| A assembleia é presença real de Cristo |
Por: Ms. VANDERSON DE SOUSA SILVA
MESTRE EM TEOLOGIA LITÚRGICA Rio de Janeiro
Contato: semvanderson@hotmail.com |
| |
| Leia os outros artigos |
| |
A assembleia é a reunião dos batizados-crismados para realizar o culto de adoração e louvor ao Pai, pelo Filho no Espírito Santo. O que é assembleia? Bom, primeiramente não é uma associação qualquer, uma reunião que parte da vontade humana. Mas, a associação dos fiéis em assembleia na liturgia é vontade de Deus, que desejou constituir um povo que o adoraria pelo culto. Assim, a assembleia é santa e convocada pelo Espírito Santo que reúne os indivíduos para torná-los UM.
Na Oração Eucarística a assembleia responde: “Fazei de nós um só corpo e um só espírito”. Um corpo, pois comungamos o Corpo de Cristo para nos tornar um só corpo D’Ele e só grupo reunido pelo mesmo Espírito Santo.
A primeira realidade visível da liturgia cristã é a comunidade reunida, a assembleia santa, o Povo sacerdotal. Em grego, esta congregação de fiéis chama-se synaxis. A palavra assembleia vem do latim, assimulare, que significa juntar de simul, ao mesmo tempo. No Antigo Testamento (Ex 19-24, 1Rs 8 e Ne 8-9), é frequente encontrar referência às grandes assembleias do Povo de Israel, escutando a Palavra de Deus, dirigindo-lhe a sua oração e celebrando os gestos simbólicos da Aliança.
O povo sentia-se convocado por Javé, o “qahal Jahvé”. No Novo Testamento, a convocatória produz-se à volta de Jesus Cristo e chama-se sobretudo Igreja (ekklesíaem grego), povo convocado e congregado. Desde a primeira geração, a assembleia litúrgica é uma realidade importante, no conjunto da vida cristã, embora, desde muito cedo, fosse necessário recordar aos mais preguiçosos: “sem abandonarmos a nossa assembleia – como é costume de alguns –, mas animando-nos” (Heb 10,25).
Ao longo dos séculos, “nunca a Igreja deixou de se reunir em assembleia para celebrar o Mistério Pascal” (SC 6), sobretudo para a Eucaristia dominical, porque o domingo, desde a primeira geração, é o dia por excelência da reunião da assembleia cristã, é dia Pascal.
A motivação não é só pedagógica ou sociológica – a assembleia litúrgica cristã “ultrapassa todas as afinidades humanas, raciais, culturais e sociais” (CIC 1097) –, mas, sobretudo teológica: “Na celebração da Missa, os fiéis constituem a nação santa, o povo resgatado, o sacerdócio real”(IGMR 95).
O povo sacerdotal, a comunidade dos batizados-crismados, reúne-se para celebrar o mistério da Nova Aliança, sempre com a convicção da presença, invisível mas real, do seu Senhor, Jesus Cristo, que prometeu: “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles” (Mt 18,20).
A assembleia é o lugar de preferência da presença do Senhor. Não nos esqueçamos das presenças de Cristo na liturgia: Cristo está presente na Palavra proclamada, na pessoa do presidente, na assembleia e no Pão e no Vinho. Segundo Paulo VI e o Concílio Vaticano II - lembram-nos esses autores - Cristo está presente na liturgia em não menos de cinco formas: na assembleia, quando nos reunimos para a oração; na Palavra de Deus, quando é proclamada; no sacerdote, quando celebra a missa; nos sacramentos, quando são administrados; e, finalmente, no pão e no vinho.
A presença nas espécies consagradas, afirmam esses autores, é apenas uma das cinco maneiras e não deveria ser tomada como se fosse a única efetiva. De fato, dizem, deveria ser vista como subordinada à presença na Igreja, da qual é um sinal sacramental. Agostinho e Tomás de Aquino acaso não ensinaram que a finalidade do sacramento é criar a unidade da Igreja como corpo místico de Cristo? Alguns teólogos, a partir disso, começaram a dizer que a presença de Cristo está primariamente na assembleia reunida.
Segundo o ensinamento da Igreja, as múltiplas presenças de Cristo são efetivasse importantes, mas a presença na Eucaristia ultrapassa as outras. Cerca de quinze anos antes do Vaticano II, o papa Pio XII chamou a atenção para quatro das maneiras como Cristo está presente na liturgia. Mas se preocupou em precisar que essas maneiras de presença não estavam todas no mesmo nível. O Divino Fundador da Igreja, escrevia o Papa, “está presente [...] sobretudo sobas espécies eucarísticas” (Pio XII, encíclica Mediator Dei, 20).
Ao mesmo tempo, cada assembleia litúrgica é a realização concentrada e a epifania (manifestação) de toda a Igreja: “O povo de Deus, que se reúne para a Missa […]se exprime nos diversos ministérios e diversas ações” (IGMR 294; cf. IGMR 91).
A assembleia cristã é a que celebra a Eucaristia, sob a presidência do ministro que a completa visibilizando o verdadeiro presidente, Cristo: “Na Missa ou Ceia do Senhor, o povo de Deus é convocado e reunido, sob a presidência do sacerdote que atua na pessoa de Cristo, para celebrar o memorial do Senhor ou sacrifício eucarístico” (IGMR 27).
Por isso, ao reformar as celebrações sacramentais e a Liturgia das Horas, tomou-se como um dos critérios fundamentais, o favorecimento da participação ativa por parte de toda a assembleia reunida, a oração e o canto nos momentos oportunos, as ações sacramentais nas quais participa, as aclamações e diálogos, etc.
No documento Celebrações na Ausência de Presbítero (1988) da Congregação para o Culto Divino está bem vincada a importância da assembleia litúrgica para o povo cristão: as comunidades sem presbítero não poderão celebrar a Eucaristia, mas sim “a reunião dos fiéis, para manifestar que a Igreja não é uma assembleia formada espontaneamente, mas convocada por Deus, ou seja, o povo de Deus organicamente estruturado, ao qual preside o sacerdote na pessoa de Cristo Chefe” (n. 12). “Nunca se dirá suficientemente a importância capital da assembleia do domingo, quer como fonte de vida cristã de cada pessoa e das comunidades, quer como testemunho do projeto de Deus: reunir todos os homens em seu Filho Jesus Cristo” (n. 50; cf. EDREL 3240. 3278).
Portanto, a assembleia é presença real de Cristo! É o que a liturgia quer expressar na incensação, as presenças de Cristo são incensadas: as oblatas, o presidente, o Evangelho e a assembleia. Tomemos consciência da presença real, verdadeira e substancial da presença de Cristo na assembleia reunida em liturgia. O que não permite qualquer clericalização desnecessária na liturgia, o povo santo, sacerdotal e régio é presença de Cristo real!
|