Ascensão do Senhor
1a leitura: At 1,1-11
2a leitura: Ef 1, 17-23
Evangelho: Mt 28, 16-20
A Ascensão do Senhor é a celebração
da maturidade da fé cristã. O Senhor confiou-nos
uma missão e partiu para junto do Pai. É hora
de agir. A ausência física não significa
abandono total. "Eu estarei convosco.
A maturação da fé dos primeiros discípulos
passou por um processo. O primeiro momento incluiu a presença
física de Jesus. O segundo momento exigia o seguimento,
agora sem a presença física do Mestre. A comunidade
cristã correria o risco de infantilizar-se se tivesse
sido diferente. Poderíamos comparar este processo
com um casal que gerou filhos e filhas, preparou-os para
a vida e teve que mudar a relação com eles
quando se tornaram adultos.
Eles já não precisam mais recorrer aos genitores,
a cada momento, para dirimir dúvidas, pedir sugestões,
saber o que fazer. Os pais continuam a ser amados e queridos,
embora tenham mudado a forma de relacionamento com os filhos.
Algo semelhante aconteceu com a comunidade cristã
primitiva, como nos contam os Atos dos Apóstolos.
Lucas relembra já ter escrito um livro - o Evangelho
-, onde relatou as palavras e as ações de
Jesus, enquanto ele estava com seus discípulos, até
o dia em que, "tendo dado suas instruções
pelo Espírito Santo aos apóstolos que escolhera,
foi elevado ao céu" (At l, 1). Antes disso,
durante "quarenta dias" (número carregado
de simbolismo teológico, que não deve ser
tomado no sentido cronológico), após sua ressurreição,
aparecera aos discípulos, convivendo com eles. Afinal
chegou a hora da partida. Lucas nos conta o fato com alguns
detalhes. Os apóstolos Ficam a olhar para o céu
(At l, 10). É preciso aparecer alguém para
chamá-los à realidade e dizer-lhes que não
é mais hora de ficar olhando para o céu -
alienando-se numa falsa esperança - mas é
hora de enfrentar o mundo e criar aí o Reino de Deus,
do qual Jesus lhes falara (At l, 3).
A missão confiada por Jesus a seus discípulos
aparece no texto do Evangelho. Jesus e seus discípulos
estão sobre uma montanha. Esta cena nos lembra Moisés
e o povo de Deus prestes a entrar na Terra Prometida. Diante
de seus discípulos, Jesus coloca a totalidade do
universo e dos povos. Em Marcos 16, 15, Jesus ordena: "Ide
por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura".
Os discípulos terão como missão fazer
de todos os povos discípulos do Senhor. Fazer discípulo
significa reunir a humanidade em torno de Jesus Cristo,
de modo a construir o novo povo de Deus, o verdadeiro Israel,
do qual se faz parte através do batismo e da observância
dos mandamentos do Mestre, resumidos no mandamento do amor.
Esta missão se transmitiu, ininterruptamente, ao
longo dos séculos. E chegou até nossas comunidades...
A ascensão do Senhor não implica o abandono
dos discípulos à própria sorte. "Eu
estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos!"
(Mt 28,20) é a promessa do Senhor. Como o Senhor
está conosco? Onde o Senhor está conosco?
Quais são os sinais de sua presença entre
nós? O próprio Evangelho nos dá algumas
pistas de resposta. Jesus está no irmão pequenino,
cuja existência sofre ameaça (Mt 25, 31-46);
está presente na comunidade em oração
discernindo seus problemas (Mt 18,20); na Eucaristia, está
presente com todo seu ser "corpo e sangue" (Mt
26,26-28). Embora ausente, Jesus permanece de mil modos
presente na vida dos seus discípulos. As comunidades
cristãs, de todos os tempos e lugares, sob este aspecto
estão em pé de igualdade.
PRESENÇA DO SENHOR
Segundo a Carta aos efésios, é preciso que
Deus "ilumine os olhos da nossa inteligência"
para compreendermos todo o mistério de Cristo. Sobretudo
o fato de Cristo ter sido constituído "Cabeça
da Igreja, que é o seu Corpo". Trata-se da nossa
relação com o Cristo, definitivamente, estabelecida
pelo Pai. Sendo cabeça, não podemos prescindir
dele.
A Ascensão do Senhor leva-nos, pois, a rever a maturidade
de nossa fé. Ela se expressa no fato de assumirmos,
com coragem, a missão evangelizadora confiada a nós
por Jesus e a realizarmos na certeza da presença
do Senhor no meio de nós - não estamos sozinhos!
-; discernirmos os passos a serem dados sem transformarmos
o Evangelho num receituário a ser consultado em cada
circunstância; reconhecermos a presença de
Cristo, de modo especial, na Eucaristia, no irmão
marginalizado e nos irmãos reunidos em fraternidade;
ajudarmo-nos, mutuamente, a conformar nossas vidas com o
projeto de Cristo e do Reino.
Quando o Senhor voltar, do mesmo modo que foi elevado aos
céus, que ele nos encontre perseverando na árdua
missão de levar adiante a construção
do Reino inaugurado por ele.