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Teologia do Ano Litúrgico
Por: Ms. VANDERSON DE SOUSA SILVA
MESTRE EM TEOLOGIA LITÚRGICA Rio de Janeiro
Contato: semvanderson@hotmail.com
 
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O Ano Litúrgico celebra o Mistério de Deus em Cristo e, portanto, se acha enraizado na série de eventos mediante os quais Deus entrou na história e na vida do Homem.

Você sabe o que é o Ano Litúrgico? Vamos aprender um pouco sobre o sentido do Ano Litúrgico. Primeiro ponto a colocarmos é que o Ano Litúrgico em muitas de nossas experiências pastorais é muito desvalorizado e a própria catequese não trabalha a partir do Ano Litúrgico. Mas vamos entender o é o Ano Litúrgico:

O Concílio Ecumênico Vaticano II celebrado em Roma, entre 1962-1965, aprovou, como primicia desta 'primavera eclesial', o documento sobre a Liturgia – a Constituição Sacrosanctum Concilium , esta colocou a Liturgia em estreita relação com a História da Salvação e no capítulo V, intitulado: O Ano Litúrgico, dos números 102 aos 111, trata diretamente do Ano Litúrgico.

Como resumo dos mesmos números, pode-se afirmar que o Concílio, evoca o Ano Litúrgico como o lugar eclesial, por excelência, em que, a função celebrativa e anamnética (recordação) realiza "[...] a obra salvadora de seu divino esposo, em determinados dias, no decurso de cada ano" . A mesma constituição apresenta o Domingo como "[...] o principal dia de festa" , sendo este dia, "[...] justamente denominado dia do Senhor, celebra a ressurreição, como o faz uma vez por ano, justamente com a paixão, na grande solenidade da páscoa" .

Destes pontos, que não esgotam a riqueza do capítulo V da Sacrosanctum Concilium podemos constatar que a Igreja busca acentuar a relação entre a Liturgia e a História da Salvação, que no Ano Litúrgico, ganha espaço para ser vivenciado pela comunidade cristã na celebração do Mistério de Cristo nos mistérios litúrgicos; bem como, a centralidade do Domingo que é 'o principal dia de festa" , dia pascal, dia de ouvir a Palavra de Deus e alimentar-nos da Eucaristia .

Portanto, emergem alguns pontos:

a. A centralidade e a prioridade do Mistério de Cristo e de sua páscoa sobre qualquer outra celebração .
b. Na celebração das solenidades, festas e memórias da Virgem Maria e dos Santos, destaque para os santos mártires, deve-se ressaltar sempre a relação intrínseca com o Mistério de Cristo. Assim, quando se celebra na liturgia a memória de Maria e dos Santos é por causa da Páscoa de Cristo em seus membros. Nunca uma memória isolada de Cristo e de seu Mistério Pascal.

c. Portanto, seria muito extrínseco a liturgia celebrar a memória de Maria e dos Santos por si mesmo, desconectados da referência indissociável da Páscoa de Cristo.

Para A. Bergamini a teologia do Ano Litúrgico deve iniciar afirmando o não caráter estático do mesmo, como um simples calendário, com sucessão de solenidades, festas e memórias, de semanas, dias e horas, mas antes, é a pessoa de Jesus Cristo. Assim, o Ano Litúrgico é a celebração do Mistério de Cristo temporalizado nos mistérios rememorados pela Igreja em cada tempo.

O Ano Litúrgico não é uma ideia, mas é uma pessoa, Jesus Cristo e o seu mistério realizado no tempo e que hoje a Igreja celebra sacramentalmente como 'memória', 'presença', 'profecia'. O mistério de Cristo foi compreendido e celebrado liturgicamente pela Igreja no decorrer dos séculos segundo critério que vai da 'concentração à distribuição', e pelo qual se passou progressivamente do 'todo' considerado na páscoa à explicitação de cada um dos mistérios separadamente.

O centro do Ano Litúrgico é a celebração do Mistério Pascal desdobrado em tempos-kairóticos privilegiados: Tempo Pascal-Pentecostal, Tempo Comum, Tempo do Advento, Tempo Natalino-Epifânico, Tempo Quaresmal . O Ano Litúrgico não é numa celebração cíclica, evocativa do eterno retorno, mas antes, sua melhor imagem é a de um espiral que cresce e conduz a comunidade cristã a aprofundar a cada novo Ano Litúrgico a experiência metanóica da Páscoa, a cada ano pascalizando-nos, configurando-nos ao Cristo Ressuscitado.

O Ano Litúrgico pode ser utilizado na catequese, em vista de introduzir os catequisandos no Mistério de Cristo celebrado pela Igreja na liturgia. Vamos começar a valorizar o Ano Litúrgico na catequese?

Notas:

A. BERGAMINI. "Ano Litúrgico", in D. SARTORE, A. M. TRIACCA, Dicionário de Liturgia. Paulinas, São Paulo, 1992, p. 59.
A Sacrosanctum Concilium afirma que "[...] a Liturgia constitui a primeira e, mais ainda, a necessária fonte da qual os fiéis podem beber um espírito verdadeiramente cristão". (SC 14), bem como, a liturgia é definida como o "cume para o qual tende a ação da Igreja" (SC10).
SC 102.
SC 106.
SC 102.
SC 106.
SC 106.
SC 103 assevera que: "Celebrando o ciclo anual dos mistérios de Cristo, a Igreja venera com amor peculiar, a bem-aventurada mãe de Deus, Maria, que está intimamente associada à obra salutar de seu Filho. [...]". E a SC 104, afirma que: "No ciclo anual, a Igreja inseriu igualmente a memória dos mártires e de outros santos, que chegaram, por muitos caminhos, à perfeição, por graça de Deus, alcançaram a salvação eterna, e hoje cantam, no céu, louvor sem fim a Deus, intercedendo por nós. Na festa natalícia dos santos, a Igreja proclama o mistério pascal, vivido por aqueles que sofreram e foram glorificados com Cristo [...]". Portanto, a memória de Maria e dos Santos é proclamação da páscoa de Cristo.

A. BERGAMINI, Cristo, festa da Igreja. O Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 161.
A divisão do Ano Litúrgico em Tempos pode ser explicada por dois motivos: o pedagógico, pois "[...] em nossa limitada capacidade psicológica, não podemos perceber e penetrar toda a sua infinita riqueza com um só olhar. [...] a Festa litúrgica é justamente isto: colocar em relevo liturgicamente ora um, ora outro aspecto do único mistério, ou seja, celebrar cada um dos mistérios"; e o teológico, este afirma que "embora o mistério seja visto na sua inseparável unitotalidade e á luz do seu centro vital, a Páscoa [...] Todos os atos da vida de Cristo (os mistérios) são salvífico e cada um deles possui uma bem precisa conotação e um valor próprio no plano de Deus [...]". Contudo, Bergamini pondera que "Sabemos que no memorial Eucarístico está contido todo o bem espiritual da Igreja, isto é o próprio Cristo, nossa Páscoa. Na Eucaristia estão vivos e se concentram, em grau máximo, todos os aspectos do mistério de Cristo e de toda a história da salvação. Cada missa pode-se dizer, é Advento, Natal, Sexta-feira Santa, Páscoa, Ascensão, Pentecostes. Toda festa litúrgica está realmente contida no memorial do sacrifício pascal de Cristo. O conteúdo salvífico sobre-histórico do mistério é total, inseparável e unitário em toda plenitude da sua realidade para a vida da Igreja. [...] O homem participa (do mistério) apenas gradualmente, mas o mistério é em si mesmo total e perfeito". A. BERGAMINI, Op. cit., p. 110.

Como afirma A. Bergamini, "no primeiro período da história da Igreja, a Páscoa foi o centro vital e único da pregação, da celebração e da vida cristã. Não devemos esquecer este dado importante: o culto (liturgia) da Igreja nasceu da páscoa e para celebrar a páscoa." Cf. Dicionário de Liturgia, p. 58. Ainda Cantalamessa, assevera: "Existiu uma época na vida da Igreja em que a Páscoa era, por assim dizer, tudo. Não somente porque ela comemorava, sem partilhar com nenhuma outra festa, toda a história da salvação, desde a criação até a parusia, mas também porque ela era o lugar de formação de alguns componentes essenciais na vida da comunidade: a liturgia, a exegese tipológica, a catequese, a teologia e o próprio cânon das Escrituras". Cf. R. CANTALAMESSA, La Pasqua nella Chiesa Antica. SEI: Torino, 1978, pp. 13. Portanto, no período patrístico a Liturgia era o lugar onde catequese, exegese, pastoral, homilética, espiritualidade, moral e teologia hauriam seus elementos para trabalha-los no específico de cada ciência sagrada, assim, havia algo que unia a vida eclesial, o Mistério Pascal, que perpassava toda a vida cristã.

 
 
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