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Pão da vida - Corpus Christi

1a leitura: Dt 8, 2-3.145-16a
2a leitura: 1Cor 10, 16-17
Evangelho: Jo 6, 51-58

"A festa de hoje, embora celebrada com pompa e solenidade, põe em xeque nossa passividade diante de situações dramáticas vividas pela humanidade. O Corpo de Cristo não pode ser desligado do corpo dos irmãos."

A festa litúrgica do Corpo de Cristo retoma a celebração da Quinta-Feira Santa, quando se recorda a instituição da Eucaristia. A importância da Eucaristia para as comunidades cristãs justifica a dupla comemoração do mesmo fato. A comunidade se constrói em torno da Eucaristia e a Eucaristia acontece no seio da comunidade.

O pano de fundo desta celebração é um gesto social extremamente significativo: o comer e beber. Existe um comer e beber para satisfação pura e simples do apetite e da sede. A dimensão simbólica não se situa neste nível. O simbólico acontece quando se come e se bebe com os outros, num sinal de comunhão fraterna. A comida e a bebida, enquanto alimentam o corpo, alimentam e solidificam as relações inter pessoais; fazem crescer a fraternidade; criam comunhão entre os comensais. No Antigo Testamento, encontramos exemplos de refeições sagradas, nas quais se come na presença da divindade para entrar em comunhão com ela (Gn 18, 1-8). A Páscoa era celebrada, anualmente, ao redor de uma ceia (Ex 12, 43-48). Jesus, estando para concluir sua peregrinação terrena, reúne os discípulos para uma refeição (Mc 14, 12-16).

A primeira leitura é um memorial ("recorda-te" - Dt 8, 2) do amor de Deus para com seu povo, quando o alimentou com o maná no deserto, ao correr o risco de vê-lo dizimado pela fome. Deus o humilhou e provou sua fidelidade. Muitos séculos depois, alguém cheio de fé tirou uma lição deste fato. O objetivo de Deus era fazer seu povo perceber que "não só de pão vive o homem, mas de toda palavra proferida pela boca do Senhor" (Dt 8, 3). A vida não vem só do pão material.

Quem experimenta a libertação de Deus sabe disto. Existe um outro pão - a Palavra de Deus - donde jorra a verdadeira vida. Corre o risco de desfalecer no deserto do mundo quem se recusa a experimentá-lo.

O Evangelho está em estreita relação com a primeira leitura. Jesus é o verdadeiro pão - o "pão vivo descido do céu" (Jo 6, 51). O maná, no deserto, era um pão provisório. O povo comeu dele mas, mesmo assim, morreu antes de entrar na Terra Prometida (Jo 6, 58). O corpo e sangue de Jesus são a comida e a bebida verdadeiras, capazes de proporcionar vida eterna. Este alimento é penhor de ressurreição, por ser a carne e o sangue do próprio Filho do Homem. Esta refeição divina gera a comunhão com o Pai, através do Filho - "quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele". Ela marca profundamente a vida de quem comunga, tornando a vida de comunhão com o Filho no mesmo nível da união do Filho com o Pai. A Eucaristia nos coloca, assim, em contato direto com a fonte da vida.

A segunda leitura fala-nos dos efeitos da participação no corpo e sangue de Cristo a nível comunitário. Paulo escreve para uma comunidade dividida, divisão refletida até mesmo nas reuniões eucarísticas. O apóstolo exorta a comunidade a tornar frutuosas as celebrações da Eucaristia. Seu fruto principal precisa ser a comunhão fraterna. O argumento de Paulo é simples: ao comungarem o mesmo pão e o mesmo cálice - corpo e sangue de Cristo - todos se unem para formar um só corpo - o Corpo de Cristo, a comunidade cristã. A unidade supera a diversidade quando todos partilham do mesmo Cristo. Seria contraditório participar da Eucaristia sem experimentar, simultaneamente, a comunhão com os irmãos. A comunhão com o corpo e sangue de Cristo é a negação de todo individualismo, fechamento em si mesmo, divisão e qualquer outro fruto do egoísmo.

PÃO DA UNIDADE
Nós vivemos num mundo dividido. As comunidades cristãs, inseridas neste contexto, não conseguem pôr-se a salvo. Elas também experimentam profundas divisões, chegando ao absurdo de celebrar a Eucaristia sem a prévia reconciliação de seus membros. Paulo chama este fato de "comer e beber a própria condenação". E "quem come o pão ou bebe o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor". Este é um primeiro ponto para a revisão de nossa vida em comunidade.

Perguntemo-nos também com que nos alimentamos para fortificar a vida da nossa verdadeira vida. A sociedade moderna continuamente alimenta o povo com "alimentos" deteriorados, contaminados. Os meios de comunicação, através da propaganda, obrigam-nos a engolir seus produtos, suas ideologias. Somos alimentados à força e nem nos damos conta do que comemos. Se queremos permanecer fiéis ao Evangelho, é necessário um discernimento contínuo. Caso contrário, quando abrirmos os olhos vamos nos encontrar muito longe de Jesus e sua mensagem, o alimento verdadeiro da nossa vida. Celebrar o Corpo de Cristo é celebrar a partilha do pão material com quem tem fome. Eis aí um gesto grandioso de unidade!