continue. O símbolo
apostólico, profissão de fé normativa
para a Igreja, faz um elenco das obras principais do Espírito
Santo: a Igreja, a comunhão dos santos (reunião
dos cristãos na celebração da eucaristia),
o perdão dos pecados (batismo e penitência),
a ressurreição e a vida eterna. Todos esses
dons mostram o Espírito Santo agindo na História
até a sua consumação final.
Se o Espírito se manifesta como força, como
energia e vida, evidentemente podemos fazer a experiência
de sua presença. Segundo São Paulo, ele "socorre
a nossa fraqueza" e "intercede por nós
com gemidos inefáveis" (Rm 8,26). Clama em nossos
corações "Abba", que significa pai.
Abba é a menor oração cristã.
Consiste em clamar por Deus com a palavra pai pronunciada
pela boca das criancinhas. Portanto, toda oração,
ainda que seja um simples clamor, é experiência
do Espírito.
Experiência do Espírito é também
o testemunho de vida expresso por meio do martírio
ou pela doação a serviço dos irmãos.
Experiência do Espírito é ainda a leitura
ou a escuta da Palavra de Deus, pois a vida que a Palavra
comunica provém do Espírito. Sem a sua ação,
seria letra morta. Experiência do Espírito
é sobretudo a conversão. "Ninguém",
escreve São Paulo, "pode dizer Jesus é
o Senhor, a não ser no Espírito Santo"
(ICor 12,3). Trata-se da confissão fundamental da
fé. Mas essa confissão não significa
apenas pronunciar uma fórmula. Dizer "Jesus
é o Senhor" significa deixar de lado os ídolos
do dinheiro, do prazer, do domínio, e fazer de Jesus
o centro da própria vida. Realizar assim uma virada
radical na existência. Isso só é possível
quando a pessoa é movida pelo Espírito Santo.
Em seu livro O Espírito Santo e a libertação,
padre José Comblin mostra que as comunidades eclesiais
de base, expressão mais relevante da Igreja dos pobres
na América Latina, fazem, embora sem dar o nome,
uma experiência significativa do Espírito Santo.
Trata-se da ação transformadora desenvolvida
por essas comunidades, de vida comunitária e fraterna,
da palavra profética denunciadora da injustiça,
da vida nova experimentada em comunidade. O povo pobre não
foi preparado para essas experiências. Ao contrário:
tudo, até hoje, o levou ao isolamento, à mudez,
à passividade, a experiências de morte.
Quando, pois, os paralíticos começam a andar,
os mudos a pronunciar uma palavra profética, os mortos
politicamente a ressuscitar, isso não se explica
humanamente. Só o Espírito Santo é
capaz de realizar esse prodígio. Mas a ação
do Espírito não é paralela à
ação humana. Ele age na ação
humana e através dela, mesmo quando carregada de
imperfeições. O Espírito faz com que
o homem seja sujeito. Faz com que sua ação
tenha nova vida e, conse-qüentemente, nova eficácia.
Creio que as palavras ditas, em 1968, por um bispo ortodoxo,
no Conselho Mundial das Igrejas, resumem a originalidade
da ação do Espírito: "Sem o Espírito
Santo, Deus fica longe; Cristo situa-se no passado; o evangelho
é letra morta; a Igreja, apenas uma organização;
a autoridade, somente domínio; a missão, só
propaganda; o culto, um exorcismo, e o comportamento cristão,
uma moral de escravos".
BENI DOS SANTOS é
padre, doutor em Teologia e professor
na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção,
em São Paulo (SP).
Fonte: Revista Família Cristã