Liturgia Dominical
 
21º Domingo do Tempo Comum - A.
 
Leia as outras homilias
 

“Inclinai, Senhor, o vosso ouvido e escutai-me; salvai, meu Deus, o servo que confia em vós. Tende compaixão de mim, clamo por vós o dia inteiro”(cf. Sl 85,1ss).

Hoje celebramos a festa das chaves. Aquilo que for ligado na terra será ligado no céu. Aquilo que for desligado na terra será desligado no céu. Sobre a escolha de Pedro que, por inspiração divina, reconheceu o Senhorio de Nosso Senhor, foi instituída o caminho ordinário de salvação que é a Igreja, uma, santa, católica e apostólica.

Os Evangelhos sinóticos conhecem na profissão de fé de Pedro em Cesárea de Filipe um dos pontos altos da nossa fé católica. Hoje vamos refletir sobre a simbologia do poder das chaves. A Primeira Leitura, retirada do Livro do Profeta Isaías 22,19-23, nos fala da missão de Isaías junto a Sobna, prefeito do palácio, para o depor de seu cargo e instalar no seu lugar Eliacim, filho de Helcias, “pondo sobre seus ombros as chaves da casa de Davi”(cf. Is 22, 22), isto é, a vida boa e cheia de mordomias do Palácio e, aparentemente, o poder civil da Prefeitura da cidade. Ao mordomo cabia a tarefa de admitir ou recusar as pessoas diante do rei, como também a responsabilidade de sua hospedagem; daí ele ser chamado de “Pai dos habitantes de Jerusalém”: ele é quem dirige a casa. Do meio do povo o Senhor chama pessoas simples e humildes como Eliacim e encarrega-o de uma missão especial: ajudar o seu povo a entender os sinais dos tempos.

Irmãos e Irmãs,

Refletimos hoje o mesmo Evangelho que rezamos e vivenciamos na festa de São Pedro e São Paulo, que é inserido dentro do discurso eclesial de São Mateus. O Evangelista coloca o quadro deste relato dentro da conotação de atores do antigo testamento, como São João Batista, o precursor; Elias, Jeremias, ou outros dos profetas. Tudo isso para significar que Jesus é o maior de todos os profetas, que associou, pela sua morte na Cruz, a todos os “grandes precursores” do Antigo Testamento. Jesus é o profeta, é o Divino Salvador, aquele que liga e desliga, que abre o acesso para a salvação.

Uma salvação fundamentada em Cefas, Pedro, na Igreja, na catolicidade de Roma, anunciada numa cidade pagã, criada para homenagear o poder do mundo, na pessoa de César Augusto, mas para significar a catolicidade, ou seja, a universalidade da salvação para todos os povos, os crentes e não crentes, os judeus, pagãos e gentios.

Peregrina na esperança, denunciando toda a injustiça e desesperança, como Corpo Místico de Cristo a Igreja fundada sobre a rocha tem todas as vicissitudes, alegrias, temperanças, páginas de fé e de sombra na história de uma instituição que divina, é composta de homens e mulheres pecadores. Mas aonde abundou o pecado, superabundou a graça, daí a constatação de que Deus deposita na criatura humana uma confiança, conclamando-o a ser parceiro na história da salvação.

Meus caros irmãos,

Hoje é um dia de refletirmos sobre a necessidade de assumirmos o nosso batismo, saindo da vida sacramental e encarnando o compromisso pastoral para que possamos caminhar para a vivência da nova evangelização, como nos conclama a Igreja pela voz de seus sagrados pastores, convidando a todos a “lançar as redes nas águas mais profundas”.

A Igreja não é um lugar somente para atos sociais, para compromissos sacramentais, como casamentos, batizados e exéquias. A Igreja é caminho ordinário de salvação, é compromisso comunitário, é modelo de partilha, acolhida e meio de salvação, caminho que une o céu e a terra, nos colocando na “palma da mão de Deus”. A Igreja é toda ministerial, por isso o padre anima e o leigo assume a sua missão que é tornar Jesus mais conhecido, seguido, amado e vivenciado dentro da grande missão inspirada pela ação de Aparecida sob o olhar latino-americano.

O grande desafio que o Evangelho de hoje nos coloca é para que todos saiam do indiferentismo e se engajem no anúncio do “querigma cristão”, porque a Igreja não é feita de anjos, mas sim de homens e mulheres, com todas as suas qualidades e todos os seus defeitos.

Amigos,

Celebramos hoje a unidade da Igreja que se parece à unidade de um corpo vivo. Na Igreja temos um ponto de convergência que é Jesus Cristo aqui na terra representado pelo seu único Vigário que é o Santo Padre. O Papa que nos une dentro de uma enorme gama de carismas, ministérios, vocações, forças pastorais, eclesiais, movimentos, associações, espiritualidade, linhas e tendências que convergem para a Trindade que tem no Papa o seu ponto de união.

Uma lição da escolástica teológica bem sintetiza a grande da unidade da Igreja: nas coisas acidentais a liberdade, nas coisas essenciais a unidade e em tudo a caridade.

Dentro da barca fundada sobre Pedro encontram-se todos e tudo aquilo que gravita na órbita eclesial. Nesta pluralidade de carismas age o Espírito Santo que governa a Igreja e empolga o Povo de Deus na construção da salvação no meio em que vivemos e peregrinamos rumo ao Absoluto.

Todos podemos ver as diferenciações nos ritos, nas formas de pensamento teológico, na oração, na observação da disciplina particular, entretanto, neste pluralismo nasce a unidade da grandeza esplendorosa da única Igreja de Cristo conforme nos ensina a página conciliar: “Não é apenas através dos sacramentos e dos ministérios que o Espírito Santo santifica e conduz o Povo de Deus e o orna de virtudes, mas, repartindo seus dons a cada um como lhe apraz distribuiu entre os fiéis de qualquer classe mesmo graças especiais” (cf. Lumem Gentium 12, 2.)

Jesus não é um líder militar, mas o salvador da humanidade, por seus pecados morrendo no madeiro do catafalco. Por isso na Igreja todos os ministérios e carismas devem ser desenvolvidos com extrema humildade, como serviço eclesial em benefício do reino de Deus e da edificação da Jerusalém Celeste, porque “não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”.

Irmãos e Irmãs,

O hino Paulino de Romanos 11 trata do mistério da Salvação e da justificação gratuita pela graça de Deus e a fé em Jesus Cristo: depois de rezar e meditar, não nos resta outra atitude, senão aquela do apóstolo: pela graça de Deus se ascende ao Reino do Divino salvador. Deus não fica devendo a ninguém, porque tudo no seguimento é pura graça e misericórdia.

Por isso reconhecendo o poder das chaves concedida à Igreja Católica, como guardiã do desejo do Senhor Salvador, cantemos com o Apóstolo o nosso compromisso evangelizador para a semana: “Na verdade tudo é dele, por ele e para ele. Ao Onipotente, Deus do Céu e da Terra, imortal e invisível, honra e glória pelos séculos dos séculos, Amém!”



 
 

xm732