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Palestra sobre Santidade
Por: DOM FREI DIAMANTINO PRATA DE CARVALHO, OFM
BISPO DA DIOCESE DA CAMPANHA(MG)
 
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Irmãs, Irmãos,

            O Senhor lhes dê a Paz!
 
            É um grande prazer estarmos juntos, neste primeiro encontro de postuladores com representantes de instituições que têm a peito causas de beatificação. Fui convidado a falar-lhes sobre a santidade. Considero que não seja eu a pessoa mais indicada para discorrer sobre tão elevado tema. Porém, na simplicidade e alegria franciscanas, estou aí para servir.

Deus é santo

“Na verdade, ó Pai, vós sois santo e fonte de toda santidade”. Assim rezamos na 2ª oração eucarística de nossa liturgia romana.
 É em Deus Trindade que devemos, primeiramente, nos inspirar para a santidade. Herdeiras(os) da tradição bíblica, é na Palavra de Deus que vamos buscar caminhos de vida santa. Deus mesmo se revelou como mistério fascinoso e tremendo. Na visão do profeta Isaías (Is 6,3), Deus é contemplado envolto por serafins, que cantam: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus dos exércitos; toda a terra está cheia de sua glória”. Esse Deus três vezes Santo é contemplado por João, no Apocalipse (Apc 4,8).

A visão de Deus faz os videntes tremerem. Sintomática é a revelação de Deus a Moisés, no deserto de Madiã (Ex 3,4-6). Curioso com o fenômeno da sarça ardente, Moisés quis se aproximar. Deus o deteve: “Este chão é sagrado”. Por onde Deus passa tudo fica santo. Deus é também aquele que se compadece com a situação miserável do povo. E quer libertá-lo da escravidão, no Egisto (Ex 3, 7-8). João dirá: “Deus é amor” (1 Jo 4,16).

Os salmos, frequentemente, cantam a santidade de Deus, revelada na sua glória, no seu poder criador, na sua benevolência para com seus filhos e filhas. Se eles erram e pedem perdão, Ele usa sempre de misericórdia. 
Deus quer que aquelas e aqueles que partilham sua vida sejam também partícipes de sua santidade: “Sede santos como eu sou santo” (Lv 11, 45).
Jesus, mestre de vida santa

É, sobretudo, no Novo Testamento que descobrimos mais claramente a vocação à santidade. Ao enviar seu Filho ao mundo, que tanto amou, (cf. Jo 3, 16) Deus revela seu projeto para a humanidade. Jesus anuncia o Reinado de Deus. Nele Deus mesmo é o Pai e nós todos somos irmãos e irmãs. Em Jesus, Deus se manifesta cheio de compaixão. Jesus ensina que a santidade do Pai se revela na misericórdia: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso! (Lc 6,36).  

As palavras, atitudes e ações de Jesus tornam-se modelo para seus seguidores e seguidoras. Ele acolhe a todos e a todos faz o bem. Tem, porém, uma predileção pelos pequenos e pobres, pelos excluídos e pecadores.
 
A grande dificuldade é com aqueles que já se consideram justificados e, no seu farisaísmo, não O aceitam. Mas até os demônios, por ele expulsos, o reconhecem: Sabemos quem tu és: o Santo de Deus.

Em Jesus, Deus realiza a definitiva aliança. No sangue da Nova Aliança somos redimidos e voltamos à dignidade filial. Do seu lado aberto surge a Igreja, à qual o Senhor ressuscitado confia o seu tesouro: Palavra, Sacramento e o pobre.

Das primeiras comunidades cristãs temos o belo testemunho dos Atos dos Apóstolos. Os que abraçavam a fé eram “perseverantes em ouvir o ensino dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2, 42) E “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” (At 4, 12). O seu exemplo e o zelo missionário atraía outros à fé.

O apóstolo Paulo, em suas cartas, chama os cristãos de “santos e amados de Deus”. Exorta-os a serem santos e íntegros, no amor (cf. Ef 1, 4). Pede que os cristãos o imitem, como ele é imitador de Cristo. Adverte-os a que trabalhem na sua santificação com temor.  E ensina que a caridade é o vínculo da perfeição. Tudo passa, só permanece a caridade (cf. 1 Cor 13, 8).

João ensina que Deus é amor. E nos deu seu Filho que nos amou ao ponto de dar a vida por nós. Nós devemos amar assim, dando a vida pelos irmos e irmãs.

Ação santificadora de Cristo na Igreja

O mistério pascal do Senhor, celebrado, sobretudo, na Eucaristia, continua sendo fonte de vida santa para nós cristãs e cristãos. A escuta profunda da Palavra e a comunhão do Corpo do Senhor fazem de nós pessoas santificadas e santificadoras.

Já no Batismo, mergulhando na vida trinitária, somos chamados a ser santos. Pois também somos inseridos na Igreja – comunidade santa e católica. Ungidos no Espírito, pelo sacramento da Confirmação, somos tornados templos do Espírito Santo, para levar a boa notícia aos pobres e libertar os cativos. O sacramento da Penitência, que nos reconcilia com Deus e os irmãos, faz de nós pessoas mais dóceis à vontade de Deus. Conscientes de nosso pecado, procuramos a misericórdia do Pai para voltarmos à comunhão fraterna. A unção dos enfermos nos alivia e fortalece no sofrimento, para podermos participar da paixão do Senhor e ser solidários na paixão do mundo.

Pelos sacramentos da Ordem e do Matrimônio, somos capacitados a servir e a doar-nos, na graça do estado, à comunidade ou à família. Os(as) consagrados(as) pelos conselhos evangélicos buscam levar uma vida de santidade segundo o próprio carisma.

A prática das virtudes cristãs

No itinerário de santidade, o cristão, a cristã, deve primar pela prática das virtudes cristãs. Em primeiro lugar, deve ser uma pessoa de fé. Não só acreditando nas verdades reveladas, mas testemunhando-as com a coerência de vida.

Pela esperança, o cristão traduz essa fé para além da realidade presente, aguardando a vinda gloriosa de seu Senhor e almejando a vida eterna, no encontro definitivo com Deus e os irmãos, na glória.

 A caridade – na prática do amor a Deus e ao próximo – é a rainha das virtudes. O pretendente a santo é uma pessoa generosa: serve a Deus na doação aos irmãos. É capaz de partilha fraterna e comunhão solidária. Abrasado de amor lança-se à obra da evangelização, fazendo outros participar da ação salvadora de Jesus Cristo. Por ele e pela salvação dos irmãos é capaz de dar a vida, até com o martírio.

As virtudes cardeais da prudência, da justiça, da fortaleza e da temperança muito ajudam os cristãos a relacionarem-se bem com os outros. A pessoa santa pode até cometer algumas imprudências. No entanto, pode ser ousada para grandes tarefas. Procura ser sempre justa sem prejuízo algum ao próximo. É forte nas lutas e nas adversidades do dia-a-dia, auxiliando o irmão que fraqueja. Sabe seguir a orientação de Jesus, orando e jejuando, para levar uma vida moderada e de equilíbrio.

Pela vivência dos conselhos evangélicos, a pessoa cristã procura seguir Jesus pobre, casto e obediente. Pela pobreza é capaz de renúncia e de desprendimento. Não visa apenas ganhar o Reino dos Céus, mas abre-se àquele que é sua herança e sua riqueza: o próprio Deus. E partilha o pouco que tem com os que nada possuem.

Mediante a castidade, o cristão e a cristã procuram viver ao jeito de Jesus: todo do Pai para se doar aos irmãos. Cada um vive em castidade segundo o seu estado: celibatário ou casado; sacerdote, religioso ou leigo; jovem ou idoso, todos são chamados a uma vida íntegra e digna.

Na obediência é que se avalia a santidade de alguém. Pessoa muito segura de si, cheia de caprichos, rebelde na comunidade eclesial, crítica de todos e de tudo, não pode considerar-se santa. Despojada de si mesma e aberta à vontade de Deus é capaz de grandes missões.

Por fim, a virtude da humildade. A raiz da palavra nos remete a húmus – terra fértil. É saber-se da terra, mas com o coração em Deus. Pode traduzir-se pela capacidade de saber situar-se em qualquer circunstância, tempo e espaço. Em alemão, é demut, que viria de dienstmut ou a coragem de servir. Realmente, a pessoa da terra (rural) sabe servir e ser simples e transparente. O contato com a natureza a remete ao Criador, para louvá-lo e agradecer-lhe todos os dons.

Está aí um bom itinerário para todas e todos nós.

Alguns modelos concretos

Cremos na comunhão dos santos. Nossa Igreja pode se orgulhar de grandes luminares que brilham no firmamento. Temos os apóstolos e os mártires, passando pelos doutores e pastores, monges, viúvas e virgens. Poderíamos discorrer sobre tantas e tantos, como Francisco de Assis ou Teresa de Calcutá. Vale lembrar o que Vicente de Paulo dizia a respeito de Francisco de Sales: “Se Francisco é tão bom, quão bom não será o bom Deus! A santidade contagia, estimula, apaixona.

Detenhamo-nos em alguns exemplos mais nossos: brasileiros, do rincão sul mineiro. São da Diocese da Campanha, da qual sou bispo.

Temos três candidatos à canonização: Nhá Chica, Pe. Victor e Madre Teresa Margarida.

Francisca de Paula de Jesus, mais conhecida como Nhá Chica, viveu entre 1810 e 1895. Era mestiça, filha de escrava e analfabeta. Passou quase toda sua vida em Baependi. Orientada pela mãe, manteve-se celibatária para melhor servir a Deus e aos irmãos.

Grande devota da paixão do Senhor recolhia-se, às sextas feiras, para meditar o grande amor de Jesus por nós. O zelo pela casa de Deus, em especial pela Eucaristia, sensibilizou-a a contribuir para a douração da capela do Santíssimo da matriz da paróquia de Santa Maria. Peculiar é a filial devoção a Nossa Senhora, a quem chamava de Sinhá. Gostava de rezar o terço de Nossa Senhora, a quem suplicava com ternura: Esta é a ocasião; valei-me, Senhora da Conceição!

Nhá Chica atendia a todos sem distinção: letrados e analfabetos, ricos e pobres. A estes ajudava como podia, sobretudo orientando-os e rezando por eles. Considerada Mãe dos Pobres, repartia com eles o que possuía. Gente importante a procurava. Sabia dialogar, mostrando-se sábia e serena.

Seu processo de beatificação iniciou-se em 1993. Complementou-se em 1998. A sua causa foi assumida pela Congregação das Causas dos Santos em 2002. O Papa Bento XVI, em janeiro de 2011, reconheceu a prática das virtudes cristãs, vivenciadas pela Venerável Nhá Chica. Em novembro de 2011, a comissão médica deu parecer favorável à cura de um mal congênito no miocárdio,. Agora, a 18 de janeiro, a comissão de teólogos aprovou também o milagre. Falta a plenária de cardeais e o reconhecimento pelo Santo Padre.

Pe. Francisco de Paula Victor viveu entre 1827 e 1905. É natural de Campanha, onde foi aprendiz de alfaiate. Também filho de escrava, entrou no seminário de Mariana, com o apoio do bispo Dom Antônio Ferreira Viçoso, após algumas lições do cônego Antônio Felipe.

Depois de muito empenho e, certamente, muitas provações, foi ordenado presbítero, em 1851. Após alguns meses, em Campanha, foi destinado como pároco a Três Pontas, onde exerceu seu ministério sacerdotal com muito zelo e dedicação, até sua morte.

Amava os pobres, partilhando com eles os seus bens. Dedicado à educação de crianças e adolescentes, dirigiu por longos anos o colégio Sacra Família. Sua caridade era proverbial. A fama de santidade chegava longe e era chamado para atender doentes e fazer exorcismos.

Sua morte consternou a cidade inteira que tem Padre Victor como “Anjo Tutelar”.

O processo de beatificação iniciou-se em 1993. Foi complementado em 1998.

A fama de santidade e a prática das virtudes cristãs foram aprovadas pela comissão de teólogos, em maio de 2011. Esperamos a decisão do Papa, para que seja invocado como Venerável.

Madre Teresa Margarida é a terceira candidata de nossa diocese. Nasceu em Borda da Mata, MG, a 24 de dezembro de 1915, do casal Francisco Marques da Costa Júnior e Mariana Resende Costa. É a 5ª de doze irmãos, entre eles dom João Resende Costa, que foi arcebispo de Belo Horizonte.

Em tenra idade, a família mudou-se para Cruzeiro. Fez estudos secundários e era inclinada às artes. Era muito dedicada ao irmão mais novo. Ainda adolescente entrou para as Filhas de Maria e já ajudava na paróquia como catequista.

Aos 21 anos, em maio de 1937, entrou para o Carmelo. Viveu nele 68 anos. Em 1962 chegou a Três Pontas com um grupo de Irmãs, para a fundação do Carmelo São José. Aqui levou uma intensa vida de oração e comunhão fraterna. Atendia a todos com um sorriso, procurando ajudar.  Seu carinho para com suas co-Irmãs era tanto que elas decidiram chamá-la de “Nossa Mãe”. Assim ela é conhecida por todos, em Três Pontas.

De feição frágil, era firme e forte nas convicções. A enfermidade, nos últimos anos, não a abalou. Antes a tornou mais dedicada à comunidade carmelitana e à Igreja, sobretudo à Diocese, oferecendo por elas seu sofrimento, unindo-se à paixão de Cristo.

Cheia de méritos, foi-se apagando como a vela sobre o altar. A 14 de novembro de 2005, partia para a casa do Pai.

Seu processo será iniciado dia 04 de março deste ano.

Minhas irmãs, meus irmãos, neste encontro teremos oportunidade de ouvir vários depoimentos sobre pessoas santas. Estimulados por esses testemunhos, abramo-nos ao Espírito do Senhor, rogando que nos faça santas e santos. Amém!

Com o meu abraço e a minha bênção,
† Fr. Diamantino P. de Carvalho, ofm
Bispo da Diocese da Campanha

 
 
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